sábado, 29 de dezembro de 2018

morte

(com Luciana Cabral)

a visão da morte começa com a parte humana
a dor física
os pequenos avisos de dor da morte
até aquela raquetada de dor
sem sonhos
sem lembranças

o julgamento dos outros
foi porque estava com angústia
foi porque não comia
ou trabalhava muito
a morte é só um ciclo que se encerra
mas procuramos sempre um motivo
que só sabe quem morreu

a imagem de todos em volta do caixão
na trombose cerebral

a discussão sobre o erro médico da terceira trombose cerebral

muita demência e desejo não realizado no CTI
a vontade de vingança por um passado não esquecido

o italiano gritando
quero queijo de cabra com coca cola
a noite inteira

a morte não pede licença
não negocia

a sua volta é fóbica
até o reencontro do ciclo da vida
e a perspectiva do tempo do dia

qual é o meu tempo não vendido?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

guerra

é preciso sentir as marés
viver maré
ser maré
respirar maré
é preciso sentir a circularidade do tempo
e não sua espiral
é preciso tirar o peso dos ombros
de vez em quando
observar a paisagem
dormir com o barulho salgado na carne
é preciso deixar o sangue escorrer
fazer uma sangria
limpar-se
é preciso amar a coisa mais pérfida
insubstituível e vil
é preciso tomar um banho no escuro
nu com a noite
é preciso descansar
quando a guerra é longa

sábado, 22 de dezembro de 2018

útero

o útero criativo
é quente
lhes asseguro
talvez esteja ao alcance da subida do morro
ali ao lado da glória
onde se toca uma música
com ecos de infinito
desapegados do tempo
aqui acontece o dia e a noite
mas de outra forma
aqui é a força do mundo
o primeiro grito de ar nos pulmões
aqui as coisas acontecem em relógios de dali
aqui se entra na estrofe
aqui não há mais a busca
aqui espera-se que a noite nunca acabe
aqui se sonha mais forte
aqui se busca um pouco mais
aqui não há mais borda
aqui se suspende
e voa

aqui

aqui em santa
teresa
é como um parque de diversões
maravilhoso
acessível acima do morro
um suor pegajoso e bom
naquela noite de verão
ainda horizonte

aqui em santa
teresa
é puro id
são luzes de natal piscando
na bateria
é uma noite pegajosa
borbulhando

aqui é santa
teresa
é um convite
uma pausa
uma versura
que bom ainda possível
que bom ainda podemos
dela desfrutar
que bom dela ainda amar
a onda de Santa
comunitária
empática
multicelular

ouro verde

na beira do Tejo
as comidas cheiram a azeitona líquida
encorpada
os campos as roupas as mãos
cheiram a lagar
e eu ávido
regalado de memórias
trouxe comigo uma garrafa de sonhos
calmos, quentes, vaporosos
para tê-los em minha boca

fotopoema1

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que deu sombra há muitos
anos
banhada pelo sol
com dois três dez tons
de verde
às vezes um pouquinho amarelos
disponível ao abraço mãe
vinda do útero da vida
com braços copados

de quantas vidas foi parte?
de quantos dias e noites foi parte?

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que muito já viu
e ainda verá muito depois do nosso amanhã

conexão

(para Eduardo Losso)

a busca de um segundo
que desamargue os dias
que desafogue o sufoco
da rotina estafante

a busca de um minuto qualquer
de paz e comunhão
silenciosamente musical

a busca da força do tronco
da árvore verde
vivíssima

a busca de espaço
por dentro do corpo
sem paredes

a tentativa de adiar um pouquinho
essa morte, que há de chegar
mas ainda não

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

idílio

(com Laís Cavalcante)

chegando de cabo frio
em 2014
em niterói
querendo ser
universitária
mas ainda
na dúvida
encontrando pessoas
na rua
meu avô torturado
na ditadura
comecei a estudar em um pré
vestibular
conservador
um tempo gasto
até um professor de geografia
flertando
querendo aprender
me interessando
em um lugar de aprendiz

