sábado, 27 de outubro de 2018
Ho'oponopono
meu antigo relacionamento
nove anos com a ex
e um término traumático
nós quase vizinhos, com amigos
em comum, ela começou a sair
com uma pessoa próxima
a mãe dele, me dizia
Thiago, eu te entendo, se eu fosse
você, eu daria
um soco nele
foram três dias
de um período morte
consumido por uma energia negativa muito forte
eu cheio de ódio saí para correr
na volta, um amigo mandou
ho'oponopono
a ruptura abrupta
de certa forma inexplicável
do ódio à leveza
ho'oponopono
entoando esse mantraum estalo no corpo
uma quebra
ho'oponopono
domingo terminamos,
quarta a notícia do outro
sexta o mantra
após o ódio
um choro de felicidade
um riso
uma ligação para a minha ex
pedindo perdão pelos pensamentos
podem nos fazer mal
mas importa é como recebemos
como reagir ao outro?
então comecei a entender o não
julgar o não
criticar
um mês depois conheci minha esposa
atual, em um samba, a chamei Ana
Luisa, para dançar, e nunca mais
nos desgrudamos
uma sucessão de coisas maravilhosas
tem acontecido desde então
momentos maravilhosos
de energias boas
um ano juntos
meus sogros músicos, pessoas do bem
mesmo que um dia terminemos
nesse curto período de tempo em que estamos juntos
ela tem me ajudado a crescer como pessoa
como ser humano
e eu vejo o carinho que meu filho tem por ela
eu encontrei uma joia
uma água pura no deserto
o carinho, o amor e tudo que ela traz
de bom, um êxtase, uma efervescência
uma sensação de pura
felicidade
Coragem
minha mãe advogada
com um sócio
que começou a sabotá-la
assim que começaram a ganhar dinheiro
na briga
na divisão de processos
a princípio
era assim:
par de um lado
ímpar de outro
mas na calada da noite
ele desviava alguns para ele
ela o desmascarou
ameaçou abrir com barra de ferro o escritório
toda vez que ele fechasse
uma vez
minha mãe toda vestida de branco
roupa, blazer, sapato
cabelo com gel, com joia
em seu maior grau de vaidade
ela me disse:
hoje eu vou de branco
pois hoje quem vai me defender é Oxalá
nesse dia foi um matador de aluguel
no escritório
dois tiros
um na bochecha
e outro na escápula
mas apenas no músculo
minha irmã
que estava no cômodo
ao ver o sangue no blazer branco
gritou: ela morreu
ela abriu os olhos
e disse: não morri
minha mãe cheia de sangue
disse para o motorista da ambulância
passar em frente ao fórum
chegando lá, gritou:
A., eu vou te botar na cadeia!
ele foi preso
o irmão ficou foragido
e morreu
hoje minha mãe continua com o escritório
às vezes é meio loucura
ser corajoso
mas não podemos nos acovardar
em prol da verdade
e daquilo em que acreditamos
Primeira Vez
eu sou de uma cidade pequena
lá do interior de São Paulo
no jardim perto de casa
na sombra da figueira
com onze anos
eu e um amigo
cujo tio trazia uns catecismos
ficávamos sentado na árvore
lendo aquelas revistinhas desenhadas
do Carlos Zéfiro
com onze anos
nunca tinha me masturbado
mas fiquei com aquele negócio na cabeça
aquilo ativava a imaginação
e fui tomar banho
pela primeira vez:
ejaculei
aquele negócio branco
pensei:
pequei!
pequei!
o mundo acabou para mim
fui para o inferno
saí do banheiro com cara de choro
e fui falar com meu pai
- pai, pequei
- pecou moleque?
