Eu que segurei em meus braços
Vidas cheias de esperanças,
Que já embalei em meu leite
Noites sem fim,
Sinto o peso
Da passagem incessante
Dos dias e dos homens.
Bebo e como a rosa atômica
Em produtos laboratoriais,
O ozônio a escorrer em cloacas,
As fronteiras-muro e não caminho,
Olhos fundos de fome
A assombrar meus pesadelos mornos,
Dedos secos da fome de amor
Por não ter um rosto para acariciar,
Crianças de barrigas inchadas
Pelo verme da ganância
E pergunto 'por que?'.
Mas não paguei o dízimo
E deus tornou-se surdo
Então sozinha
Só ouço minha voz.
Se um outro destino
Vier desse útero já berço
O abraçarei dizendo:
"Vá, faça!
O meu tempo já se foi"
E emudeço
Pois não posso mais.