terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tráfego Aéreo

Vejo minha cidade se aproximando
Pequena, em uma janela pequena,
Distante ainda, mas cada vez mais minha.
Minha amante, minha amada,
Meu paraíso, minha gaiola dourada,
Aquele berço dos meus sonhos,
E fico me perguntando
Se caberei no velho eu.

Itaca foi a razão e o propósito,
Ela me deu uma viagem única
Ela não pode me dar nada mais.

Não posso cobrá-la.
Meus olhos veem pessoas sorrisos abraços.
Minha alma não vê nada,
Seu voo está atrasado.

sábado, 27 de setembro de 2014

Mais presente que a vida presente

Quando tudo é simples, tudo é sim,
Tudo é o mais puro significado,
E a vida em sua beleza sem fim
Se mostra, nesse momento dado,

De um leve sentimento agridoce
O coração se apossa: guardá-lo,
De um lado, como se eterno fosse,
E de outro desfrutar o regalo.

Sabendo chegar o inclemente algoz,
A alma observa cada mínimo detalhe
E a toda leve impressão dá voz.

Então ele se esvai, como esperado.
Leva consigo um profundo entalhe,
Mas entrega um prazer azulado.

Escrever

Escrever é pegar um pingo
De chuva
Com uma pinça
E eternizá-lo no papel.
É fotografar o vento,
Parar um rio em movimento,
E fazer do passado e do futuro
Tempo presente.

É ouvir o canto das musas,
Mergulhar com as ninfas,
E exercer a existência.

É saber calar e saber dar voz.
É mergulhar na profunda foz
De todos os medos e sentimentos.
De lá sair largo
E se estreitar
Para poder
Comunicar.

É criar o sonho de todos,
E sonhá-lo
Como se fosse
Só seu.

E cantando
E sorrindo
Viver como se sonha.

Pensamento Passageiro

O mundo se mostra.
Eu abro os olhos
E vejo.
A vida demonstra
Ser trágica e bela.

O ser é tão leve
Que de leve se torna grave.
A gravidade é tão séria,
Que de grave se torna leve.

O existir é um privilégio,
O porvir é agora.
A hora presente,
Contém tudo.

Uma manhã ensolarada,
Uma praça, um jardim.
Eu existo
E sou feliz.

Um pedido

Poeta, sonhe por nós,
O mundo é mais doce com seu canto,
O mundo é mais mundo com sua voz.
Enquanto seus olhos veem encanto,

Apenas para baixo olham os nossos.
Lançamos pedras, mas não se incomode
São nossos medos e rogos,
De quem, como você, vive e sofre.

Por que trabalharia a formiga,
Sem a cigarra e sua beleza,
Sem tão suave cantiga?

Assim, em um momento certo,
Nós nos voltaremos à sua certeza,
Nós o leremos e ficaremos mais perto.

À Beira

Aqueles acostumados ao conforto,
Chegam ao deserto e tem medo.
Não deixam o tentacular seguro porto,
Sempre é tarde, ou demasiado cedo.

Mas você que subiu as grandes montanhas
Viu que é passageiro todo deserto,
Viu no horizonte prodigiosas façanhas,
Viu mais longe e estava certo

Do seu caminho. Ítaca continuará
Em seu lugar, pacientemente aguardando,
Você sabe, e sua alma lhe diz, doce, vá!

Então colocando o pé na areia escaldante,
Um fresco frisson arrepia quando
Você diz sim, nunca mais como antes.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mar

O mar sopra infinito:
Olha-lo é uma entrega.
Elixir para o coração aflito,
De tanta beleza se cega.

Seu cheiro sopra lembranças
Agradavelmente doces.
Suas ondas em suave dança,
Como se o beijo do amante fosse.

Seu verde azulado pequeno
Nos faz, seu toque suave
É de um brilho ameno.

Sinto a tua falta com todo meu ser.
Estar em ti é a chave
Para finalmente pertencer.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Olhar

Olho a lua,
Olho o rio,
E vejo o reflexo
Do que eu nunca esqueci.

Olho-a nua,
Olho, confio,
E vejo-a perto,
Em semblante feliz.

O não não existe,
O futuro insiste
Em estar todo aqui.

E me volto às estrelas
E à rainha amarela
Em um sorriso que diz.

Ver

Em uma fresca tarde de setembro
Abri os olhos e pude ver.
Você, é claro, eu me lembro,
Junto a mim, sem se mover.

Todo o verde à minha frente,
Era um belo presente seu,
Todo o azul acima somente
Me deixava a certeza do eu

Não existir. Pássaros em revoada.
Passantes, um cigarro, um beijo.
O doce sabor de não ser nada,

E só contemplar. O vento ruidoso
Soprava, e em meu peito o doce desejo
De morrer embalado nesse gozo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Observo o mundo e estou de acordo

Observo o mundo e estou de acordo.
Vejo a beleza nos galhos balançando,
No uivar do vento e nas bicicletas passando,
No gosto desta água sem gosto,
Nos passantes caminhando sem rosto,
Nas badaladas que anunciam a chegada do meio dia,
Nos pássaros em revoada com a partida do verão,
E nesse buquê de flores indo para uma casa singela e cuidadosamente decorada.

Meu sorriso diz sim,
O mundo pergunta e eu concordo.
Meu olhar diz sim,
O mundo se mostra e eu recordo
Como é bom viver,
Como é belo ser.

Tocam os sinos, é uma hora.
Devo voltar.
A experiência é passageira no tempo,
Mas duradoura na alma.