- fui no banheiro
saiu um negócio branco
dentro de mim
- aaaah, para com isso
só vai com cuidado
no dia seguinte
começou a vida
Um Mexicano
no México, em uma festa
chique
e esse banqueiro mexicano me disse
que queria mudar para os Estados
Unidos
e queria subir de nível
mas eu questionei
perguntei
por que você não quer
ficar no seu país
duvidando
dessa fascinação pelos Estados
Unidos
e ele me disse
para subir
ter um trabalho importante
é diferente da França
posso enfrentar
problemas de corrupção
chantagem
problemas com narcotraficantes
desde então percebi a minha sorte
que não enfrento os mesmos problemas
dos outros
e que existem razões imperceptíveis
à primeira vista
e que devo ouvir mais
sem julgamentos
domingo, 21 de outubro de 2018
a água implícita
(com Natasha)
o que eu mais desejo
o que eu mais tenho
vontade, é aprender a amar
ainda sinto
tanto medo
mas tanto medo
que não deixo
e não consigo
saber
sentir
perceber
qualquer coisa, como é o amor
eu não sei o que é amar
são quase 30 anos buscando
amor
amor
amor
amor
mas quando tu tem a troca
algo acontece com você
e às vezes eu fico pensando
que isso não é para mim
quero saber sentir o que eu sinto
viver com medo é viver sozinha
apenas um ano e meio
convivendo
compartilhando
intimidade
a busca
por mim ainda
não encontrada
é de alguém que me encontre em mim
pois isso é tudo o que eu desejo
só o que eu queria é o cotidiano
compartilhar com alguém
o cotidiano, compartilhar
o todo a vivência o amor
essa solidão absurda
que te deixa paralisada
em face do medo da resistência
da rejeição
tenho um desejo de estar com alguém
um desejo que me move
mas eu mesma me digo
- eu mesma minha inimiga número um -
que não mereço
um sentimento de atraso
uma demora para viver
uma corporidade tardia
apenas uma paixão na vida
com 25 anos
um não namorado incompreendido
da paixão que eu lhe dava
quando tu é mulher
tu não tem desejo tu não pode isso
e então vivi uma demora
para poder desejar
mas agora eu quero pele
eu quero pantufa
eu quero a história da tua vó
eu quero as tuas fotos de família
eu quero o teu dente quebrado na 6a série
eu quero amar
para não existir apenas
mas viver
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
a sinédoque gente
(com Álvaro Braga)
quando você se acha vivo
mas asombra o outro
algo que está morta
está muito mais viva hoje
como algo na história
ou outros tão escuros de luz
tornaram-se
pedra
o rinoceronte brutal
impermeável
de convivência mínima
quando você cospe no próprio coração da sala
um acovardar-se
para enfrentar o oceano
o resseio de se afogar
e de viver pela simplificação
um não amadurecimento talvez
de despossuir
ficar nu
de um mínimo preconceito
de nunca experimentar uma minimamente nova possibilidade
um bombom mínimo
deixado ao lado
um enxergar um pouco além do mínimo
a simplificação extrema dos modos de vida
um não viver nunca uma rota de fuga
que se esquece
do versículo
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Maria vai?
(com Álvaro Braga)
essa viagem foi maneira para caralho
fudemos nossa coluna
mas vivendo mais intensamente com outra pessoa
criamos um vínculo com essa pessoinha
que talvez seja indissolúvel para sempre
aquelas coisas que vão ficar muito marcadas a ferro e fogo
a viagem foi linda pela possibilidade de estranhamento
ser um alienígena de nós mesmos
forçar alguma coisa que possa ser boa
após a barreira inicial
ser intenso no usufruir
ao brincar no parquinho
no videogame
no mergulho naquele momento
absoluto intenso com a pessoa o lugar
a potencialidade máxima do ser vivo
conectando-se com todas as dimensões
mas voltamos e somos macacos sem psicanalista
que necessitamos
de forma
ur
gen
te
canalizar a nossa pouca sapiência
para aprender a viver junto
o limiar que separa
as crianças
dos adultos
os covardes
e os fortes
aqueles que optamos pelo caminho mais difícil
já que há um caminho que precisa ser trilhado
se tivesse
pensamento crítico
será que Maria
iria com as outras?
