sexta-feira, 13 de setembro de 2019

um avô qualquer

(com Carla Maester)

meu avô sempre foi o cara
pra mim
quando me assumi lésbica
meu vô me abraçou
e me disse: tá tranquilo

meu avô de três mulheres
por dia

após renascer
da cirurgia da vesícula
trombose na perna
e eis três quatro dias de vida

morreu brigando querendo
matar as enfermeiras
e eu, a neta preferida
honrei meu vô
até o último dia

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

sobre saber ser perdoado

há um carinho nos corpos que se conhecem

a revolução virá dos jovens
e de ninguém mais
o gozo sempre será ilegal

há uma luz nos olhos que se revêem
e um sorriso na antesala do novo

o amanhã virá dos jovens
e de ninguém mais
o sonho será sempre improvável

há uma alegria paciente
germinal

o acorde ressonante virá dos jovens
e de ninguém mais
o vento traz azul ao horizonte

há uma esperança ativa
irrequieta e incômoda
o sangue lágrima

a tua hora virá dos jovens
e de ninguém mais
deixa passar

sábado, 17 de agosto de 2019

construção

era uma sexta-feira à noite
já sábado
uma borboleta branca pousa
em um casaco preto
há um vento frio no rio
de janeiro

o dia passou mas ainda procuramos
algum brilho em tempos foscos
cuja foto já é memória
de uma época tão antiga

os amores passaram mas na esquina
sem inesperar quase nada
talvez ainda alguma alegria
à espreita

os sonhos mordidas com força
para não esquecer
nem sufocar
ou desistir

a lua ainda está lá, nova
persistindo
buscando sempre lembrar
que apesar do sol deserto
ainda há um oásis
a ser construído

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

o subsolo de Júpiter

o subsolo de Júpiter
subsolo de mancha

negra em meio ao vermelho
em plena tempestade infinita
de espirais de vento trovões
intermináveis
nascidos há um porralhão de tempo
e permanentes tanto após
qualquer sopro
de lutas dúvidas perguntas inglórias

e lágrimas e dores e vazios

impermanentes

contra moinhos de vento
que poderiam girar
sozinhos

terça-feira, 18 de junho de 2019

Japão

(com Anae Veronesi)

era uma vez dezenove
famílias morando no Japão
mas que estavam muito tristes
já que lhes faltava até comida

então o imperador japonês
que sabia de tudo
falou
'dezenove famílias fundadoras,
vocês vão para o Brasil!

eles foram para o porto de Santos
usar o nome da fazenda
Bastos
que virou uma cidade
comprada pelo governo japonês
e para lá foram de trem
as dezenoves famílias fundadoras
para abrir as primeiras fábricas de seda
do Brasil
e vieram os colonos
plantar amora e criar o bicho da seda
de cujo casulo
se faziam tecidos
de cristais de neve
exportado pro Japão

segunda-feira, 27 de maio de 2019

vela

vejo o frio da noite de livro na mão e saudades no bolso
e penso suave por sorte em um tempo ainda não esquecido
quando as coisas faziam sentido e tínhamos um futuro
para chamar de horizonte utopia amanhã esperança certeza
ou qualquer coisa que nos movimentava para frente em busca
de um não sei o que, de algo inapreensível, de uma aventura
do novo, da dúvida, mas lembro que  estamos vivos
de pé, apesar de tantos pesares revezes impropérios pulsões
de morte em nossos rostos vomitados por uma escória
moral de uma sociedade orgulhosamente doente e vã
e lembro que é tempo de luta, de levar as palavras ao front
à beira de onde se trava a batalha por uma visão
de mundo menos tacanha e vazia e metálica e vil
ser então não o sol, mas a vela que vê a noite e sabe
que ainda pequena há de ver o dia raiar mais uma vez

sábado, 25 de maio de 2019

futuro

(com Álvaro Braga)

por mais que tentemos
fingir que não
por mais que lutemos gritemos
por mais que ainda acordemos
cada dia de novo
tentando fazer, tentando falar
a cada aniversário
a cada outro esquecido
a cada desordem em uma rotina organizada
tentando fugir do não penso, logo
existo, a tentativa da argamassa
do tecido social, do ser-junto
o futuro é apenas pedra, areia e esquecimento

domingo, 12 de maio de 2019

É sábado

e então nessa noite
em Santa, me lembro dos 3,5 chocolates
apresentados como corte no orçamento
da educação

e então nessa noite
me lembro do sonho da Mega-Sena
talvez para fugir dessa
distopia

e nessa ausência
microfônica
talvez duplo ou metáfora
dos tempos

e nessa inverossimilhança
impossível de contar em qualquer livro
minimamente crível

mas percebo o agora útero
e quente
feito de arte, de amigos
e de um caminhão
de carinho

a noite é também
ainda
um pouco
sinuosa
apenas o suficiente
para seguir

em busca dessas
noites quentes
acordamos a cada dia
atrás de um novo amanhã

domingo, 17 de março de 2019

é noite

os morcegos voam
é noite
quase não chove
tanto
uma mulher atravessa a rua vazia
o abismo da mudez chama sorrateiro