domingo, 13 de julho de 2014

João Alguém

Aos meus professores
João queria ser alguém. Ele adorava escrever e pensava que aquele seria o seu modo de ser dono do seu destino. Experimentava formas diferentes, crônicas, poemas, contos. Já havia lido bastante quando começara o curso de letras, ao terminar o curso percebeu que não havia lido nada. São tantos nomes, tantas escolas, movimentos, gerações. A maior sabedoria que ganhara em seu curso foi a consciência da sua ignorância.
Pagava suas contas dando aulas particulares e revisando trabalhos acadêmicos. Isso sustentava seus parcos hábitos, apartamento pequeno, sem carro, poucas viagens, sem esposa nem filhos para criar. Às vezes gastava um pouco mais com uma edição especial de um livro que sabia que utilizaria muito, era seu pequeno prazer proibido. Fazia isso pelo menos uma vez por mês, pedia para embalar para presente. Ao chegar em casa, gostava de jantar olhando o pacote ainda fechado. Apenas terminando o jantar se permitia devorá-lo de sobremesa. De resto, frequentava a biblioteca pública que ficava nas redondezas, saía eventualmente com os amigos nos fins de semana, tinha uma vida pacata.
Conversava frequentemente com seu professor de literatura do colégio. Geraldo sempre cativou os seus alunos com seu jeito espontâneo e apaixonado, fora homenageado em incontáveis formaturas e cerimônias. Sempre com seu jeito bondoso, era impossível não se entregar àquele sorriso constante que era sua marca registrada.
Os dois haviam combinado de se encontrar quarta-feira, em um bar mais ou menos próximo da casa de ambos.
Para não perdermos nosso tempo, saltemos para a parte mais interessante do diálogo. Após colocarem as notícias em dia, eles conversavam sobre arte literatura:
- A arte é maior do que o homem, disse Geraldo. A arte é uma das poucas possibilidades que o homem tem de ser imortal. Por que até hoje lemos epopeias gregas, romanas, milhares de anos depois? Existe algo de fundamentalmente humano que nos conecta a eles e que podemos perceber através da arte.
- Mas e a filosofia?, perguntou João. Ela também não imortaliza o homem? O ser filósofo não permitiria essa ‘imortalidade’ sobre a qual você está falando?
- Tem autores que dizem que sim. Particularmente, eu diria que fazer filosofia pode te projetar à frente do seu tempo, mas que não te imortaliza. Nietzsche tinha consciência que escrevia muito mais para as próximas gerações do que para os seus contemporâneos. Mas será que ainda leremos seus textos daqui a alguns milhares de anos?
- Mas nós ainda não lemos a filosofia grega?
- Sim, ela é um dos fundamentos da nossa cultura ocidental. Existem momentos na história onde o pensamento humano deu um salto, e foram necessários vários séculos para compreender esse salto. Mas a filosofia, pela sua própria constituição, necessariamente deve ser ultrapassada. Conceitos revisados, visões modificadas. Isso acontece na arte com a sua forma, e não com ela em si.
- Não entendi esse pulo.
- No campo da teoria, sempre podemos dizer que alguns conceitos estão ultrapassados, que simplesmente não fazem mais sentido em razão do conhecimento atual que temos. A grande arte, por outro lado, nunca pode nem nunca será ultrapassada.
- O que seria essa grande arte?
- Bem, essa é uma longa discussão. Adorno coloca em sua Teoria Estética que existiria um sentido metafísico que permitiria às obras de arte dialogarem com os novos tempos. Existe uma figura que é quase um lugar comum em estudos literários: a literatura como palimpsesto. Um palimpsesto é um tipo de pergaminho ou papiro que foi reutilizado várias vezes. O texto original era apagado por alguma técnica, mas hoje em dia, com a tecnologia que temos, algumas vezes conseguimos ver os diversos textos que foram escritos naquele palimpsesto, e não apenas o último. A literatura como palimpsesto é uma metáfora dos diferentes níveis de leitura: seria possível uma leitura superficial, onde um determinado sentido fosse construído, além de leituras mais profundas, que permitiriam novas construções de sentido.
- Como eu poderia fazer uma literatura como palimpsesto?, perguntou João ansioso.
- Ah, essa é uma pergunta de um milhão de dólares. Primeiro, antes de pensar nisso, para pensar em fazer literatura você deve encontrar a sua voz, o que vibra dentro de você. Proust dizia que seu mundo interior era uma mina a qual ele era o único mineiro que tinha acesso. Você deve encontrar essa mina dentro de você, para então dar suas joias ao mundo.
- Eu estava pensando em escrever um conto, mas não sei muito bem o tema...
- Um conto é uma forma interessante, bastante livre. Deixe o tema vir, não o busque. Quando ele vier a você, aí comece a pensar em fazê-lo grande. Particularmente, acho que a arte carrega a sua imortalidade na multiplicidade de sentidos no qual ela é baseada. Por que até hoje ainda falamos de Capitu?
- Mas ela traiu Bentinho, não traiu?
- Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe, brincou o professor. A literatura não é um mundo de certezas e eu sou da opinião de que Machado escreveu esse livro de forma a intencionalmente criar a dúvida. Acho que ele evita tomar partido de um dos lados propositalmente. Utilizando a dúvida como motor da narrativa você multiplica os sentidos que se podem atribuir.
- Entendi. Mas como colocar a dúvida dentro de um conto?
- Bem, no caso de Dom Casmurro, Machado o escreveu como um diário de uma pessoa ciumenta, o que por princípio gera dúvida. Em um conto, as possibilidades são múltiplas. Existem dois gêneros dos quais eu gosto bastante: a metaficção e o fantástico.
- Fantástico é aquele do Todorov?
- Isso mesmo. Segundo esse teórico, o fantástico é um gênero fundado na dúvida. Por exemplo, quando em uma narrativa acontece algo de mágico, como uma cadeira voar. Se aceitamos que a cadeira voa, estamos no âmbito do maravilhoso, que está no mesmo nível dos contos de fadas. É um mundo que segue regras diferentes das nossas. Se, por outro lado, o texto nos dá uma explicação racional para aquele acontecimento estranho, estamos no âmbito do insólito. O fantástico é quando até o final ficamos com a dúvida: será que aconteceu ou será que não? Em qual dos âmbitos o texto se encontra?
- Então a solução é não dar explicações?
- Mais ou menos. É como caminhar sobre o fio de uma navalha sem cair para nenhum dos lados. As explicações podem ser utilizadas para gerar ainda mais dúvida. Ele utiliza como metáfora do fantástico o instante presente, essa parcela de tempo fugidia que está entre o passado e o futuro.
- Entendi. E o outro que você tinha falado?
- É a metaficção. A metaficção é um gênero baseado no uso da metalinguagem, não deixando o leitor esquecer-se de que o texto se trata de uma criação. Podemos utilizar como metáfora as escadas infinitas de Escher, que reforçam nossa ideia de que aquilo é uma pintura. Na metaficção, é possível criar uma sugestão de ruptura entre níveis diferentes – o personagem dialogando com um narrador de terceira pessoa, por exemplo, o que nos sugere indiretamente a possibilidade de ruptura da nossa realidade com algo que estaria atrás ou acima de nós. É um gênero um pouco difícil, mas muitíssimo interessante.
Eles continuaram conversando ainda por bastante tempo, sobre os mais variados temas. João já havia se aproximado de alguns daqueles conceitos durante a sua faculdade, mas ver alguém expô-los assim tão apaixonadamente e de forma tão clara, o deixou empolgado e com a cabeça a mil.
Ao chegar em casa, ele teve uma ideia. Escreveria sobre si, algo de sua história. Um conto rápido, utilizando a metaficção. Dois personagens conversando: um professor e um escritor. O escritor teria uma boa ideia para escrever um conto.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Círculo