Disco Voador
os dias de hoje estão
imersos em uma avalanche
rinocerôntica
e a pergunta
que vale um
milhão de dólares
como não alimentar
os rinocerontes?
como não deixá-los proliferar?
essa falta incorrigível
de formação ética
limita qualquer possibilidade
de qualquer problema econômico
esse pêndulo
até que talvez paremos de rodar essa Terra
e repensar os nortes
porque senão
além do fundo do poço
um pântano pegajoso incaminhável irrespirável enxofre um peso nos braços um barro no seu olho
mas aberta a possibilidade
incansável de novos modos de vida
que possam fazer uma quebra
no mundo
para transformá-lo
verdadeiramente
em um paraíso
essa sorte tão grande de uma posição nem tão
perto nem tão
longe do sol
de estar nessa sorte incrível sem perceber
de um bilhete de loteria
premiado
dentro da gaveta
- esquecemos que jogamos -
uma sorte cósmica incrível
(com C.L.)
a sorte
é a possibilidade
de após fazer tantas merdas
e ainda se dar bem
e ser feliz
e sair bem na fita
não ser prejudicado
por fazer tudo o que é contrário ao normal
na minha adolescência
uma amiga porra-loca total
adolescente em Carangola de Minas
família tradicional brasileira
ela saía descompromissada
e os pais não descobriam
e eu não acreditava
e eu inveja
sem poder sair daquele mundo
Carangola de 30 mil habitantes
aquela cidade onde hoje
passeata pró
Bolsonaro
meu pai
por ignorância
mas meu irmão
por mau caratismo
que só agora
eu vi acontecer
de forma tão latente
na minha adolescência
uma menina rebelde
que já questionava
tudo
sem com quem extravazar
até chegar no Rio com 18 anos
então na FND
me descobri
como pessoa, toda a realidade
do mundo, toda a política
e me formei no bar
nas conversas
os amigos até hoje
há outros 18 anos
uma metade tentando se libertar sem conseguir
a cidade inteira vendo novela às 21:00
contestadora de não poder sair por ser mulher
e a outra metade
perseguindo um mínimo de justiça social
igualdade, fraternidade
não a liberdade americana
mas uma liberdade social
à educação cultura saúde
não aguentar ver nenhuma criança em estado de pobreza
quem sabe evoluí
mas espero ser melhor amanhã
para ser um pouco mais feliz
pela felicidade do outro
Tiagão Punk
em Sorocaba
você andava à tarde
e encontrava umas pessoas
meio doidas na rua
e era uma vez o Tiagão
qual Tiagão?
o Tiagão Punk
ele não tinha família
saiu de casa cedo
por ser punk
e andava muito doidão
com algum disturbío
ele andava meio indignte
sempre se virando na vida
enorme gordão careca
sempre em todos os shows de punk
durante o dia você esbarrava
em qualquer rua do centro de Sorocaba
naquelas oito ruas por oito
o Tiagão Punkum quase vereador
ele andava com uma ratazana de laboratório
branca amarrada em uma coleira
dada por um amigo
de repente um tio dele morreu
deixou uma grana de herença
ele comprou um parque de diversões
ao lado do Shopping Sorocaba
ele, mestre de cerimônias do parque
liberava a catraca para meninos de rua
e gente mais pobre
mas as lojas
tinham contratos antigos
e não gostavam
e tinham prejuízo
com os novos frequentadores
um dia
assassinaram ele
dentro do parque
e tudo levou a crer
que foram os donos
das lojas
desde então
uma profusão de discos punk
em homenagem a ele
em 2017 reuniram a galera que conhecia ele
vários punks velhos se encontraram lá
e todos ficaram lembrando deles
e fizeram uma playlist de músicas
e choraram juntos
em homenagem ao Tiagão
um catálogo de contos surreais
as mil e uma noites
do herói anônimo
de Tiagão Punk
Bom senso
ontem
após a conferência com os Seus Putos
que denunciam as práticas genocidas no Rio
de Janeiro, as meninas perguntaram para o público:
quando vocês se sentiram trouxa?
