(com Ana Terra e Clarisse Kloss)
Lá não tinha quase nada,
Tinha muita brincadeira de rua,
Pique pega, pique cola, pique
Esconde, queimado
E futebol.
Bebendo água
Da bica
Para nem entrar
E chegávamos em casa
De pé quente
No piso gelado.
Depois da escola
Sempre tinha alguma criança lá em casa
Porque as mães não podiam vir buscar.
Lá em casa tinha uma escala de banho:
Como todo mundo queria brincar
Ninguém queria ser o primeiro.
Meu pai sorteou:
Ana, Moacyr, Clarisse
E colou na porta do banheiro.
Resolveu.
O Moacyr
Quando começava a bater na gente
Era amarrado na cadeira
E deixado no escuro.
Quando o telefone tocava
Era uma luta
Para ver quem atendia:
Uma puxando o pé da outra,
Se arrastando.
Enquanto isso,
O telefone tocando.
O Fafá estava sempre
Com bolsos cheios de comida
Mas sempre dividia
Com todo mundo.
O Davi uma vez
Atravessando as quatro pistas
Da rua principal
Tropeçou
Mas como não ia conseguir se levantar
Continuou engatinhando.
O mesmo Davi
Em uma das várias vezes que apertamos as campainhas e saímos correndo
Uma lata caiu do seu bolso
E ele teve que voltar.
Jogávamos vôlei na casa da minha mãe
E fazíamos os códigos nas mãos que víamos na TV
- não os entendíamos, é óbvio -
Mas aqueles sinais
Faziam parte do jogo.
Éramos às vezes sádicos
Mas só com as lagartas da casa da minha avó:
Colocávamos no álcool, queimávamos,
Mas só lá.
Nós duas
Colocávamos um mesmo avental
Amarrado
E ficávamos correndo juntas
Para passar o tempo.
Quando abriu a sorveteria
Passávamos o domingo inteiro esperando a hora,
Depois da igreja,
De pedir com os olhos
E a Graça já sabia os sabores sem nem falarmos nada.
Nesses dias se juntavam nove
Crianças
Na casa da vovó Marinete:
Não era muito ordeiro.
Catávamos coquinho
De amendoeira,
Enchíamos sacolas,
E depois comíamos tudo.
Quando alguém tinha que ir no seu Zé ou no seu Horácio
- os dois comércios do outro lado da rua -
Nossa mãe pedia
Na verdade obrigava
A outro ficar sempre de olho
Pela varanda
E ninguém queria
Parar a brincadeira para isso.
Sulacap parecia uma cidade do interior:
Na praça da igreja
Um comércio, um açougue, uma papelaria, uma locadora,
Uma loja de ferragens, uma caixa de correio.
Além da praça
E da academia de polícia,
Tinha um cemitério
Verdinho
Ao lado de um morro verde.
O tédio que tínhamos sempre
Clarisse queria matá-lo subindo o morro
E todo mundo se entreolhava
Nao querendo acompanhar.
Sulacap
Não é um bairro antigo,
Terreno
Da SulAmérica Capitalizações,
Loteado
Recentemente
E as gerações se seguiam
Ainda lá
Uma depois da outra.
Sulacap para a gente
É isso,
A nostalgia de um lugarzinho seguro,
Aconchegante,
Onde toda nossa família estava,
Todo mundo se conhecia.
Hoje não a reconhecemos,
A nossas avós morreram,
Nosso pai não mora mais lá,
Mas Sulacap continua
Nas nossas lembranças.