Eu tinha uma vida que se pode chamar de tranquila. Esposa, uma filha, um emprego bom, pelada com amigos no fim de semana, cerveja nas sextas e sábados. Tudo bem, tudo tranquilo. Mas estava insatisfeito. É difícil explicar de onde ou quando isso surgiu, teria que narrar toda a minha história até eu chegar aqui, uma vez que tudo que eu fiz e que aconteceu comigo de alguma forma me moldou e me fez quem eu sou hoje, mas enfim, o ponto é que eu estava insatisfeito. Era algo que vinha de dentro, forte, escuro.
Essa insatisfação foi crescendo a um ponto que eu não queria mais ir trabalhar, não queria mais sair com meus amigos, por mais que eu amasse a minha filha pequena, não queria dar atenção às suas reclamações incessantes, não queria mais me envolver com ninguém. Mas eu não podia parar minha vida para dar ouvidos a essa insatisfação. Foi então que veio morar comigo um outro eu. Igualzinho a mim, no andar, no penteado, no jeito de falar, tudinho. Ninguém reconheceria a diferença. Coloquei um colchão de ar ao lado da cama de casal que eu dormia com Helena, minha esposa, e ele fez-se em casa. De início foi um pouco desconfortável ter mais uma pessoa morando no pequeno apartamento alugado com tanto esforço, mas nada que não fosse possível se acostumar.
Gostava dele. Quando eu estava um pouco para baixo ele sempre vinha com algo engraçado, sabia como deixar o clima lá em casa mais leve. Jantávamos nós quatro e tudo ia bem, até que aquela insatisfação começou a crescer novamente. Difícil de explicar, mas voltou.
Foi então que um novo eu veio morar conosco. O apartamento que já estava ficando apertado, ficou ainda mais. Esse daí ficou no sofá, na sala mesmo. Mas a cada nova insatisfação surgia um novo eu, e a casa foi ficando inabitável.
Fizemos uma divisão. Um de nós ia trabalhar, outro cuidava da filha, outro dava atenção à Helena, outro era responsável por fazer compras, e assim por diante. Apenas desse modo foi possível gerenciar aquele time que não parava de crescer. Com o tempo, cada um foi ganhando traços característicos, era visível que nós íamos nos diferenciando: um mais sério, outro mais brincalhão, as expressões, o jeito de falar, tudo.
Para alimentar todas aquelas bocas, senti que precisava trabalhar cada vez mais. E assim fiz por bastante tempo. Chegava exausto. Dei meu sangue na empresa, ficava por lá 12, 14 horas seguidas às vezes. Trazia coisas para fazer em casa, trabalhava no final de semana.
Com o tempo, conseguimos nos mudar para um apartamento maior. Quatro quartos, uma salão de festas, um varandão. De dar inveja a qualquer um. Quando fiz uma festa para receber os amigos com os quais antigamente jogava pelada, todos ficaram com inveja. Comprei um carro maior para comportar toda aquela gente, aqueles esportivos bem grandes.
Estava indo tudo bem, se não fosse um detalhe. Era uma terça-feira quando isso aconteceu. Havia tido uma reunião muito difícil, negociação internacional, fuso horário diferente. Cheguei em casa um pouco depois da meia noite, estavam todos dormindo. Sentei em uma poltrona para respirar um pouco quando minha filha apareceu e me puxando pelo braço, me pediu: “Você pode chamar o papai? Eu não consigo dormir.” Achei estranhíssimo, minha filha não me reconheceu. Argumentei que era eu o papai, mas ela não aceitou. Acabou desistindo e foi dormir sozinha.
Aquilo ficou girando pela minha cabeça por algumas horas. Fui então me olhar no espelho para ver se tinha algo diferente e então não reconheci o homem do outro lado. Não sabia quem era ele, tinha traços diferentes aquele lá, uma expressão dura.
Quem era eu se eu não era ele?
Me lembrei que quase nunca me olhava no espelho, aqueles outros eus que moravam lá em casa sempre me foram suficientes, me via neles e estava tranquilo. A barba só fazia no barbeiro. Espelho era uma raridade... Mas desde quando?
Desde o surgimento daquele primeiro eu. Fora ele o início. Até lá estava tudo bem, não tinha do que reclamar. Mas foi só ele chegar que toda a dinâmica da minha vida mudou, que passei a trabalhar mais, que vieram os outros.
Então tomei uma decisão: iria matá-lo naquela noite mesmo.
Entrei em seu quarto sorrateiramente e o sufoquei com um travesseiro. Enquanto fazia isso senti uma dor profunda, mas sabia que era necessário. Ele se debateu mais do que eu esperava, mas consegui segurá-lo e terminar o que havia me proposto.
Saí do quarto mais leve. Fiz o que era preciso.
Dormi no sofá mesmo, um sono tranquilo. Sonhei que era criança ainda e que brincava com meus irmãos. Acordei já tarde, tomei um banho sem pressa. Ao me olhar no espelho novamente, percebi que alguma coisa naquele rosto me era familiar.
Quando fui visitar o quarto, vi que estava arrumado, alguém deveria tê-lo limpado enquanto eu dormia.
A sensação foi tão boa e prazerosa que algo me disse que não poderia parar. Foi então que um a um fui matando aqueles vários eus que moravam lá em casa. Inventava maneiras novas, facas, venenos, tudo o que pudesse imaginar.
Me olhava no espelho e já conseguia me reconhecer, via aquela marca de nascença, aquele sorriso de canto de boca que me era tão característico.
Sobrou só um, o que eu era mais ligado. Chamei-o então para darmos um passeio no parque e antes que ele percebesse qualquer coisa, empurrei-o da ponte.
Pronto. Estava terminado. Só morariam naquela casa eu, Helena e nossa filha. Ninguém mais.
Chegando em casa abracei Helena e estava feliz. Perguntei o que ela achava daquele apartamento e ela me disse que era muito grande para nós três, se sentia sozinha.
Voltamos então para o pequeno apartamento alugado. Eu troquei de emprego, não precisava trabalhar tanto para ajudar nas contas de só três pessoas. Vendi o carro, ali onde morávamos dava para usar o metrô. Voltei a jogar pelada, voltei a tomar cerveja nas sextas e sábados. A insatisfação não voltou.

O Artista

Após um longo dia cálido
Busco um novo lugar sombreado,
Mas o azul horizonte árido
Faz jus ao deserto nomeado.

Eis então que olho para baixo:
Vejo a imortal lua que surge,
Estrelas de dourado facho,
Pássaros cuja liberdade urge.

Então transbordo singela beleza.
Essa escura massa contém tudo,
Acho tudo bom e sorrio mudo.