por exemplo:
eu me sinto trouxa
quando eu entro no ônibus e ele custa R$ 3,85
e me faltam dez centavos
voltando para casa eu lembrei de quando meu cachorro
teve um problema para o estômago
no fim de semana logo antes da minha prova para entrar no mestrado
era muito forçoso dar água dar comida
alimentada apenas no soro pelo veterinário
meu cachorro não queria se separar de mim
meu pai aceitou levá-la ao veterinário:
não se preocupa, vou resolver isso
a prova
é importante para você
mas não o fez
ele se enrolou para levar o cachorro doenteao ir no mercado e ver promoção de cerveja
eu me senti muito trouxa
de ter dado essa confiança
após a conversa franca, apesar da falta
de bom senso ele passou
a ter mais responsabiliade
uma semana depois
apesar do soro e da promoção de cerveja
ela se recuperou
Judô
quando eu tinha uns 4
ou 5 anos, minha mãe queria
menina balé
menino judô
meu irmão, dois anos mais velho
foi seguir o seu destino
e fazer judô
em uma turma só de meninos
eles correndo no tatame
descalsos
algo muito tão mais livre leve
que a minha aulinha de balé
após muito bater o pé
na Rua Emmanuel Kant
onde morava
comecei a frequentar o Lar de Meninos Bom Caminho
onde eu e meu irmão íamos para a aula
de judô
o sensei Neuri
ficou encantado
e começou a trazer as filhas
desestabilizando o gênero dominante
eu virei a mascote daquela turma
uma criança muito fofa de franja grande bota ortopédica bochecha grande e sorriso trincado
as pessoas se definem
nome idade endereço profissão
elementos teoricamente dominantes do sujeito
quando olho para a minha trajetória
eu penso: sou judoca
apesar de uma tendinite patelar
que repete a dor
ite ite ite ite
como algo marcado no meu corpo
nós somos muitas coisas
mas o que eu mais gosto de dizer sobre mim
mesma, é que sou faixa preta de judô
um orgulho de me sentir desbravadora
um corpo estranho, forasteira
para algo que sempre deveria ser
normal em nossa sociedade
patriarcal
domingo, 16 de setembro de 2018
o primeiro
(com J.)
eu me mudei para o Rio
por causa de um cara
o meu primeiro,
que eu conheci no Sul
eu tinha pavor de ficar com alguém
mas o escolhi pois tinha certeza de que nunca mais iria vê-lo
mas ele anotou o meu contato
e começou a vir para Santos
ele na porta
e eu falava para minha mãe
dizer que eu não estava
mas eu me apaixonei
e vim para o Rio
de surpresa
sem explicar
- onde você está morando?
- na General Artigas
- é a minha rua
da rua eu o via da janela
mas não deu certo
ele namorando
quis me ver
mas eu me afastei
ano passado ele me procurou em São Paulo
- vamos jantar
- vamos
ele se separou
mas não rolou
nada, me afastei
não dei
atenção, e eu
apaixonada até hoje
eu, penso hoje, como fui
boba, ingênua
ao menos do lado do telefone
ainda vou dizer
eu te amo
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Pedro II
(com Rafael Arruda)
foi lá que eu aprendi
a diversidade
cultural
de renda social de etnia
de realidade
foi lá que eu aprendi
a importância do acesso à educação
às cotas
que apesar de tudo não compensam todas as desigualdades
foi lá que eu aprendi
que tempo histórico não é igual
a tempo cronológico
que tudo que eu aprendi
um dia por mim será esquecido
mas se eu aprender a pensar
que bom
foi lá que eu aprendi
que a nossa sociedade é marcada por uma dicotomia
entre um poder ser
um poder ter
e um nada
uma desesperança
minimamente melhorada
em sala de aula
foi lá que eu aprendi
a cantar a tabuada
a pular pelo telhado do colégio em busca da libertação
a fazer a fantástica guerra d'água
tomando conta do colégio inteiro
com balões d'água, garrafinhas e copos
a planejar qualquer coisa ainda mais fantástica
não por infelicidade ou revolta
mas pela mais pura alegria
por contar as horas por encontrar os amigos
para finalmente viver um momento onde tudo era possível
foi lá que eu aprendi
a ler, mais de uma vez
