domingo, 11 de março de 2018

Infância em Sulacap

(com Ana Terra e Clarisse Kloss)

Lá não tinha quase nada,
Tinha muita brincadeira de rua,
Pique pega, pique cola, pique
Esconde, queimado
E futebol.

Bebendo água
Da bica
Para nem entrar
E chegávamos em casa
De pé quente
No piso gelado.

Depois da escola
Sempre tinha alguma criança lá em casa
Porque as mães não podiam vir buscar.

Lá em casa tinha uma escala de banho:
Como todo mundo queria brincar
Ninguém queria ser o primeiro.
Meu pai sorteou:
Ana, Moacyr, Clarisse
E colou na porta do banheiro.
Resolveu.

O Moacyr
Quando começava a bater na gente
Era amarrado na cadeira
E deixado no escuro.

Quando o telefone tocava
Era uma luta
Para ver quem atendia:
Uma puxando o pé da outra,
Se arrastando.
Enquanto isso,
O telefone tocando.

O Fafá estava sempre
Com bolsos cheios de comida
Mas sempre dividia
Com todo mundo.

O Davi uma vez
Atravessando as quatro pistas
Da rua principal
Tropeçou
Mas como não ia conseguir se levantar
Continuou engatinhando.

O mesmo Davi
Em uma das várias vezes que apertamos as campainhas e saímos correndo
Uma lata caiu do seu bolso
E ele teve que voltar.

Jogávamos vôlei na casa da minha mãe
E fazíamos os códigos nas mãos que víamos na TV
- não os entendíamos, é óbvio -
Mas aqueles sinais
Faziam parte do jogo.

Éramos às vezes sádicos
Mas só com as lagartas da casa da minha avó:
Colocávamos no álcool, queimávamos,
Mas só lá.

Nós duas
Colocávamos um mesmo avental
Amarrado
E ficávamos correndo juntas
Para passar o tempo.

Quando abriu a sorveteria
Passávamos o domingo inteiro esperando a hora,
Depois da igreja,
De pedir com os olhos
E a Graça já sabia os sabores sem nem falarmos nada.

Nesses dias se juntavam nove
Crianças
Na casa da vovó Marinete:
Não era muito ordeiro.

Catávamos coquinho
De amendoeira,
Enchíamos sacolas,
E depois comíamos tudo.

Quando alguém tinha que ir no seu Zé ou no seu Horácio
- os dois comércios do outro lado da rua -
Nossa mãe pedia
Na verdade obrigava
A outro ficar sempre de olho
Pela varanda
E ninguém queria
Parar a brincadeira para isso.

Sulacap parecia uma cidade do interior:
Na praça da igreja
Um comércio, um açougue, uma papelaria, uma locadora,
Uma loja de ferragens, uma caixa de correio.

Além da praça
E da academia de polícia,
Tinha um cemitério
Verdinho
Ao lado de um morro verde.

O tédio que tínhamos sempre
Clarisse queria matá-lo subindo o morro
E todo mundo se entreolhava
Nao querendo acompanhar.

Sulacap
Não é um bairro antigo,
Terreno
Da SulAmérica Capitalizações,
Loteado
Recentemente
E as gerações se seguiam
Ainda lá
Uma depois da outra.

Sulacap para a gente
É isso,
A nostalgia de um lugarzinho seguro,
Aconchegante,
Onde toda nossa família estava,
Todo mundo se conhecia.

Hoje não a reconhecemos,
A nossas avós morreram,
Nosso pai não mora mais lá,
Mas Sulacap continua
Nas nossas lembranças.

domingo, 4 de março de 2018

Redenção

Na barra do seu vestido círculo
No seu pé em ponta
No seu sorriso bom dia
No seu pandeiro chorando
Nos seus braços serpentes
No seu corpo negro
E branco e marrom
No seu pescoço pêndulo
Nos seus cabelos teia
Nos seus brincos soltos
E no seu balanço ancestral
A ínfima mas certa
Possibilidade de redenção.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Caetano

Famosos:
Caetano estaciona carro
no Leblon
nesta quinta-feira.