O reflexo é mais que a natureza.
E então ouço o doce canto do fim,
E mergulho sem volta rumo a mim.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Espiral

27/03/1972
Hoje resolvi começar um conto novo. Os contos que escrevi já não me são suficientes, quero uma nova ideia, algo pulsante. Ainda não sei bem qual vai ser a história. Penso em um amante de livros que se apaixona por determinada personagem. Mas tenho dúvidas. Como deixar a história interessante? Como fazer a engrenagem girar?
Acho que vou usar a metaficção, o leitor e o personagem se encontrando em algum momento. O que mais gosto na metaficção é que ela reforça a noção de que a realidade toda ‘realidade’ é uma mera ficção que se convencionou denominar de outra forma. Gosto da fluidez que a metaficção permite, gosto do clímax quando as duas esferas – a do autor e a dos personagens – se misturam. Enfim, tenho que pensar...
28/03/1972
Escolhi o romance que vai ser a razão da vida do meu personagem: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Ele foi escrito há poucos anos atrás pela amiga de um amigo meu. Acho que pode ser o romance perfeito para a minha ideia. Ele contém traços existenciais ao mesmo tempo em que possui um quê de distanciamento e de idealização romântica. Ele se passa aqui mesmo no Rio de Janeiro. Tive uma ideia que vai ser bem legal: o meu personagem (Maurício? Gustavo?) vai se envolver tanto com a história do livro que vai reescrevê-la várias vezes. E em algum momento da história quero colocar algo que mude o rumo dos fatos. O que?
06/04/1972
A Amelinha andou doente esses dias, não pude escrever. Fico com pena, ela só tem cinco anos, mas sempre está com algum problema. As alergias dela são impossíveis, tenho que controlar tudo que ela come, tudo que ela faz. O Antônio é agitado que nem ele só, mas pelo menos quase nunca fica doente. Bem, não dá para culpá-los, já sabia o que me esperava quando engravidei.
É engraçada essa ideia de engravidar. Às vezes a gente engravida de uma ideia. A gente cuida, acaricia, passa toda a gestação junto dela até ela nascer. Tem ideias que tem uma gestação longa, quase interminável. Tem outras que parecem já surgirem com 42 semanas. Na mesma hora que aparecem elas se debatem para vir ao mundo. Esse meu novo conto foi uma ideia de 42 semanas. Tenho andado angustiada para escrevê-lo, mas cuidar dos meus filhos não me deixou nem tempo para escrever alguma coisa por aqui. Espero que agora consiga dar um pouco mais de atenção a ele.
07/04/1972
Nasceu o conto. Não terminei, mas já tenho alguns temas principais. O personagem central (Gustavo) é apaixonado por Lóri, a personagem principal de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Ele leu o livro várias vezes e é tão envolvido com ela que quer separá-la de Ulisses (o amante dela no romance). Então ele decide reescrever o livro, criando um novo final. Sua namorada sente um pouco de ciúmes, mas acha ao mesmo tempo bonita essa devoção por uma mulher, ainda que imaginária. Alguma coisa tem que acontecer nesse novo final, não sei exatamente o quê. Bem, ficou assim:

“Uma Nova Aprendizagem
Gustavo era um homem simples. Trabalhava em uma repartição, um emprego honesto, um trabalho burocrático, um salário pequeno mas que pagava as contas. Quando chegava cedo em casa adorava sentar-se em sua poltrona e ler um livro.
Gostava de literatura contemporânea, havia se interessado pelo estilo de uma escritora brasileira chamada Clarice Lispector. Cada novo romance que ela publicava era motivo para Gustavo correr à livraria que ficava na esquina da sua casa e mergulhar em sua poltrona, só saindo para ir ao banheiro, dormir ou trabalhar. Até as refeições ele fazia na poltrona: o livro em uma mão, o talher em outra, o prato apoiado no colo.
Apesar de sempre ler novos livros, houvera um romance que não saia de sua cabeça: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Já perdera a conta de quantas vezes o havia lido. Queria ser Ulisses, queria com todas as forças ter Lóri em seus braços.
Não tinha como negar: estava apaixonado por Lóri. Sua namorada – que por ironia do destino se chamava Clarissa – tinha um pouco de ciúmes, mas no final das contas achava graça naquela história toda. Sabia que Gustavo tinha um coração bom, o máximo que poderia acontecer seria que ele a traísse por uma personagem de livro. Não estaria correndo muitos riscos.
Gustavo estava obcecado com este romance. Tinha noites insones pensando em Lóri, nos detalhes de sua camisola, nas mechas do seu cabelo. Aquela mulher profunda precisava ser dele. Mas como?
Foi então que teve uma ideia: ele mesmo reescreveria a história.”

08/04/1972
Estou ficado cada vez mais envolvida com esse conto. Nossa! É uma sensação incrível vê-lo nascendo. É difícil dar profundidade psicológica para os personagens. É uma forma tão sucinta. Mas ao mesmo tempo é uma forma que permite tanta experimentação, que consegue englobar tantas possibilidades.
Dormi ontem pensando sobre a virada da história. Tive uma ideia que acho que vai tornar o conto ainda mais interessante: vou colocar um pouco de fantástico na história. O fantástico é um gênero difícil, marcado pela dúvida: será que isso que aconteceu tem uma explicação racional ou será que foi algo inexplicável, oriundo de um mundo com outra lógica? Ele é gênero entre o insólito e o maravilhoso. Colocar isso no conto não vai ser fácil, ainda mais com a minha pretensão de usar a metaficção.

09/04/1972
Pronto, acho que consegui. Metaficção e fantástico. O conto continua assim:

“Foi então que teve uma ideia: ele mesmo reescreveria a história.
Na primeira vez que Gustavo reescreveu a história, ele basicamente trocou o nome do amante de Lóri pelo seu, mudando algumas pequenas passagens. Terminou com um ar triunfante, trabalho concluído. Mas ao ler o resultado final, percebeu que faltou coerência: como ele, Gustavo, funcionário de repartição, poderia ter o conhecimento de vida e de filosofia que Ulisses tinha no romance?
Ele então buscou alterar ainda mais a história: Lóri se envolveria por ele desde o início e passaria pelo seu processo de aprendizagem apoiada nele. Mas faltou algo, o questionamento existencial, motor da narrativa original, se perdeu.
A partir daí, Gustavo se entregou febrilmente ao processo de reescrever várias vezes o romance. O resultado final nunca lhe agradava. Às vezes faltava alguma experiência que Lóri tivera no romance original que não fazia mais sentido, outras vezes sentia que a coerência interna se perdia.
Clarissa lia as várias páginas datilografadas e ria dessa experiência que considerava inocentemente bela. Percebia que o namorado estava buscando capturar algo sutil, difícil de definir, quase uma essência da literatura, e que esse projeto era um círculo do qual não via Gustavo sair tão cedo.
Para retirá-lo de seu isolamento Clarissa ia até a casa dele, abria a porta girando a chave com o mínimo de barulho e enquanto ele estava na máquina de escrever falava palavras doces em seu ouvido. Já se tornara um hábito entre os dois, ele nem mais se assustava. Após um pouco de insistência, ele, amolecido, aceitava sair, e eles passeavam no calçadão tomando sorvetes, de mãos dadas. Ela olhava o mar, as gaivotas voando, os barcos, o sol, o namorado a seu lado, e era feliz. Achava aquela felicidade suficiente, não precisava de nenhum personagem de romance para ver que o mundo era belo e que valia a pena.
Certo dia era aniversário de Gustavo e os dois haviam combinado de jantar na casa dele. Aproveitando que teria a tarde livre, Gustavo ficou repassando mentalmente todas as tentativas frustradas de modificar o romance, de fazer Lóri se apaixonar por ele, de ressaltar suas características mais ressaltáveis. Pensou em cada pequena coisa de Lóri que lhe deixava perdidamente apaixonado. E então percebeu que qualquer coisa que ele modificasse no livro ela deixava de ser Lóri. A solução não estava em modificar o romance, mas sim em continuá-lo.
Após esse insight percebeu que essa escolha significava deixar Lóri e Ulisses se amarem. Um profundo ciúme correu por suas veias, corroeu suas entranhas, mas Gustavo se segurou. Já havia passado quase um ano desde que começara a tentar modificar o romance, valia a pena tentar. Sentou-se à máquina de escrever e ficou datilografando por um sem número de horas. As ideias lhe corriam pelos dedos, as cenas se passavam e ele se sentia cada vez mais próximo de Lóri. Descrevi-a por completo, e isso lhe dava grade prazer. Um vestido vermelho, uma fita no cabelo, brincos longos que ressaltavam seu fino e delicado pescoço. Um camafeu.
Foi então que ouviu uma voz doce lhe dizendo: “Ulisses, eu vim aqui para você”. Quando ele se virou, não pode acreditar. Ele via Lóri exatamente como havia imaginado. Seu vestido vermelho ressaltava uma pele suave, um colo de mármore que o decote deixava entrever, os cabelos longos onde ele desejava morrer mil mortes. Ficou estarrecido.
Os longos dedos de mulher passando em sua barba o tiraram daquele torpor. Ele abraçou-a ferozmente e eles se amaram com uma vontade de saciar uma sede infinita. Estendido na cama, Gustavo dormiu um pouco. Quando acordou já estava escuro, havia perdido a noção do tempo. Olhando para seu lado não viu ninguém: será que havia sido um sonho?
Levantou-se e foi ao banheiro. Em seguida, pensou em continuar o que estava escrevendo. Ao olhar para a sua mesa de trabalho, percebeu que todas as páginas datilografadas não estavam mais ali. Em seu lugar, um delicado e singelo camafeu.”
(...)
12/06/1972
Ontem foi publicado o conto. Li algumas críticas e elas em geral foram bem positivas, os temas se entrecruzaram de modo sutil, mas bem conectado. Eu estava relendo o conto publicado e apreciando o resultado quando alguém bateu em minha porta. Quando fui abrir, a surpresa: era Gustavo, com um camafeu na mão.

Mário recostou-se em sua cadeira de espaldar alto e gostou do que via. Aquela composição multiforme iluminava a tela do seu computador. Tudo em seu devido lugar. Havia alternado os registros entre primeira e terceira pessoa gerando a identificação do leitor com a escritora sem nome. ‘O pronome eu pertence a todos’, repetia-se constantemente, lembrando-se do teórico búlgaro.
Havia apresentado o processo de escrita ao mesmo tempo em que construía o conto. Fora uma experiência nova. Iria encaminhá-lo para seu professor, ele que já tinha mais experiência saberia o que fazer com aquela composição.


Ontem foi publicado o conto. Mário leu algumas críticas e elas em geral foram bem positivas, os temas se entrecruzaram de modo sutil, mas bem conectado. Ele estava relendo o conto publicado e apreciando o resultado quando alguém bateu em sua porta.

domingo, 6 de julho de 2014

A Bola Roxa

Clara tinha 10 anos e adorava sua bola roxa. Ela brincava para lá e para cá com sua bola. Era grande, apenas o suficiente para que ela conseguisse fechar os braços em torno dela. A bola brilhava, e junto com ela seus olhos também.
Nem sempre Clara podia brincar com a bola. Enquanto trabalhavam catando latas e papel, seus pais lhe mandavam pedir dinheiro e ela, com fome e sem outra opção, o fazia. Eles guardavam sua bola e só devolviam se ela conseguisse juntar algum dinheiro.
Acontecia que em alguns dias ela não conseguia muito dinheiro. Às vezes chovia, às vezes as pessoas estavam apressadas demais. Isso significava que sua família não teria o que jantar. Seu pai lhe batia, e ela só poderia brincar com a bola no dia seguinte, caso se saísse melhor.
Voltando feliz por haver conseguido o suficiente para brincar com sua bola, certo dia Clara chegou ao barraco improvisado onde morava com seus pais. Vendo a menina se aproximar, uma vizinha foi contar a ela o que havia acontecido: mais cedo houvera um confronto entre traficantes e policiais e, na troca de tiros, seus pais morreram por acidente. Ela não acreditou no que ouviu, entrou em casa correndo e passou horas chorando abraçada à sua bola roxa.
A vizinha se chamava Andreína, tinha poucas posses, vários filhos para criar. Naquela noite chamou-a para dormir em seu barraco, deu-lhe uma sopa rala para comer. Sentiu pena pela situação da menina, mas não podia ficar com Clara. Nem sempre tinha comida para os seus próprios filhos, vê-los dormir com fome lhe cortava o coração. Não aguentaria fazer mais uma criança passar pela mesma situação. Ligou para o serviço social e no dia seguinte vieram buscar Clara.
Assim que chegou ao orfanato uma criança mais velha roubou sua bola. Tentou falar com a inspetora, em vão. Chorou por vários dias seguidos. Foi maltratada. Muito. Fugiu.
Na rua, Clara aprendera a fazer alguns “pequenos serviços” para sobreviver. Dormia sob uma marquise, envolta em papelão.
Certa ocasião, Clara caminhava pela cidade em busca de qualquer coisa para comer. Era um dia chuvoso, dia difícil para se alimentar, não havia comido nada desde cedo. Encontrou em uma lata de lixo um pacote de giz de cera já bem gasto. Foi correndo para a sua marquise, desenhou um círculo roxo em um pedaço de papelão que colocou junto a si. O mundo ainda não havia retirado sua capacidade de sonhar. Dormiu um pouco mais, com fome, mas imaginando que tinha a bola roxa junto a si.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Me Chamo Ulisses