é noite
poucas pessoas caminham
ou carros
um bar de esquina está aberto
ainda

é noite
poças de água escura
as árvores com cheiro de chuva
há algo de incerteza
nesta esquina curva
de vento

é noite
há um teto
seco
não se está com fome
uma cama quente espera
você derrubar as inquietações
os dedos do mundo não tocam as janelas

ela volta
manda um beijo do outro lado da rua
carrega uma sacola na mão
entra na portaria
vou abrir
ela chegou

domingo, 3 de março de 2019

fotopoema iii

domingo à tarde
o sol forte ilumina as folhas verdes
algumas poucas flores rosamarelas
ao fundo o mar sonoro
de ondas permanentes
maggot brain ao fundo
passam borboletas laranjamarelas
o portão, esse sim, amarelo
ainda está trancado: não fomos à praia
hoje, mas já estamos saindo

nada parece fora de seu lugar
nada parece ruim
o som das folhas verde escuras
o encaixe das peças do quebra-cabeça
o círculo
devorando a própria cauda
indubitável

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

fotopoema ii

chove
as gotas batem nas telhas nas folhas
as ondas do mar continuam
bruxeleantes
riders on the storm na pequena caixinha
de som
chinelos e sunga e uma cadeira de praia
estamos protegidos
o pantera
dorme
as galinhas patos cachorros voltaram
para casa
o céu é de uma cor espetacular
um cinza azul profundo
com algumas poucas nuvens brancas
o horizonte não tem qualquer fim
salvo algumas poucas ilhas
ontem a praia, a cidade
hoje a casa
estamos de férias
ainda bem

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

la volpe

(partendo dalla storia di Desideria Santella)


riguarda il 2003, quando mi laureai
a maggio di quell’anno partii per l’Egitto
avevo bisogno in quel periodo de fare qualcosa di diverso
di intagliare un legame col mondo naturale

vivevo vicino al mare
in una piccola casa, una sorta di bungalow

mi capitava di andare in aeroporto di notte
mi capitava di incontrare la notte

quello che ricordo di quel periodo
è una sensazione forte che si è insidiata nel mio cuore

quella notte uscendo dalla mia stanza
mi sono fermata a guardare la luna
vicina, compatta
pienamente luminosa

io l’ho guardata
lei mi ha guardato

e’ stato un attimo, durato per lungo tempo
nella memoria della mia vita

ho sempre amato le volpi
vederla aveva portato la mia mente
al deserto
in lei resiede la sabbia
e la roccia brulla

conservo questa immagine
la luna
la volpe
immobili

non ho mai più visto una volpe
come quella

c’è una sensazione di armonia con la natura, perfetta
di equilibrio, di incontro
la tranquillità di un’emozione
c’è l’altra parte di me stessa

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

arquitetura

(com Pedro)

primeiro a área

em seguida a argumentação guia
que vai te orientar pelo processo
para quando você tiver uma decisão de cunho subjetivo
ele pede a sua volta

pensar o espaço varia muito pelo tipo de projeto
mas eu gosto de pensar o espaço
pelo oco
posicionam-se vazios
e não cheios

os fatores principais para se pensar o espaço
talvez o mais relevante
proporção
depois qualquer tipo de informação que possa alimentar os sentidos
peso, textura, cheiro, visibilidade
permeabilidade, sons
e como ele se relaciona com os espaços adjacentes
e os distantes

na arquitetura três espaços básicos
o externo o interno e o de transição

ao sair do túnel
umas pérgolas
começando a mudar a luz
uma questão de segurança
de cegueira temporária
brise num plano vertical

o espaço da marquise
são três espaços
uma portaria de vidro antes
de chegar ao espaço interno
a permeabilidade

uma das maiores questões:
como tratar o espaço de transição
entre dois espaços?