a entender a multiplicidade de cada palavra
de cada número, conceito, forma, som e cor
a ser eu, me pensar no mundo
foi lá que eu aprendi
o respeito ao próximo
a visão não isolada sobre si
o contato
a tentar ser apenas um pouquinho
melhor
a ver a diferença que nos marca e que nos define
andando lado a lado com o que nos une
foi lá que eu aprendi
a desaprender o preconceito que nos marca
a cada dia nesse mundo injusto
e a importância do próprio desaprender
para sempre
sábado, 25 de agosto de 2018
Melbourne
eu tinha quatroze anos
e você tinha quinze
a gente virou amigo e depois começamos a namorar
isso durou cinco anos
depois cinco anos separados
nos encontramos na rua
voltamos
mais cinco anos
eu tive que ir embora
do Brasil
você não foi
o nosso primeiro fim
não estava dando
certo, um término mais
normal
traição, desconfiança
eu estava em um carro
ajudando um amigo na mudança
conversando
ao lado do Copacabana Palace
mas alguma coisa real me fez olhar para a direita
e eu vi uma pessoa andando sozinha
às duas horas da manhã andando sozinha
cantando
gesticulando com os braços
e nesse momento passou um ônibus
e eu gritei o seu nome
e você olhou para o céu
e eu gritei o seu nome de novo
e você entrou no meu carro
na nossa primeira conversa depois de cinco anos separados
e voltamos
o nosso segundo fim,
eu em Melbourne e você aqui
um fim distante, frio
estranho
hoje você achou um novo amor
mas ainda penso em você todos os dias
e virei um fantasma
um fantasma do amor
meu coração acelera quando falo disso
sinto uma certa angústia no peito
depois de dezesseis anos
você ainda foi meu único amor
eu não tive um encerramento
você teve
e seguiu com a sua vida
das suas risadas, da sua alegria
do seu sorriso eu me lembro
a maior parte da minha vida eu passei vivendo esse namoro com você
uma história que não foi para frente
pelo menos eu sei o que é amor
enquanto muita gente não sabe
pelo menos eu sei o que é a perda
ainda que em vida
pelo menos eu sei o que é o conforto
com alguém, o que é ter frio
na barriga ao ver alguém
eu queria poder operar o meu cérebro e tirar a sua memória
eu penso todos os dias com uma espécie de culpa
alguma coisa mal resolvida
a forma do fim
à distância
a gente não conseguia se separar
mas só lá em Melbourne
com um oceano de distância
foi possível
eu sonho com um dia sem pensar em você
e então eu vou estar realmente livre
pensar em outras coisas, em projetos, em ideias
e você não estar entre eles
e isso já tem três anos
os mais difíceis da minha vida
que me fizeram tentar entender melhor quem eu sou
me fizeram me aproximar mais do amor eterno
de pessoas, de amigos
mesmo se você quisesse voltar
eu também estou em outra
penso em focar em mim
e tentar realizar meus sonhos sem você
mas ainda com um pé atrás
em relação a qualquer namoro
e sem uma mínima
leveza, sem um sentido a mais ao lado de alguém
não vou me envolver
de novo
eu desejo que a sua alegria continue
e que essa nova pessoa em sua vida te dê
segurança
e amor
Peque
o nome dela é Peque
ela tem 5 anos
nós trouxemos ela desde Venezuela
a princípio eu não tinha muita vontade de ter um cachorro
- tudo bem, eles são fofos, tem uma nobleza -
eu não ficava muito bom com a ideia de ter um cachorro
mas a minha esposa sí
onde minha esposa trabalhava lá na Venezuela
chegaram duas cachorras grávidas
e elas tiveram doze cachorros
e nós cuidamos delas
uma se despreocupou dos filhotes
mas a outra ficou
levamos no veterinário
recebemos ajuda de uma ONG que trabalha pela defesa dos animais
demos vacinas, remédios
quase todos os cachorros foram dados para a adoção
mas a Peque sempre ficava escondida
era mais tímida
e a Isis gostava dela
levamos a Peque para a praia
e com o tempo fiquei apaixonado pela Peque
ela ficou muito agradecida
comecei a amá-la como uma filha
a única coisa que ela falta por fazer é falar