Me chamo Ulisses, tenho 45 anos. Sou escritor. Publiquei alguns livros de contos, outros romances. Cinco no total: venderam pouco. Ganho a vida dando aulas particulares; não é muito, mas é o suficiente para pagar o aluguel e as contas de uma vida simples.
Sempre pensei que para sair daquela situação precisava escrever um grande sucesso. Decidi certo dia que seria um romance policial, cheio de ação, suspense, algo que realmente deixasse o leitor preso no livro. Comecei a escrevê-lo falando sobre o personagem central, um assassino por encomenda. Teria uns 30 anos, um passado nebuloso, muito inteligente, alguns hábitos obsessivos. Nada fora do estereótipo. Para proteger sua identidade, vou chama-lo de Harry. Já havia escrito sobre sua rotina, seus pensamentos, seu primeiro crime, quando algo muito estranho aconteceu.
Em uma noite após escrever praticamente o dia inteiro, eu havia desligado o computador em uma cena de um crime, com Harry limpando a faca que utilizara no edredom branco que se encontrava na cama da vítima. Ao acordar, sentei na minha mesa de trabalho com um café na mão e li na tela que Harry não estava mais lá. Dois parágrafos que eu não me lembrava de ter escrito diziam que ele havia saído para um bar e comemorado o trabalho bem feito.
Não entendi muito bem, talvez estivesse com tanto sono que havia escrito e não lembrava. Decidi continuar a história daí mesmo, novas ligações para ele, novos serviços, uma mulher misteriosa que também era assassina por encomenda com a qual Harry saía de vez em quando. No dia seguinte, a mesma coisa, alguns parágrafos que dessa vez eu tinha certeza que não foram escritos por mim. Tentei apagá-los, mas não consegui. Eles simplesmente insistiam em estar ali. Tive a certeza que era um hacker fazendo um trote, um vírus de computador. Mas bem, como aqueles parágrafos não prejudicavam tanto a narrativa, decidi mais uma vez seguir de onde esse meu outro eu havia parado.
Fiz isso por dias e dias a fio, escrevendo durante a tarde e lendo de manhã o que havia sido acrescentado enquanto eu dormia. Estava me divertindo com a situação, mas pouco a pouco fui reconhecendo que aquele meu outro eu escrevia muito melhor que eu mesmo. As figuras de linguagem, o enredo, as metáforas. Acabei entregando os pontos e passei simplesmente a acompanhar a história de Harry.
Isso ocupava sempre uma hora, uma hora e meia, das minhas manhãs. Estava começando a simpatizar com Harry, ele ganhara uma profundidade psicológica que eu nunca poderia ter-lhe dado. Até que em uma segunda-feira chuvosa ao abrir o arquivo que continha o projeto de livro, vi os caracteres saltando na tela. Achei o máximo aquilo, poderia ver o que o outro eu escrevia enquanto escrevia, ver onde ele titubeava, suas correções! Fiquei um pouco decepcionado ao vê-lo escrever rápida e decididamente, não pensava duas vezes, enquanto eu me demorava às vezes uma hora em um só parágrafo.
Lendo as palavras que brotavam na tela, fui percebendo aos poucos que Harry caminhava na minha vizinhança. Havia saído na estação do metrô a duas quadras do meu apartamento e estava caminhando em minha direção. ‘Será que vai ser hoje?’, pensei. Leio na tela que ele está na minha portaria e ouço o interfone tocar. “Seu Ulisses, é o senhor Harry, ele diz que é amigo seu”, me falou o porteiro. “Pede para subir”, respondi.
Alguns minutos depois ouço a campainha, abro a porta e lá está ele, exatamente como imaginava. Alto, sobretudo preto, uma cicatriz no pescoço, um olhar profundo. “Não o esperava”, disse. “Eu sei”, me respondeu.
Ofereci-lhe uísque, sabia que aceitaria. Era sua bebida preferida. Apesar de ainda ser de manhã também preparei um copo para mim. Não era uma ocasião comum.
Conversamos por horas a fio sobre os mais diversos assuntos. Ele me perguntou muito sobre seu passado. Falei tudo o que sabia, respondi honestamente sobre aquilo que não tinha certeza. Ele havia se tornado realmente uma pessoa cativante, muito mais do que eu pensara. Jogamos algumas partidas de xadrez, 2 x 2. Ele sugeriu pararmos por ali, não precisávamos de um vencedor, era justo o resultado.
Fiquei muito tranquilo em sua presença. A única coisa que me amedrontou foi quando falei do seu próximo trabalho. Ele desconversou e com sangue nos olhos me disse: “Nunca apague nada, ou você se arrependerá”. Me assustei com aquele rompante, pedi desculpas por me meter demais, mas ele retribuiu as desculpas falando que também havia exagerado um pouco.
Nos despedimos amigavelmente. Eu, curioso, assim que fechei a porta fui direto para o computador e lá estava todo o nosso encontro narrado através dos olhos dele. Incrível! Conhecia pouquíssimos autores que tiveram esse privilégio. Agora eu era um deles.
Acompanhava pela tela do computador como Harry ficava mais e mais temido. Seus feitos foram se tornando capa de vários jornais de grande circulação: antes de ligar o computador passei a ler o jornal e assim já sabia se ele havia cometido algum crime no dia anterior ou não. Ele cumpria seus trabalhos com maestria, mas faltava-lhe a consciência livre. Ao ler sua história no computador, via que Harry sempre pensava em parar, mas a engrenagem já estava rodando, se sentia preso a algo maior que não conseguia controlar.
Senti certa pena por Harry. Havia feito dele um assassino serial simplesmente para vender mais livros. Não era preciso chegar a tanto. Narrando alguns episódios de sua infância, dei-lhe então tudo o que eu não tivera quando criança: uma família amável, sempre disposta a apoiá-lo e repleta de afeto, vários irmãos e primos que brincavam com ele quase todos os dias. Dei-lhe uma escola boa, onde havia feito vários amigos, dei-lhe um prato de comida quente sempre que fosse necessário, dei-lhe abrigo.
Escrevi e achei bom. Harry era no fundo uma pessoa boa, merecia aquilo.
No dia seguinte, nenhuma matéria no jornal sobre Harry. Liguei o computador e vi um episódio de sua adolescência, uma namorada por quem ele foi muito apaixonado e com quem ficou junto por vários anos. Achei bonito.
Da última vez que abri o arquivo de Harry, ele estava casado. Era músico, tocava em bares à noite, dava aulas de saxofone durante o dia. Parecia feliz.

sábado, 28 de junho de 2014

Existem tantas histórias para serem contadas, poemas a serem escritos... Eles simplesmente estão lá, à espera de que alguém os dê atenção. Calmamente, tranquilamente, aguardam. Se ninguém der atenção a eles, morrerrão como nasceram: silenciosos. Mas eles ficam lá, firmes, crédulos, com a certeza de que alguém os escreverá.
Escrever não é como pintar, colocar várias camadas de tinta sobre uma tela branca. Escrever é como esculpir, fazer falar o material que já está lá. O escritor é apenas um intermediário: o objeto já falou a quem lhe deu ouvidos. Ele apenas dá forma ao objeto.
E as histórias, e as poesias, ficam lá. Material bruto agurdando seu lapidador.