a espacialidade de um corredor largo e baixo
ou estreito e alto
é opressora

a arquitetura busca enquanto ferramenta estética
a harmonia entre as espacialidades
algumas vezes desarmonizadas

a arquitetura que use a estética do fractal geométrico
gerada com base em algoritmos
zara hadid feita de algoritmos
evolutivos
o desenvolvimento em etapas
iterações ultra complexas feitas de simulação

o conforto possível dentro de um projeto
o conforto subjetivo dentro do ambiental
o entender uma ânsia que não é sua

a boa obra pública
como aquela que garanta a equidade aos seus usuários
o usuário se sentindo dono
o criar essa sensação de pertencimento
sem quaisquer elementos hostis ou desagregadores
e trazer equipamentos que permitam
a sensação de pertencimento
as praças lugar de encontro social
o lugar de troca

o shopping é a anti-praça
mais praças e menos shoppings

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

adriane

(com Caio)

ela me faz
desafiar
o meu lugar comum

quando morando no Rio
morando na novela de Manoel Carlos
vivemos uma lua de mel

eu pensando em trabalho
e ela me perguntando onde está
a minha diversão

ela desafia os meus conceitos
pensar fora da caixa

o meu sentimento
por ela
é avassalador

lá em casa forte
alterna
conheci a mulher mais bonita da festa
talvez a mais bonita que eu conheci
em toda minha vida
eu até hoje em dúvidas
porquê ela me dá bola

a vontade de voltar a esse lugar
ao lado de uma mulher massa
que vale a pena dividir a vida
é um lugar bonito
simples
mas que vale a pena viver
um lugar bom pra caralho

é andar com ela na praia
e conversar sobre tudo
eu sinto a liberdade
a ausência de medo de qualquer crítica

ela, a pessoa mais incrível
bonita
inteligente
trabalhadora
boa de se conviver
nada de amélia
ela bota pra fuder

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

passo

(com Álvaro Braga e Luciana Beviláqua)

é difícil se entregar
dar um salto no desconhecido
pausa

um poema em pessoas
é preciso de humanidade
ao menos com um porco?

um colocar-se no lugar empático
uma alteridade
um outro em nós
e nós nos outros
e só há uma unidade

a autonomia da beira da bolha
sufocante
a tentativa de fazer uma possível mínima diferença
do pulo
                   mais alto
no ar novo respirável de enxergar
uma realidade que nem sequer existe
em meio à calota cerebral

sábado, 29 de dezembro de 2018

morte

(com Luciana Cabral)

a visão da morte começa com a parte humana
a dor física
os pequenos avisos de dor da morte
até aquela raquetada de dor
sem sonhos
sem lembranças

o julgamento dos outros
foi porque estava com angústia
foi porque não comia
ou trabalhava muito
a morte é só um ciclo que se encerra
mas procuramos sempre um motivo
que só sabe quem morreu

a imagem de todos em volta do caixão
na trombose cerebral

a discussão sobre o erro médico da terceira trombose cerebral

muita demência e desejo não realizado no CTI
a vontade de vingança por um passado não esquecido

o italiano gritando
quero queijo de cabra com coca cola
a noite inteira

a morte não pede licença
não negocia

a sua volta é fóbica
até o reencontro do ciclo da vida
e a perspectiva do tempo do dia

qual é o meu tempo não vendido?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

guerra

é preciso sentir as marés
viver maré
ser maré
respirar maré
é preciso sentir a circularidade do tempo
e não sua espiral
é preciso tirar o peso dos ombros
de vez em quando
observar a paisagem
dormir com o barulho salgado na carne
é preciso deixar o sangue escorrer
fazer uma sangria
limpar-se
é preciso amar a coisa mais pérfida
insubstituível e vil
é preciso tomar um banho no escuro
nu com a noite
é preciso descansar
quando a guerra é longa

sábado, 22 de dezembro de 2018

útero

o útero criativo
é quente
lhes asseguro
talvez esteja ao alcance da subida do morro
ali ao lado da glória
onde se toca uma música
com ecos de infinito
desapegados do tempo
aqui acontece o dia e a noite
mas de outra forma
aqui é a força do mundo
o primeiro grito de ar nos pulmões
aqui as coisas acontecem em relógios de dali
aqui se entra na estrofe
aqui não há mais a busca
aqui espera-se que a noite nunca acabe
aqui se sonha mais forte
aqui se busca um pouco mais
aqui não há mais borda
aqui se suspende
e voa

aqui

aqui em santa
teresa
é como um parque de diversões
maravilhoso
acessível acima do morro
um suor pegajoso e bom
naquela noite de verão
ainda horizonte

aqui em santa
teresa
é puro id
são luzes de natal piscando
na bateria
é uma noite pegajosa
borbulhando

aqui é santa
teresa
é um convite
uma pausa
uma versura
que bom ainda possível
que bom ainda podemos
dela desfrutar
que bom dela ainda amar
a onda de Santa
comunitária
empática
multicelular

ouro verde

na beira do Tejo
as comidas cheiram a azeitona líquida
encorpada
os campos as roupas as mãos
cheiram a lagar
e eu ávido
regalado de memórias
trouxe comigo uma garrafa de sonhos
calmos, quentes, vaporosos
para tê-los em minha boca