domingo, 27 de agosto de 2017

Bolinha de Gude

(com Stefanie Pereyra Peralta)

O câncer:
Uma bolinha de gude
Autogerada
Aqui no seio esquerdo
Bem junto
Ao coração.

Eu que queria me sentir necessitada,
Queria ser mãe,
Cuidar amorosamente
Bem junto ao meu colo quente,
Agora triste descubro
Uma nova maternidade
Não do útero
Mas de uma bolinha de gude
Autogerada
Feita de células
Vorazes e imperdoáveis.

Os tratamentos
Sem fim,
Remédios
Sem fim,
Cansaço
Sem fim,
Só o cabelo
Tem fim.

Esse pedaço mutilado de mim
Que quer levar junto a si
O meu ser mulher.

Mas em meio à lama
Descubro
Algo novo,
Em meio às dúvidas
Da maternidade
De uma bolinha de gude irregular
Autogerada,
De repente pude
Ver
A oportunidade de me
Conhecer e ser mais.

Descobri
Algo novo
Que havia dormido
Com a morte da minha mãe.
Ela, que também morreu de câncer,
Quase levou
Meu desejo de viver.
Ela, também mãe de uma bolinha de gude,
Autogerada,
Minha irmã defeituosa,
Me deixou com um ano de dolo,
Um ano de dor,
Até aceitar a sua distância sem fim.

Passaram-se os anos
E de repente a notícia:
Era 2 de setembro de 2016,
Ao lado de Felipe.
Entrei sozinha no consultório
Com a esperança
De não ser nada.
O médico triste:
Seu rosto me disse tudo:
Nena, te dio mal.
Sí, tenés cáncer.

Silêncio, muito silêncio.

A partir disso, tudo mudou.
Tudo foi duríssimo,
Um vidro para o qual se corre
Sem se ver,
Um espelho sem ninguém
Do outro lado,
Cacos
Que rasgaram tudo
Dos pés à cabeça.

O tempo me trouxe
Da morte companhia calma,
Mas por ver a minha mãe,
Tinha medo da dor.

Pouco a pouco alguns focos de luz
Em meio aos óculos baços,
Pouco a pouco alguma nesga de céu
Em meio aos dias chuvosos:
Deixei as pessoas os pesos as correntes
Que me afastavam de mim
E busquei aqui dentro
O diploma de psicóloga,
Busquei aqui dentro
Mais fundo que qualquer agregado imperfeito,
A oportunidade de ajudar as pessoas
Nisso que passo.

O câncer é uma porcaria,
Não posso agradecê-lo,
Mas o que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Não só por mim
Mas por outros,
Outros pais e mães
De filhos autogerados,
O que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Ao lado de Felipe, meu anjo aqui na terra.

Assim, em meio às lágrimas e às dúvidas,
Compreendi que tudo o que fiz
Até hoje
Fiz para ter paz
No momento de partir.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Desejo

Quero aquecer minhas mãos em suas coxas
Morrer no cheiro de shampoo do seu cabelo
Tocar o seu corpo entre lençóis e suor
E dentes e línguas
E sentir o seu gozo
Brotando consistente
Do paraíso perdido
Que borbulha em seu baixo ventre
Ondulando entre gemidos
Até acontecer o impossível sorriso
Da entrega sólida
Entre os braços meus.

Sítio Alto da Alegria

(com Luciara Mota)

O valor da liberdade,
Do brincar com terra,
Dos sete irmãos,
Da argila passando entre os dedos.

Certo dia a descoberta:
Mãe, a terra não é suja.
A cor dela que é marrom.

Sem medo cadeado crueldade cobra animal,
Fazendo brinquedos
De galhos folhas frutas.

A minha uma boneca
Dançando em seu concerto
Enquanto a família observava
E eu tocava um piano imaginário de pedra.

Ser diferente
Em meio a um mundo diferente
Em meio aos sorrisos da Biliu
Em meio ao gnocchi da Biliu
Em meio às histórias do sítio
Tão verdades quanto lendas.

Gravei a frase
Que lembra a minha infância:
A liberdade é um vento em que tudo cabe.

Essa fase mágica
Como parte da minha história,
Como parte de um eu que está comigo aonde vou,
Como paredes coloniais descascando,
Como uma jabuticaba farta,
Como um bougainville em flor,
Como uma árvore sem nome que plantei e abraço,
Como um sonho vivo
Enquanto viva
Eu estiver.

Certa Noite

(com Luciara Mota)

O reflexo da luz
Na água
Certa noite me encontrou,
Certa noite me contou
Sobre o seu nome
Incomum,
Certa noite me disse
Sobre a busca do brilho
No outro,
Certa noite me trouxe
Um prisma
A espalhar a luz,
Certa noite me disse:
Eu vivo as histórias fundas todos os dias.

O reflexo da lua na água
Certa noite me disse,
Que a luz está mais funda
Do que nessa superfície,
Certa noite contou
Do dia em que descobriu
Que além de imagem era história,
Além da ilusão há um real,
Além do espelho há o sonho.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Meta

Breve intervalo entre dois silêncios,
Luz de vela em um quarto escuro,
Fôlego em meio ao mar bravio,
Trovão que acende o horizonte,
Terceiro pé do homem, concreta.