Eleonora

André e Lucas eram melhores amigos. O que um pensava, o outro falava. Conheciam-se há anos, um simples olhar já era um longo diálogo. Não se separavam, não havia motivo que se pudesse pensar para gerar uma briga entre os dois.
Mas às vezes Lucas se sentia mal. André sempre tinha mulheres deslumbrantes ao seu lado, mulheres dignas de uma pintura. Lucas não entendia como. André! Logo ele, um pintor realista! Realista! Ele havia parado na técnica do XIX! Lucas, por outro lado, era um escritor contemporâneo, escrevia contos, buscava dialogar com as várias tendências, metalinguagem, autoficção, realismo fantástico, e assim sentia-se latino americano. Como André, que estava ultrapassado, conseguia aquilo? Lucas não se conformava, precisava de uma explicação para aquilo. O realismo morreu! Mas as mulheres de Lucas pareciam cegas, não viam isso. Essas mulheres sempre tinham um passado nebuloso, difícil de explicar, mas agradavam ao olhar como nenhuma outra.
Certo dia André apresentou a Lucas a deslumbrante Eleonora. Do alto do seu 1,50 m de altura se via tudo que era necessário ver. O seu sorriso de canto de boca era mais perfeito que o mais perfeito dos sorrisos, os seus cabelos alegres eram mais alegres que os mais livres cabelos. Seu olhar brilhante ofuscava mais que a luz mais ofuscante, sua liberdade era mais livre do que um escravo liberto. Era ela, Eleonora, completa.
Lucas ficou boquiaberto. Precisava dela ao seu lado. E mais nada. Abriria mão de tudo para tê-la junto a si. Não aguentou. Sabia que nas mãos de André ela seria só mais uma história entre tantas. Mas com ele, Eleonora não seria só mais uma, mas seria Ela. Sua vida seria dela.
Aos poucos, Lucas foi se aproximando de Eleonora. Ela, misteriosa, apenas contava histórias obtusas, o que o deixava ainda mais interessado. Ele, entregue, sentia-se responsável por não deixar essa mulher ser mais um brinquedo nas mãos de André.
Foi então que Lucas percebeu que já havia visto aqueles olhos brincalhões em algum lugar. Achou estranho, sentiu um dejà vu, sabia que conhecia Eleonora. Mas de onde? Curiosa aquela sensação, buscou lembrar-se das últimas namoradas do amigo, todas belas, distantes, dignas de uma pintura. Fez um esforço em sua memória e se deu conta que André sempre pintava mulheres estonteantes. Achava que aquele olhar penetrante de Eleonora já fora retratado pelo amigo.
Ele fez um plano: entraria na casa de André e descobriria o que estava acontecendo.
Certa noite, quando André estava em um bar com amigos em comum, Lucas entrou em sua casa, sorrateiramente. Na penumbra viam-se cavaletes, pincéis, bisnagas de tinta. Ele seguiu em frente, até o quarto que era utilizado como estúdio. Impressionava-o a imensa quantidade de pinturas que estavam sempre cobertas por um pano escuro. Naquele momento, não havia nenhuma pintura que mostrasse suas cores, todas estavam ocultas, o que o deixou bastante inquieto. Chegando próximo ao quadro que estava em um cavalete no centro da sala, Lucas puxou o pano.
O que viu deixou-o tonto. A pintura se resumia a um contorno detalhadamente ilustrado, mas sem a figura principal, que era um espaço em branco na tela. Ao fundo, um rio, uma floresta, um barco. Mas em primeiro plano, nada. Era como se o objeto de retrato houvesse sido retirado, como se ele não pertencesse mais àquela tela. Um contorno sem personagem: foi o que viu naquela e em várias outras telas que Lucas observou. Foi então que ele viu uma tela que o fez compreender tudo. Ao fundo, uma paisagem idílica: vastos campos de trigo balançando com o forte vento que fazia algumas árvores envergarem, um casebre pequenino ao fundo, um riacho. Algumas vacas pastando calmamente. Mas ao centro, um espaço em branco. Nesse espaço, Lucas tinha certeza: fora lá que ele vira Eleonora anteriormente, ela pertencia àquela tela.
Lucas retirou febrilmente todos os panos escuros que cobriam aquelas dezenas de telas no estúdio de André. E em todas as telas um espaço em branco, marcando um vazio, fazia com que as namoradas de Lucas finalmente tivessem uma origem identificada.
Olhando para o canto da sala, Lucas viu um pote, repleto de mechas de cabelos das mais diferentes cores. Todos os tons que a mais fértil imaginação pode criar estavam lá. E todos haviam sido retirados de mulheres que André construíra em suas pinturas.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em sua cabeça e pensou: era o momento de agir. Retirou o isqueiro do bolso e ateou fogo na tela onde Eleonora havia sido pintada. As outras telas rapidamente começaram a queimar. Com um sorriso sinistro Lucas, que se afastava calmamente, olhou para trás e viu a casa do amigo em chamas. De lá saía um gato preto de patas brancas que, caminhando em sua direção, chegou-se perto dele e olhando diretamente nos seus olhos, perguntou:
- O que você fez? Você conhece as consequências?
Aquilo o deixou assustado. Será que ele tinha noção das consequências? Será que foi a melhor opção? Pensou em Eleonora, com seu sorriso sempre presente, seu toque, seu cheiro. Queria tê-la agora em seus braços, mergulhar naqueles cabelos e esquecer-se de tudo e de todos.
Mas a situação estava insustentável, não poderia permitir que o amigo continuasse com aquilo. Mas e agora, o que ele poderia fazer? Caminhando em direção à sua casa, Lucas olhava o mundo à sua volta como um grande sonho. As luzes dos semáforos e dos faróis perdiam seu foco, não entendia muito bem onde estava. O desgosto fechou a sua garganta e um gosto de bile subiu em sua boca. Sentiu-se tonto, uma pressão foi crescendo dentro de seu peito. E então ele se arrependeu. Não deveria ter feito aquilo, queimar todas as telas foi o maior erro que havia cometido. O que aconteceria com Eleonora? Ele não sabia. Precisava mudar aquela situação e então ele teve uma ideia.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em sua cabeça e pensou: era o momento de agir. Ele encontrou aquela tela onde Eleonora havia sido pintada e levou-a embora. Mostrando-a para Eleonora, sentiu suas lágrimas umedecerem seu ombro.
Lucas, recolocando a pintura no cavalete do amigo, fez com que ele não se desse conta do seu desaparecimento. Ele já havia percebido o afastamento de Eleonora, andava um pouco cabreiro, questionava-se constantemente se não deveria fazer o mesmo que havia feito com as outras namoradas. Mas gostava muito do amigo, Lucas parecia feliz ao sair consigo e com Eleonora. Até que certo dia percebeu uma intimidade excessiva entre os dois e decidiu que já era tempo.
Lucas não ligava mais para ele, mandava sempre mensagens para Eleonora. Sentiu que ele era um simples intermediário para o encontro dos dois. Eles pareciam entender-se tão bem, passavam muito tempo conversando sem nem perceber o mutismo distantemente crítico de André. Ele havia se transformado em um obstáculo: precisava modificar aquela situação.
Fazendo o que já havia feito várias vezes, André enrolou a tela de Eleonora e a colocou em uma grande lata de lixo. Tirou o pacote de fósforos do bolso e ateou fogo. Sabia que com isso, Eleonora desapareceria e Lucas o chamaria rapidamente.
Passaram-se 10 minutos, 20, 30 minutos. Uma hora. Nada. Várias horas se passaram, e nada. O telefone não tocou.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em uma Segunda-feira