Caetano Veloso se prepara
para atravessar uma rua
do Leblon.

Caetano olha para o fotógrafo
enquanto atravessa a rua
no Leblon.

Caetano espera no estacionamento carioca
nesta quinta-feira
(10).

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Caetano dinossauro

Era o Caetano
Sorrindo
Girando
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Era à noite
Era meu aniversário
Estavam todos
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Havia música
Havia espaço
Havia um horizonte
Lúdico e real
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Pterodáctilo,
Tiranosssssssauro
Tiranossauro!

Alice

Era um balão laranja
Em meio a sala à noite,

Na verdade
Eram três balões laranjas
Girando
Nas minhas mãos
De sonhos na luz da noite
De sorrisos
Dos meus cabelos ao vento.

Agora dois balões
Em meio a sala à noite
Girando.

As palmas,
A garrafa de água de coco
Gelado,
Era o sorriso da Alice,
Era o copo de água de coco
Era o meu vestido balançando
Era a música em banda
Era noite
Uma noite em que fui feliz
Em que fui criança
Em que fui acarinhado
E vi a vida se descortinando
A meus pés.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

É noite

A noite acontecendo
Agora
Em corpos e cores
E suor
A noite acontecendo
Lá fora
E aqui dentro
Também
A noite acontecendo
As nuvens no horizonte
Os corpos
E a noite enfim
Noite
De quaseluz
E quasecorpos
No quasehorizonte
Da noite.

Sangue

A quase não palavra
Antesala do silêncio
Expectativa de algo
Um fio de luz na noite estrelada
Beirada do infinito
De penhasco tão
Acessível e alto
No instante da beira
Da superação do lapso do tempo
Em um instante de espaço
A sangrar
De um coração de boi
Em uma bancada de mármore
Frio
É a vida que sangra
E se desfaz.

Ser gnomo

Um beijo
Do jardim das delícias
Do verde novo
Jardim das delícias
Nesse jardim
De fundo de pedra
E plantas e flores
Um beijo
Do jardim das delícias
De verde roxo amarelo vermelho marrom
Jardim
Um beijo
De um som matinal.

Carnaval

O encontro
Enfim
Do horizonte
Na casa do Bruno
E da Núbia,
O sorriso
É carnaval
Em Santa Teresa
É alegria
Certeza
É toque profundo
Amargo
E sal
Do sorriso
Da Tati
Chegando
Para mais um carnaval
Na casa do Bruno e da Núbia,
Com Adrian e Daniel,
Com Vaz, comigo,
Com batera
Com xequere
Com baixo
Guitarra
E sol
É dia
É enfim
Carnaval
É alma aberta
É grande enfim
É carnaval.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Querer

Eu queria a leveza
Eu queria a praça
Eu queria a música
Infinita
Eu queria o toque
Tão doce
Da ponta dos teus
Dedos
Eu queria teus
Olhos
Paixão
Eu queria teu
Sorriso
Amor
Nesse poema
Enquanto durarem
As palavras.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Praça

O encontro da praça
Das múltiplas possibilidades
Dos impossíveis talvez
Da troca improbilíssima
E vai pra Jah
E vai pra longe
E vai
Hoje eu tô feliz
Hoje eu tô contente
E vai palpitação
E vai pra praça
E vai pra perto
E vai tão longe
E vai tão
Perto.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Iemanjá

Em meio ao fim
Do mundo,
Há uma casa quente,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio ao ritmo
Sem fim,
Há um teto, seco,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio às caixas
E alfaias
E agogôs
E agbês
E ganzares
E saias
E pernas
E passos
Há uma esperança,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio as barbas
E brincos
E cabelos
E tatuagens
E marcas
E baques
E tambores
Há o Maracutaia,
Ela está aqui,
Está em todo lugar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Cili

(com Maria)

Ela nasceu em Miracema,
Interior do Rio
De Janeiro, norte,
De família bem grande,
Morando em uma fazenda chamada
Lagoa Preta,
Humilhada e maltratada pelos irmãos,
Namorando com o meu pai desde os onze,
Inicialmente professora mas abandonou a profissão
Para cuidar das filhas,
Para cuidar da casa,
Mas sempre se sentindo inferior
Por não ter renda,
Apesar do apoio do meu pai.