Espaço entre o eu e a coisa,
Possibilidade ínfima de troca,
Fundação sólida da Torre de Babel,
Fiel de balança nas mãos da Justiça,
Veneno e remédio, raiz, terra fecunda.

Dela somos servos e senhores,
Escravos e feitores, as dores
Do parto e a beleza do novo.

O ódio só continua vivo
Alimentando-se de si mesmo.
O amor resiste ao tempo e à morte.
A palavra é um instante de amor na língua.

Para o Vô Armando

(com Aline Figueiredo)

Aos domingos
Em Jacarepaguá
A ver
Os bois.

Através das grades
Fazíamos
Juntos
Mu
E sorríamos.

De madeira
E lençóis
As cabanas
No quintal.

Depois do almoço,
Histórias de chapeuzinho
Vermelho
Deitados
Em seu quarto
Na casa dos mananciais,
Na Avenida dos Mananciais.
Quem dormia
Era você
Enquanto eu
Pulava o seu ronco
E corria a brincar por aí.

Eu crescendo
À sombra do seu carinho.

Apenas mais velha
Vi os anos te mastigando
Até aquela prisão
Do seu corpo
Tremendo,
O caminhar
Comprometido,
A fala
Comprometida,
A memória
Comprometida,
A lógica
Abandonada.

A agonia
Da sua tentativa de expressão
Dentro desse escafandro
Vibrando incessantemente.

Levávamos fotos,
Histórias,
Em busca daquele pequeno sorriso
De quando víamos o boi
E fazíamos
Mu.

Foram mais de vinte anos nessa
Descida.
Ao final o sentimento duplo
De te querer perto
E te querer bem
Ainda que para sempre
Longe.

Agora
Apenas a lembrança
Dos seus bigodes cheios,
Do seu abraço protetor
E dessa herança
De um amor
E afeto
Incondicionais.

sábado, 12 de agosto de 2017

Gabriela

(com Ricardo, Marcelo e Andrea)

Nasceu fugida
Da ditadura
Em Tel Aviv
Aconteceu.

Em Berkley
As primeiras letras.

Aos cinco
Campinas.
Então
Araraquara,
São Paulo,
Até o Rio.

Gabriela
De tesouras
E beijos
De altos
E baixos
De amor
E ódio
Simultâneos.

De coração
Grande
O cuidado
Como afeto
Ao outro.

Esse afeto
Amoral
Impensado
De valores
Firmes
Inflexíveis
Talvez exagerado
Pelo outro.

Sua ligação
Intensa:
A oportunidade
De ver
A família
É alegria
A transbordar.

O prazer
De gente,
O encanto
Para um alguém
Novo,
Para um alguém
Outro.

A possibilidade
Da transição
Para um novo eu
Em um novo horizonte,
A paixão
Em um rio de sorrisos
Sem caminho do meio
É ela
Gabriela.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Onde está esse outro?

Neste caderno de pele
E suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Olho e penso
Onde estaria
Esse outro
Com um corpo
De suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Onde estaria
Esse outro
Vivo
Sob o rio de palavras que corre rápido
Onde estaria
Esse outro
Que me olha e pergunta
Onde estaria esse outro
Antes tão perto e distante
Ao alcance da tinta que jorra
Onde estaria esse outro
Nessa noite insone
Onde estaria o poema
E esse outro
Em qualquer outro lugar
Se não aqui?

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Catarse

(Com Ana Donato)

Em um final de tarde
Em uma cidade memórias
Em um espaço transporte
A catarse.

Dois grandes amores
Atravessaram o espaço da lembrança,
Atravessaram o espaço em trânsito
E olhando a paisagem urbana
Pela janela
Após ler poesias
No avião
A catarse.

O choque
A incredulidade
Das palavras nascentes
Tão íntimas
Tão sólidas
Tão concretas
Em meus olhos pálidos
E enfim
Agora tão públicas
Pois fui
Atravessada
Pelo poema.

Andando pela Rua

(com Livia Mund)

Estava eu
Na Costa
Rica:
Deitei
Na minha cama
Na casa
Do hotel.

Quando acordei
Sozinha
Só de calcinha
Preta
Desnorteada
Acordei
Em um país estranho
Acordei à frente
De um varal
Vi uma fronha
Usei de saia
Cobri os peitos
Acordei
Encontrei uma referência
E voltei para a casa
Do hotel.

Em um quarto
Vizinho
Gritava
'Yo necesito ropas'
Alguém me gritava
De volta
Até que na porta ao lado
Minhas amigas abriram a porta
E me confortaram.

Desde então
Todos trancavam
O quarto a casa
E se avisavam:
"A chave está
Naquele lugar que combinamos".

Já tomei banho,
Já andei por aí
E de repente
Os olhos abertos.
À distância
Tem graça,
Mas de perto
Pânico:
O que fizeram comigo?

domingo, 30 de julho de 2017

Outro enfim outro

A expressão
De um outro
Possível
Em minha frente,
Quase dúvida
Quase não
Mas enfim outro
A se desenrolar
E a brilhar na noite escura.