em um restaurante barato
em Icaraí
com uma blusa do clube da luta
sentei ao lado de um cara
que puxou assunto comigo
a conexão esperada
não naquele dia
mas no dia seguinte

ele, descolado
e eu, nem iniciado
a graduação
sem conhecer ninguém
mas cheguei na casa dele
ele de saia
cozinhando para mim
até que sua saia sujou
a gente fumando
ele tocando no violão
green eyes
ele sabendo sobre todos
os assuntos do mundo
de mãos dadas
na praia de Icaraí
até que na volta
eu travando
com muita roupa

a mãe dele chegou
eu não sei
porquê
fiquei com medo

ele indo para a Espanha
eu com medo sobre o que falar
ele dormiu no filme
ele com chocolate em casa
ele safado
eu gostando

a gente na casa dele
com ele a estranheza
daquele corpo novo
até um tapa na bunda
quando com meus olhos arregalados
ele gozou

após quinze dias de sua ida
ele me contou sobre a sua viagem
e eu falando dele
todo dia
fui me apaixonando
as fotos trocadas
eu mandando músicas cantadas em áudio
ele poemas e fotos
ele deleuziano
eu ainda não conhecia

ele na terça
no balão de capadócia
no café alguém especial
era eu

quando ele voltou
eu aflita
a gente se beijou
a gente namorou
até a sua traição
aparentemente desconstruída
ele com liberdade
enquanto eu não

foi todo o ano de 2016
após tantas inseguranças
eu terminei
bêbada e tão mal

acho todo dia em que eu me masturbo
eu penso nele
ele tão único
eu ainda não superei

eu nos seus olhos
um ser quase mítica
ele me mostrando o mundo

mas também não sei
vou pegar
um cigarro

domingo, 16 de dezembro de 2018

verde

(para Diego Pansani)

poesia é um modo de se olhar para o mundo
as árvores intervalo de verde
e sol em um domingo à tarde

girassol

quantas cores tem o girassol de van gogh?
quantos perfumes traz a primavera
a florir despretensiosa?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

amor de irmão

(com Thaís Mandarino)

eu adoro ter irmão
por mesmo que não seja de sangue
irmão se torna irmandade
o encontro de almas
conhecida há tempos
muito bonita

porque ele compartilha a tua vida contigo
mesmo as mais vergonhosas
as mais impiedosas
você conta

o amor de irmão
muito profundo
marcado de dentro na pele
eu tenho grandes amigos, mas como

dar a vida como se fosse a tua

domingo, 9 de dezembro de 2018

nosso país

vivemos em um país objeto histórico
do palhaço político
onde o bordão é pior que tá, não fica

vivemos em um país de escândalos de twitter
de juízes políticos
onde o argumento supera o fato

vivemos em um país de escândalos diários
cada dia mais impossíveis
onde esqueceu-se completamente do real

vivemos em um país inverossímil
cada dia mais inacreditável
onde esqueceu-se do simples lembrar

vivemos em um país famélico
de pão e de teto
onde é amarelo o verde-azul

vivemos em um país a latifundiar
qualquer esperança
nesse canto por deus esquecido

vivemos em um país passado
tornado presente
nessa terra formada de sangue e húmus

vivemos um pesadelo sem fim
uma vontade de acordar
desesperadora

vivemos em um pais só fígado
nas fontes pútridas
espalhadas pelas praças

vivemos em um país bad trip
do não pode ser
verdade, isso

vivemos em um país necessidade de dormir
e desligar-se e ao menos amar
e tentar dançar em meio ao caos

vivemos em um país em brasas
ardentes no estômago
vazio talvez para sempre

domingo, 2 de dezembro de 2018

sete

hoje me cuidei
dormi o sono atrasado
tomei meu café
da manhã mais calmo
olhei de xícara na mão
os passantes na rua

hoje acordei
tarde, espreguiçado
o sol mais alto
a barba de baba da noite
o vento do início do verão

hoje fiz amor
sorridente, dei amor
recebi
tirei o atraso de mim
respirei

hoje Internet
não teve salvo por motivo
prático, não teve
ruído, poucas pessoas
na tarde justa