Quando eu me casei,
E tive meus primeiros dois filhos,
Ela teve muito amor a eles,
Sempre foi uma mãe muito dedicada
Até que descobriu
Com 58 anos de idade
Seu câncer
E o seu medo de morrer
A fazia esconder a doença.

Mesmo após operar,
A metástase no útero,
Em dois anos ela se foi.

Ela gostava de viver,
Ela gostava de cozinhar
Todo final de semana,
Ela gostava de ir à praia,
De cuidar das crianças,
De pintar seus quadros,
Da irmã Júlia,
De beber a cervejinha dela,
De bossa nova
E do Chico Buarque.

Segurando na minha mão,
Quase sem lucidez,
Chamando 'minha filha',
No quarto do hospital
Definhando
Ela se foi.

Ela queria viver
Mas não tinha mais forças.

Me lembro dos vários pratos
Na casa da minha avó
Rabada com agrião,
Sempre fazia os nossos aniversários,
Ela gostava.

Me lembro do sítio da tia Julinha
Em Itaboraí
As crianças todas,
A piscina,
O churrasco,
O violão do meu pai
Acompanhado por sua voz.
Era Menino Vadio
Do Chico,
Eles faziam um dueto.

Quando fiquei grávida
Pela primeira vez,
Seu carinho,
Me abraçava,
Seu carinho,
Sua força,
Tanto na gravidez quanto no nascimento.

As saudades ficam,
O amor fica,
A falta dela
Quase diariamente,
Mas dela guardo
E continuo
A preocupação com as pessoas,
O gênio um pouco forte,
Talvez um pouco de aprovação.

Seu zelo passou a mim
Que passei a meus filhos
E espero que continue.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Antônio Pinto dos Reis

(com Leandro Quintela)

Meu avô veio de Portugal
Para o Brasil tentar a vida
Já com trinta anos
Quase sem estudo
Formal
Mas curioso
Aprendeu sozinho
A fazer de tudo um pouco:
Trabalhava com marcenaria,
Trabalhava com obra,
Trabalhava com eletricidade,
Trabalhava com hidráulica,
E acabou ficando muito bom nisso.

Conheceu aqui no Rio minha avó
Maria Virgínia,
De pais nordestinos,
Quase sem saber ler,
Sem sobrenome,
Ambos sem família
Perto,
Casaram,
Quatro filhos.

Meu tio fotógrafo
Em busca do melhor ângulo
Em cima de uma cachoeira
Na Floresta da Tijuca
Morreu.

O Virgínia acabou passando
Da vida para os filhas,
O Antônio de seu nome
Para os filhos
Os filhos tiveram filhos,
Os netos agora esperam bisnetos.

Ele que nunca reclamou de nada,
Que sempre estava sorrindo
Mesmo passando
Dificuldades,
Em um quarto e sala com quatro crianças e um neto criado pela minha tia que engravidou jovem do meu primo,
Com um pai sumido como tantos.

Mas hoje estão todos encaminhados.

O aniversário dele eu não perco por nada
Pois sei que falta pouco.
Ele é o porque da família ser
O que é hoje,
É dele que vem
Nossa união.

Com 77 anos ele fez toda a obra
Da casa da minha mãe
De 8:00 às 19:00,
Com 80 anos fazendo os armários
Projetados de lá
Desenhando tudo
Antes de montar
Sem nunca pedir nada
Em troca
E ele hoje com 92
Apesar de não acompanhar
Tanto,
Seu sotaque permanece,
Nas reuniões
De família
Ele transborda
De felicidade,
Presente,
Em seu sorriso uma inspiração
Silenciosa
No agir e no viver
Para todos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Rasgam-se os ventos

Os carros rasgam o vento
Que toca o rosto
Em um passeio na Av Atlântica,
Esse vento de seda quente,
Esse vento de mil línguas
E noites sem fim.