agora comecei a falar com ela em português
e ela entende
um cachorro sempre pensa em dar amor
ele não conhece infidelidade
ele não conhece preconceito
ele ama uma pessoa sem se importar com sua posição
política, econômica, social
e já está demonstrado que eles tem tanto amor ao seu
pai humano que a si mesmos
então eu fico comovido
porque se todas as pessoas fossem iguais aos cachorros
o mundo seria muito mais amável
não existiria a guerra
não existiria a indiferença
com um cachorro um aprende todos os dias
como devemos ser mais agradecidos
como valem pouco as coisas materiais
que devemos ser mais humildes
que quando uno pasa para o outro lado
tudo fica aqui
e eu sempre recomendo
que se alguém quer ficar mais feliz, não ter depressão
tem que ter um cachorro
La salsa
a salsa é um ritmo de música
que não é de Venezuela realmente
ela é muito rica, um ritmo muito amplio
tem um movimento que se chama salsa de nueva iorque
que tem um sonido aspero, bem marcado
um pan-pan que é muito marcado
tem também um salsa mais romântica
que na Venezuela se chama salsa erótica
las letras da salsa brava (ou salsa vieja)
tem vida religiosa
tem política, como protesta
e também da vida diária
(por exemplo, tem uma que fala do limoneiro)
mas a salsa erótica
tem um ritmo mais tranquilo
e toda a letra é com respeito a sexualidade
a relação entre pessoas
fala de hotel
quando te conocí te llevé al hotel
mas de certo modo romántico
se diz que é dançada en una baldosa
porque se dança muito perto um do outro
a salsa tem também um ritmo que é muito dominicano
muito alegre
que pode falar das alegrias da vida
um ritmo mais movido, que você pode dançar mais rapidinho
a salsa é um ritmo musical muito grande
muito rico, muito maravilhoso
porque você pode se expressar de diferentes maneiras
se você gosta de dançar solto, pode dançar salsa
se gosta de dançar pertinho, pode dançar salsa
na Venezuela se dança muita salsa
merengue, paso doble en la hora loca
(a las doce de la noche)
Melodicos
Billos Caracas Boys
una música más 70
quinze años
en una boda siempre hay
música de orquestra
el sonido urbano, reggaeton, también hay
pero la salsa...
en Caracas hay una salsa baúl
(como baúl de recuerdos)
que no es tan vieja como la salsa de los 70
y también no es como la salsa erotica
hay la salsa de Puerto Rico, que es diferente
hay la salsa de Nueva Iorque, que es diferente
no me gusta la salsa baúl, ni la erótica
quando salímos y era solamente eso
no bailé, no dançamos nada
porque no hay diversión
la salsa de los 70 tiene un modo diferente de bailar
con la salsa 70
yo siento alegría
me siento desinibida
você pode se expressar
você pode dançar livre
você está girando
e sinto que posso ser eu
e não paro
sábado, 11 de agosto de 2018
Caffe-Bar Barila
quase não há movimento
os carros passam na rua de tijolos
e deixam um barulho distante
pouca gente no bar
uma senhora sozinha
com muletas apoiadas
buscando que o tempo não passe
para não ter de voltar à sua solidão
uma mulher de voz irritante conversa animadamente
com sua avó
que ouve e sorri
três jovens conversam quem sabe sobre o quê
e duas senhoras relembram histórias
para revivê-las novamente
essas são as quatro mesas
no balcão três homens, uma mulher e uma televisão
um deles deve ser o dono
atende os clientes
recebe o pagamento
os jovens se vão
a senhora das muletas
se levanta com dificuldades e parte para um novo abismo
em seu lugar um homem toma café e olha a praça da rua Pirotska
apenas algumas folhas poucas
algumas latas de lixo
e passantes de fim de tarde
todos fumam
a Clarisse vê um filme no celular
eu escrevo
sem muita certeza porquê
o Búlgaro é incompreensível
passa o tram 22
vermelho e branco, de número 4148
na outra direção vem o 22 de número 4160
um avião levando sonhos
o senhor me intriga
na falta de nome
vou chamá-lo de Bóris
sua cabeça já branca
segue os passantes