hoje cuidei do meu corpo
tomei meus remédios
todos, na hora certa
comi, bem, saudável
bebi uma água de coco

hoje depois
do almoço a sesta, satisfeito
nu, com o toque do lençol
e da pele quente que me sorria
ao meu lado na cama

hoje lavei louça
ajudei na comida
fui no mercado
caminhei por Copacabana
despudoradamente tranquilo

hoje deixei de lutar
só por hoje
uma pausa, deixei o fim
do mundo depois das flores
penduradas na janela

hoje fiquei feliz
hoje comecei um livro
hoje abaixei a guarda
hoje fiz um poema
hoje pude descansar

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Dark Side

tomo uma cerveja no Osbar
mais uma vez
hoje a trilha sonora é Dark
Side, olho para cima
são linhas paralelas
quase se encontrando no céu
azul quase sem nuvens

tomo uma cerveja no Osbar
outra vez
começou a tocar Money
e me pergunto por que
seria tão importante esse papel
impresso que só compra angústia
ou desilusão

é, aqui no Osbar, tem cerveja
tem uma alegria invisível
ou quase
tem o ponto de fuga
da altura infinita
e acima esta fileira de casulos
quase todos já apagados
quase todos com um tubinho asceptico

mesmo no centro do Rio
de Janeiro, megalópole maníaca
ainda resta alguma pausa
ainda que de roupa social
que ainda despretensiosa
faça algum sentido

o sax e o piano do Us
and Them, acompanham o vento
do final de tarde
enquanto no gramado algumas folhas
novas balançam, enquanto o pedinte de bermuda azul e cachaça na mão
entra nesse poema por ouvir a música
que vocês também
ainda que silenciosamente
estão ouvindo

passam grupos saindo do trabalho
mulheres de salto
poc poc poc poc
homens de calça e camisa e orgulho
vazio, ruidosos homens
ao lado táxis esperam
esperançosamente qualquer um que queira ir para qualquer lugar
mas de mãos dadas às suas
prefiro não

tem alguém na minha cabeça
mas não sou eu
the lunatic is in my head
the lunatic is in my head
ouve seus risos?
venha comigo
ao lado escuro da lua

sábado, 24 de novembro de 2018

dúvida

por que ainda fazer poemas
por que ainda dizer
por que ainda falar alguma
coisa, não deixar-se
calar, por que ainda escrever
qualquer linha que seja
um rasgo no espaço em branco
da página, por que ainda lutar
por que tentar agir
por quem ainda não tem absolutamente
nada, por que ainda
acordar e ficar de pé
levantar-se e caminhar
dar e receber um abraço
um beijo, um toque
por que não simplesmente desistir
entregar-se ao nada
vazio e calmo
por que correr
e não andar devagarinho
passo
antepasso
por que não tentar
observar
a beleza firme da noite
ferina
obscura
e lâmina
e deixar
de perguntar?

domingo, 11 de novembro de 2018

Casamento

na casa da praia
no domingo de sol
à tarde e vento
tudo é possível

na casa do horizonte esmeralda e barulho de mar
o céu se abre
na passagem das nuvens e ondas
nos lírios gigantes

de ontem, era casamento
um pouco de amor nesses dias cinzas
um pouco de alegria desurbanizada
um pouco da mari e do cássio

a voz e violão
a ressaca da festa de ontem
a lembrança de uma noite feliz

estamos juntos
ombro a ombro
sonhando
um novo mundo

sábado, 27 de outubro de 2018

Ho'oponopono

(com Thiago Rodrigues)

meu antigo relacionamento
nove anos com a ex
e um término traumático
nós quase vizinhos, com amigos
em comum, ela começou a sair
com uma pessoa próxima

a mãe dele, me dizia
Thiago, eu te entendo, se eu fosse
você, eu daria
um soco nele

foram três dias
de um período morte
consumido por uma energia negativa muito forte
eu cheio de ódio saí para correr

na volta, um amigo mandou
ho'oponopono

a ruptura abrupta
de certa forma inexplicável
do ódio à leveza
ho'oponopono

entoando esse mantraum estalo no corpo
uma quebra
ho'oponopono

domingo terminamos,
quarta a notícia do outro
sexta o mantra

após o ódio
um choro de felicidade
um riso
uma ligação para a minha ex
pedindo perdão pelos pensamentos

podem nos fazer mal
mas importa é como recebemos

como reagir ao outro?