A bicicleta rasga o vento
E a boca de sal e de sol
E o azul turquesa do mar
E ao fundo os Dois Irmãos
Verdes,
Estamos no 11, o 12 no horizonte,
Na avenida quase vazia
Do domingo à tarde.

A bicicleta rasga o vento
E os corpos e as saias e os óculos,
A bicicleta rasga o vento
E os toques e os beijos e os tantos
Caminhos em meio ao mar.

É certo, é certo
É chegada a hora,
Da dissolução.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Mais uma noite

Mais uma noite em Santa
Mais uma noite que canta
E dança,
Mais uma noite que dia,
Mais uma noite não fria
Mas quente,
Não um espaço mais pouco,
Não um espaço que rouco
E surdo,
Não um espaço pequeno,
Não um espaço ameno
Mas tensionado
Mas em busca
Mas sem sombra,
Mais uma noite em Santa,
Mais uma noite que canta.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Giram

E giram as saias
E giram os cabelos
E giram os vestidos
E giram
E giram.

E giram as flores
E giram os sorrisos
E giram os abraços
E giram
E giram
E giram.

E giram os sonhos
E giram os perfumes
E gira o amanhã
E gira
E gira
E gira
E gira.

Luta

Por um mundo mais justo,
Por um mundo mais sincero,
Por um mundo
Mais mundo
Acordo cada manhã.

Por um dia
Em que estudar não seja barreira,
Em que trabalhar não seja sonho,
Em que a dignidade
Seja o mínimo
Entrego meus dias e noites.

Pela certeza
De devolver um pouquinho do privilégio que tive,
De garantir um pequeno sorriso em quem o mundo não faz sorrir,
De buscar aquela pequena diferença que talvez ainda seja insuficiente,
Mas seja alguma diferença,
Quero dedicar
Meu ontem
E meu amanhã.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O quase

Um quasepoema
Como um
Poema
Que não aconteceu.

Que ficou à beira de
Mas não,
Que tocou a margem
Mas não mergulhou.

Um quasepoema
Como um quaseacontecimento,
Um quasepossível
Mas não.

Um quaselampejo
Quaselá
Quaseprovável
Um porpouco.

Logo vê-se:
Sem sangue não há vísceras,
Sem dor não há glória,
Sem sono ou travesseiro
A acalmar a história
Recém inventada.

Sem horizonte não há amanhã,
Sem noite não há dia,
Sem quimera não há sonho,
Sem luz não há possível
Manhã.

Sem carne não há pele,
Sem sopro não há vida,
Sem céu não há nada
A se esperar.

Mas sem qualquer aguardo há o hoje
Frio, amargo e quente
A borbulhar doce e transparente
No túnel sem qualquer
Fim.

Roy, o poeta

Roy, o poeta,
Esse epíteto vazio,
Esse aposto
Com vírgula,
Esse talvez
Distante,
Esse tão outro,
O poeta,
Mas o que é ser
Poeta,
Essa dúvida,
Esse talvez,
Ser poeta
Quem sabe é sofrer
Enquanto todos riem,
Ser poeta quem sabe é sorrir
Enquanto acaba
O mundo,
Mas não há
Mundo
Então pode se acabar,
Ser poeta quem sabe
É ver sempre
O fundo do copo,
A guimba
E o sangue
Pisado,
Ser poeta
Quem sabe
É fazer perguntas
Quando todos tem
Respostas,
Ser poeta
Quem sabe
Talvez seja
Amar o mundo
Que te faz
Ser outro,
Que te faz
Ser pária,
Que te faz
Ser algo
Distante,
Ser poeta quem sabe
Talvez seja
Isso:
Um constante talvez
Em meio a um mundo
Dúbio,
Uma constante certeza,
Uma sempre esperança
Em meio a um mundo
Frio,
Ser poeta é isso:
Ser quente
Enquanto é oceano
O mundo.