e balança como aquelas tartarugas de lembrança
sempre dizendo sim sem muita razão
seu café é tomado de gole em gole
não vejo seus olhos
me pergunto se eles perguntam ou afirmam
suas mãos estão cruzadas
parece que já superou sua cota de preocupações
e agora espera paciente
o fim dos dias
um rock toca ao fundo
mais dois amigos sentam no balcão
temos o Bóris, a neta e a avó,
com o rosto da bondade
em seu sorriso calmo e olhar morno
as duas senhoras
que guardam um sorriso de vida
e várias conversas completamente incompreensíveis no balcão
agora a Clarisse está estudando
ela está preocupada com o mestrado
o Bóris olha os aviões passando
talvez os pense caindo
talvez se pense fugindo
ou talvez já saiba
que não se foge da morte
por aqui todo mundo fuma
o alfabeto é cirílico
e seu inventor um santo
e os cachorros passeiam nos parques, ônibus e metrôs
por aqui as fronteiras são novas mas as dores são velhas
por aqui o sol banha os prédios otomanos, imperiais, comunistas e capitalistas
indistintamente
por aqui também se ouve Pearl Jam
enquanto a vida passa não querendo passar
o Bóris se levantou
levando sua xícara
(foi o único daqui que o fez
não sei se por intimidade ou cortesia)
seus olhos são cinza-escuros
cruzaram os meus e se foram
seu rosto é marcado
seus anos já pesam
agora temos duas mesas
e o balcão
passa o tram 20, 4145
na outra direção o 22, 4169
para um ônibus de turismo
buscando o Sveta Sofia
está a duas quadras
mas a praça das poucas plantas e latas
de lixo não o deixa passar
hoje eu fiz a barba
no primeiro salão que me recebeu
a navalha no meu pescoço cortava afiada
guiada por um iraniano
simpático
perguntei da sua família
it's there
e como está lá
difícil, light, one or two hours a day
penso no Bóris
já com um pouco de saudades
queria ouvir suas histórias
talvez escrever um poema com elas
ou talvez só sorrir e chorar
queria ouvir a sua voz
ele que nessa meia hora não abriu a boca
talvez só para suspirar pela sombra das folhas na praça
outro dia o Eucanaã disse
que prefere o seu Yuri
também gosto do meu Bóris
ainda que mudo e distante
ele deve estar em casa já
não mora longe
talvez na Stefan Stombolov
deve estar sentado de meias
olhando o mundo de sua varanda
sua mulher faleceu dez anos
atrás, de câncer
seus filhos foram para a Alemanha
ganhar a vida
ligam no natal e aniversário
o Bóris sente saudades
dá época em que o mundo fazia sentido
ou talvez da época em que as coisas não fossem
tão complicadas
ele dorme pouco
mas não gosta de comprar pão pela manhã
o Bóris foi se deitar
já sonha com sua mãe o abraçando
e abre um sorriso de canto de boca
Alive continua tocando
chegam outras pessoas
minha cerveja acabou
já volto
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
revolução
enquanto a bastilha não cair
continuaremos nossa parca dieta
água e brioches
apenas alguns
lançados das varandas dos arranha céus
tão mais distantes do povo
quanto conseguirem
enquanto a bastilha não cair
continuaremos a ser mortos como moscas
pela mais valia, coerção, medo
ou apenas pura vileza
daqueles esquecidos
do sal da terra que os formou
enquanto a bastilha não cair
lutaremos por um espaço de fala
que já deveria ser nosso
lutaremos por um corpo
que nunca deveria ser dócil
fugiremos de balas de borracha rumo a nossos olhos
cassetetes em nossas costas enquanto caídos
bombas de efeito moral em nossos rostos
chutes na barriga no rosto nas bolas nos peitos
torturas oficiais
tentando nos aquebrantar
enquanto a bastilha não cair
seremos escravos sonhando ser livres
jardim sonhando ser selva
felinos sonhando panteras
cães em seus sonhos de lobo
uivando de desespero
enquanto a bastilha não cair
nosso sangue será brinde de poucos
nossa voz a de loucos
e os seus ouvidos moucos
e a sua soberba de doutos
seremos água e óleo
com nossa dureza de chumbo
ah, mas quando ela cair -