A expressão enfim clara
O possível enfim agora
O outro enfim outro.

Na parede quase branca

Na parede quase branca
Da igreja
A luz
Da noite
Do samba de coco.

A dança
O corpo
O gozo
Forte.

A dança
A dança
O corpo
Música.

A dança
A dança
A dança
O corpo.

A dança
A dança
A dança
A dança.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A pororoca poética

A pororoca poética
Está acontecendo
Em esquinas e praças e becos e ruelas
Em palavras e versos e rimas e gritos.

A pororoca poética
Está fluindo a contrapelo do mundo
No contrafluxo desse rio sem margem
Na contracorrente desse horizonte
Que nos dão como dado.

Está acontecendo
A porra
Da pororoca poética
Em leituras como essa
Em poemas como esse
Em leitores e ouvintes
Como esses
Que são vocês.

A pororoca poética,
Aaaaah
A pororoca poética
Está acontecendo
Agora.

Nesta rua de pedras

Nesta rua de pedras
Rio de olhos e gentes
E pernas e vento
E passos e toques,
Nesta rua de pedras
Rio de sons
Doces
E colares e passagens
E conversas e vento
Quanto vento!
Nesta rua de pedras
Rio de sonhos e chapéus
E cocares e brincos
E apitos e flautas,
Nesta rua de pedras
Rio de pulseiras e borboleta
E bolsas e cantos
E caminhares
Sem fim,
Nesta rua de pedras
Uma esquina de pedras
Com colunas de pedras
A lembrarem sólidas
Que ainda há mundo
Que ainda há rio
Que ainda há tanto
A se viver.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Muita coisa

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo olhos e cores
E rua e praça
E poema e zine
E sorriso e brilho
E início sem fim.

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo gritos de dor
Vejo gritos de gozo
Vejo a rua e o todo
Vejo o alto e o lodo.

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo rua! Vejo rua!
Vejo noite
Vejo gozo vejo gozo
Vejo escuro tão claro
Vejo horizonte tão grande.

domingo, 16 de julho de 2017

As plantas

(com Juliana Alvim)

Olhando as plantas
Da minha avó
Imaginava
Um outro eu
Diferente
Do que eu vejo agora.

Olhando as brigas
Da minha mãe
Eu via: sua dependência
Financeira
Era o seu algoz.

Minha independência
Afirmativa
Transforma
A sensibilidade ao outro
Em dureza.

Deitada na rede
Olhando o céu
E as plantas da minha avó
Eu sentia a terra
E via a vida
E as possibilidades.

Hoje
Quando penso
Nas plantas da minha avó
Penso passado,
Penso possibilidades
Se esgotando,
Penso poucas definições à frente,
Pois cheguei em algumas
E estou satisfeita.

sábado, 15 de julho de 2017

O espaço público

O espaço público,
A troca,
O outro,
A música,
O álcool
E a fumaça.

O espaço público,
A noite,
As luzes,
Os gritos,
Os sorrisos
E os olhos.

O espaço público,
Democrático,
Potencialmente multicultural,
A decadência apropriada,
A vontade de pertencer
O choque latente
Ainda desejo.

O espaço público,
A intenção do encontro,
O desejo de aproximação,
A paixão pelo encontro,
O encontro consigo
Mas ainda nem tanto
Coletiva.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Montanha

Em suas encostas íngremes
Me apoio,
De seus cumes altos
Vejo mais
Longe,
De suas matas
Respiro mais
Fundo,
Junto a você
Sou ainda
Mais
Eu.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O espaço da arte

Mar de árvores em meio ao carbono do mundo,
Nesga de sol em céu nublado,
Sopro doce em noites quentes,
Troca em meio à superfície dos dias.

Estou aqui a sorrir
A certeza do infinito
Presente em um pequeno instante
De um espaço sem nome.

Tapete de veludo em tempo frio,
Vela acesa em escuro sem luz,
Alegria funda em vida cinza,
Flauta transversa em bibliotecas vazias.

Estou aqui a sentir
O toque das musas
Dissolvendo qualquer certeza
Na beleza do sentido do absoluto.

Buscas

Buscava alguma certeza
Tão pedra que me permitisse
Fugir desse mar de dúvidas
Que nos cerca, mas encontrei
O olhar desse outro
Que me sorri,
Encontrei o abraço desse outro
Que quente abraça,
Encontrei a música desse outro
Que me ecoa e continua.

Buscava alguma solidez
Tão leve que me permitisse
Voar acima das nuvens
Mas ela é bota de ferro
Voluntariamente posta,
Gaiola aberta em que se escolhe ficar,
Fazenda marinha onde, por medo,
Se escolhe nadar.

Buscava algum norte
Para poder me perder
Sem temer nunca mais
Me encontrar,
Mas encontro esse outro
Sem nome que me indefine,
Sem rosto que me ilimita,
Sem nada além
De ser um outro
Tão outro
Que não cabe
Em qualquer palavra minha
E parei de buscar
Para me encontrar
Nesse outro
Que me apequena,
Me perspectiviza
E me agiganta.