então comecei a entender o não
julgar o não
criticar

um mês depois conheci minha esposa
atual, em um samba, a chamei Ana
Luisa, para dançar, e nunca mais
nos desgrudamos

uma sucessão de coisas maravilhosas
tem acontecido desde então
momentos maravilhosos
de energias boas
um ano juntos

meus sogros músicos, pessoas do bem

mesmo que um dia terminemos
nesse curto período de tempo em que estamos juntos
ela tem me ajudado a crescer como pessoa
como ser humano
e eu vejo o carinho que meu filho tem por ela

eu encontrei uma joia
uma água pura no deserto
o carinho, o amor e tudo que ela traz
de bom, um êxtase, uma efervescência
uma sensação de pura
felicidade

Coragem

(com P.R.)

minha mãe advogada
com um sócio
que começou a sabotá-la
assim que começaram a ganhar dinheiro

na briga
na divisão de processos
a princípio
era assim:
par de um lado
ímpar de outro
mas na calada da noite
ele desviava alguns para ele

ela o desmascarou
ameaçou abrir com barra de ferro o escritório
toda vez que ele fechasse

uma vez
minha mãe toda vestida de branco
roupa, blazer, sapato
cabelo com gel, com joia
em seu maior grau de vaidade

ela me disse:
hoje eu vou de branco
pois hoje quem vai me defender é Oxalá

nesse dia foi um matador de aluguel
no escritório
dois tiros
um na bochecha
e outro na escápula
mas apenas no músculo

minha irmã
que estava no cômodo
ao ver o sangue no blazer branco
gritou: ela morreu

ela abriu os olhos
e disse: não morri

minha mãe cheia de sangue
disse para o motorista da ambulância
passar em frente ao fórum

chegando lá, gritou:
A., eu vou te botar na cadeia!

ele foi preso
o irmão ficou foragido
e morreu

hoje minha mãe continua com o escritório

às vezes é meio loucura
ser corajoso
mas não podemos nos acovardar
em prol da verdade
e daquilo em que acreditamos

Primeira Vez

(com Paulo Sérgio)

eu sou de uma cidade pequena
lá do interior de São Paulo
no jardim perto de casa
na sombra da figueira
com onze anos
eu e um amigo
cujo tio trazia uns catecismos
ficávamos sentado na árvore
lendo aquelas revistinhas desenhadas
do Carlos Zéfiro

com onze anos
nunca tinha me masturbado
mas fiquei com aquele negócio na cabeça
aquilo ativava a imaginação
e fui tomar banho

pela primeira vez:
ejaculei
aquele negócio branco
pensei:
pequei!
pequei!

o mundo acabou para mim
fui para o inferno

saí do banheiro com cara de choro
e fui falar com meu pai

- pai, pequei
- pecou moleque?
- fui no banheiro
saiu um negócio branco
dentro de mim
- aaaah, para com isso
só vai com cuidado

no dia seguinte
começou a vida

Um Mexicano

(com Marine Gicqueau)

no México, em uma festa
chique
e esse banqueiro mexicano me disse
que queria mudar para os Estados
Unidos
e queria subir de nível

mas eu questionei
perguntei
por que você não quer
ficar no seu país
duvidando
dessa fascinação pelos Estados
Unidos

e ele me disse
para subir
ter um trabalho importante
é diferente da França
posso enfrentar
problemas de corrupção
chantagem
problemas com narcotraficantes

desde então percebi a minha sorte
que não enfrento os mesmos problemas
dos outros
e que existem razões imperceptíveis
à primeira vista
e que devo ouvir mais
sem julgamentos