pode não ser amanhã nem depois
nem depois de depois de amanhã
mas ela há de cair -
ficaremos face a face com as nossas dúvidas
decidiremos o que quando como porquê
aboliremos fronteiras moedas países
exércitos armas prisões
seremos flecha e arco
buscando o horizonte
quando ela cair
não poderemos permitir a guilhotina
o mínimo vácuo de poder
(não existe vácuo em contato com o ar)
as explicações e explicadores totalizantes
os donos de qualquer coisa que não seja o seu próprio destino
e então festejaremos os dias e as noites
e dançaremos com ou sem luz
e nos consumiremos inteiramente
e criaremos filhos que só conhecerão o que é liberdade
pois nunca terão vivido
em regime de opressão
e eles sonharão suas novas utopias
terão suas novas palavras de ordem
descobrirão novas injustiças
farão sua nova revolução
rumo a um caminho inconcebível para nós
até o fim dos dias, do Tempo
ou do planeta
terça-feira, 7 de agosto de 2018
consolo
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
seja império ou colônia
democracia
de verdade ou mentirinha
totalitarismos
pequenos ou grandes
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos dormir alimentados
com sede
ou com fome de dias
podemos dormir sob um teto
sob as estrelas ou uma ponte
podemos ter nossos corpos
à nossa disposição
ou continuarmos dóceis
sob algum Estado ou instituição
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos ainda usar dinheiro
desigualmente
ou então solidariedade
podemos conviver com muitas espécies
ou as termos dizimado
podemos ser uma grande união
falando esperanto ou a novalíngua
ou então quinhentos países irrequietos
podemos fazer a guerra atômica
ou a seguinte
de paus e de pedras
pode existir a camada de ozônio
ou apenas algumas manchas
esparsas
podemos ainda pisar sobre a Terra
ou sermos areia
pode ainda haver sonhos
ou só tempestade
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
segunda-feira, 30 de julho de 2018
memória
relevar e esquecer
o que aconteceu nos Bálcãs
os campos de concentração
os 1395 dias de cerco aos civis
de Sarajevo
o genocídio de Srebrenica
os massacres sob os olhos das nações
'unidas' (sic)
os militares holandeses em missão de
'paz'
impedindo a entrada de milhares de refugiados em seu quartel
o bebê morto
na frente da família
no forno
pois chorava
e seu cheiro de carne queimada e aparência de leitão
as cidades patrimônio mundial (sic)
destruídas
as pessoas
sendo protegidas por quem?
relevar e esquecer
os milhões de sírios deslocados
a frieza europeia
as crianças afogadas
tentando viver pelo menos
mais um dia
relevar e esquecer
a primavera árabe tornada inverno
a volta dos regimes ditatoriais
a impossibilidade de qualquer expressão
que não concordância
relevar e esquecer
os bielorrussos apagando o incêndio atômico
com pás e fuzis
a chuva amarela
os isótopos cancerosos e famintos
os pedaços de carne amolecida
relevar e esquecer
o medo cotidiano do estupro
a felicidade de apenas um dia
sem cantada, abuso ou pior
a quase impossibilidade de apropriar-se do próprio corpo
impedida por nós, homens
em busca de poder para poder esquecer
o medo da morte
relevar e esquecer
relevar e esquecer
a Grande Guerra da África
o Kosovo ainda um quasepaís
a Palestina ainda um país refugiado
o Tibet ainda China
a Nicósia ainda dividida ao meio
as ainda favelas, propositais
relevar e esquecer
achar que a guerra acabou em 45
que agora são só conflitos locais
que não se repetirá, temos internet
que nunca ocorrerá, que absurdo
ignorar a maldade humana
o ódio contra o deus deles
as roupas deles
a cor de pele, olhos, nariz, sexo
ou qualquer coisa que nos faça
pisando sobre a pilha de seus cadáveres ainda quentes
ficar um pouco mais perto do céu
olhar as imagens já coloridas das covas coletivas
da fome e desespero
e simplesmente não ver
usar a indiferença como arma
até que ela seja usada contra nós