8:36. Adriana já estava atrasada. Havia colocado o alarme para às 8:00, mas como saíra na noite anterior, ficou apertando soneca até se dar conta de que não podia tê-lo feito. Levantou-se apressada, tomou um banho rápido, engoliu qualquer coisa, colocou a roupa de trabalho e saiu. Mais uma vez atrasada! O que seu chefe iria falar? Não poderia dar margem a reclamações, ela precisava daquele emprego.
Andou a passos largos para o metrô, ficava a cinco minutos de sua casa. Sentiu que havia algo diferente, algo de elétrico no ar, mas pensou que deveria ser coisa de sua cabeça, um pouco tonta ainda da noite anterior. Passou na roleta e enquanto aguardava na plataforma viu um casal conversando em uma língua que não entendia. Pensou que era bom esse turismo, trazia dinheiro para seu país, tornava-o conhecido mundialmente. O trem chegou à plataforma, cheio como sempre, e Adriana ficou feliz por conseguir um lugar de pé em um canto, onde não sofreria aquele empurra-empurra típico de suas manhãs.
Estava verificando sua agenda no celular quando ouviu a Voz anunciando a próxima estação: “Próxima Estação: Siqueira Campos”. Isso a despertou do redemoinho de pensamentos por onde andava sua cabeça, várias coisas para fazer, tarefas, reuniões, documentos, compromissos. Olhou para o lado e viu duas pessoas que conversavam em outra língua que não entendia, começou a achar estranho: o que elas faziam no metrô a essa hora da manhã? Olhou para o outro lado, e para o outro, e percebeu então que ninguém falava a sua língua, cada grupo, casal, família, conversava em uma língua diferente, a maioria das quais não fazia ideia qual era. Começou a sentir uma angústia, algo estranho no peito. Será que alguém ainda falaria português? Em meio a essa torre de babel, Adriana se sentiu deslocada, não sabia o que fazer. Tentou perguntar às horas para uma mulher próxima, idosa, que estava sozinha, mas ela não entendeu sua pergunta. Tentou de novo, fazendo sinais, e apenas quando apontou o seu pulso que a senhora entendeu, e mostrou a ela seu relógio. Será que estaria condenada a se comunicar assim, por sinais? O que seria dela agora, privada de sua língua, privada de comunicação? Como ela poderia dizer: estou com saudades? Ou como falaria: estou com fome? Será que conseguiria ir a um restaurante e comer alguma coisa? Como expressaria dor, como pediria ajuda, como prestaria ajuda? Aquela torrente de pensamentos só aumentava a sua angústia, e ela imóvel, em meio a uma multidão que ela não compreendia e que não a compreendia. Sentiu-se privada de sua identidade mais básica: oi, eu sou Adriana, e as pessoas a olhavam com estranheza. O que fazer então? Emudecer? Será essa uma opção? Será que seria essa a sua única e derradeira alternativa? Foi então que se lembrou de seu trabalho, lá com certeza eles ainda falariam sua língua, lá poderia se expressar livremente, poderia dizer o que pensava, poderia fazer piadas, poderia se sentir confortável. Ainda faltavam três estações, o que ela poderia fazer? Desejaria poder acelerar aquele trem, fazê-lo saltar as estações, chegar direto em seu destino. Aquele sentimento a sufocava, não aguentava mais essa sensação de deslocamento. Em uma segunda-feira, em seu próprio país, indo para o trabalho. Não podia ser! Algo havia acontecido. Será que era um sonho? Será que havia bebido demais na noite anterior? E ela em meio a uma multidão disforme que cada vez mais a oprimia, precisava dar um basta, faltava uma estação ainda. O que fazer? Suava frio ouvindo vozes irreconhecíveis, guturais, que contrastavam com sua ideia de uma plácida manhã de segunda-feira. Estava chegando, pronto, estaria livre dessa prisão. “Próxima estação: Cinelândia” anunciou a Voz. Ufa, poderia então respirar livremente, sentiu o trem desacelerando, já estava na porta e viu a plataforma cada vez mais perto, cada vez mais palpável. Quando as portas abriram não conseguiu resistir. Saiu correndo, desvairadamente, precisava dar um basta àquela situação toda. Atropelava as pessoas na rua e elas reclamavam em idiomas que só faziam Adriana querer correr mais e mais. Pedia desculpas, mesmo sabendo que não seria entendida. E corria. E corria. Até que passou pela portaria do prédio de sua empresa, estaria segura lá dentro. Tirou avidamente o crachá da bolsa, segurando os vários itens que estavam à beira de cair, e passou na catraca. Respirou fundo, aliviada. Encontrou um colega de trabalho.
– Bom dia Felipe! Tudo bem?
– Bonjour?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Distância

Você me aparece rubra de amor
Eu sorrio as saudades que tinha
Desejo um beijo mas me paralisa o torpor
Ao ver a noturna alegria que se avizinha.

E então você coloca aquele vestido,
Aquele amarelo que eu não resisto,
Para mim a vida ganha sentido,
Para mim a vida se resume a isto.

Mas em seguida você se mostra distante,
Pálida e fria, e nada mais posso,
Em face dessa melodia dissonante,
Se não aceitar o intransponível fosso.

Mas sei que aguardarei no próximo poente
Vê-la entre montanhas no horizonte surgir.
Te darei esta e outras rimas de presente
E agradecendo ficarei a sorrir.