terça-feira, 24 de abril de 2012

Escolhas

I

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Entrou no quarto e viu-a com outro homem.

Gritava impropérios, xingava o homem de todos os nomes. Os dois começaram a brigar, rolaram no chão. Estavam na sala, retratos quadros vasos caindo e se despedaçando. O homem sacou uma arma do paletó que estava na cadeira e deu-lhe dois tiros. O sangue escorria, molhando as rosas que o marido trouxera, seria uma surpresa. Morreu na hora.

II

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Entrou no quarto e viu-a com outro homem.

Não se deu o trabalho de abrir a boca. Depois de cinco minutos batendo no homem com o taco, deixou-o irreconhecível. Sentiu-se aliviado.

Sua esposa foi embora no mesmo dia. Uma semana depois, estava na portaria de seu prédio, indo para o trabalho. De repente parou em sua frente uma moto preta, dois homens. Foi tanta bala que o velório foi feito com caixão fechado.

III

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Pensou, sabia que um flagrante não adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação: Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.

O taco deixou em um local visível. Saiu sem fazer barulho.

Aquiles não percebeu o taco, a mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.

No mesmo dia, Odílio ligou para um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível de contornar.

Marcou aulas nos horários de almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.

Cada dia se aproximava mais de seu objetivo. Conquistaria a esposa de seu inimigo, assim como ele havia feito com a sua, e iria mostrar que o melhor para todos seria fingir que nada havia acontecido. Todos retornariam para seus lares satisfeitos.

Seu projeto ia de vento em popa. Não percebeu que sua mulher começou a desconfiar, batom na gola da camisa, perfume de mulher. Pediu para Aquiles providenciar alguém que o seguisse. E que surpresa não foi quando descobriram onde Odílio passava seus horários de almoço.

Sabia que era uma vingança justa, mas mesmo assim Aquiles foi cruel. Ligou para algumas pessoas, arranjou a demissão de Odílio. Deixou-o na penúria, sem emprego, sem mulher. De sobra, contratou algumas pessoas para lhe darem uma surra.

IV

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Pensou, sabia que um flagrante não adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação: Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.

O taco deixou em um local visível. Saiu sem fazer barulho.

Aquiles não percebeu o taco, a mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.

No mesmo dia, Odílio ligou para um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível de contornar.

Marcou aulas nos horários de almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.

Refletiu um instante, perguntou sobre a filha. Vinte e dois anos, fazia faculdade de música. Tocava flauta transversa. Alta, mãos delicadas. Não gostaria de estudar inglês? Pois sim, duas vezes na semana atendia a mãe, duas vezes atendia a filha.

Começou a se interessar por essa jovem mulher de um sorriso cativante. Sempre presente nas aulas, sempre trazia um novo tema. Ouvira Chopin, Rachmaninoff. Na pintura, gostava do modernismo. Baudelaire revolucionou a poesia, lera toda sua obra.

Que mãos delicadas. Longas, suaves. Pareciam dançar em cada movimento. Perdiam os contornos. Voz aveludada, um pouco rouca, levemente apenas. Lábios carnudos, um olhar penetrante.

Em menos de um mês esqueceu-se de Aquiles, esqueceu-se de sua esposa. Só pensava em suas aulas de inglês com aquela ninfa. A mãe se cansara, livrara-se do professor empurrando-o para a filha.

Odílio pediu o divórcio, não fazia mais sentido aquela relação. Engatou o namoro com sua flautista. Aquiles ficou furioso, mas acabou sendo convencido a aceitar. Feliz que estava, trabalhava com afinco. Foi promovido.

domingo, 22 de abril de 2012

Destino

Olhava o mar. O barulho das ondas o acalmava, o horizonte infinito o confortava. Aquele barulho se repetia: ondas quebrando na areia, o mar avançando, recuando, ondas quebrando, o mar avançando, recuando, ondas quebrando. Poucas nuvens no céu, um vento suave batia em seu rosto e trazia com ainda mais força aquele cheiro de maresia que já inebriou gerações.

Pensava em sua esposa. Haviam se conhecido há muitos anos. Vinte, talvez? Se lembrava da primeira vez que a viu, linda, doce, em um vestido verde que combinava com seus olhos. Lânguida. Estava em um grupo de mulheres, um amigo em comum, a ela foi apresentado, você está muito bonita, obrigada, o que você faz?, professora, sou contador, livros, filmes, cinema, você já leu freud?, literatura, poesia, muito interessante, tenho que ir, quer sair amanhã, sim, te busco as nove, combinado. Naquela noite não conseguiu dormir, passou-a em claro pensando naqueles lábios se mexendo tão perto dos seus, esquecia o que ela estava falando e só via os lábios se mexendo. Voltava rapidamente para o assunto para ela não perceber, mas a imagem dos lábios, boca, o nariz levemente arrebitado.

O mar. Azul, imenso. Se casaram dois anos depois. Foram felizes. Dois filhos. Marta era linda, alta como a mãe, olhos verdes como os da mãe. Fred era mais parecido com o pai, deveras introspectivo, um pouco isolado. Era epilético, tinha crises com frequência. Deivid teve uma certa repulsa no início, seu filho doente, nunca se tornaria independente, mas acabou aceitando-o. Os remédios ajudavam a controlar as crises. O pai acabou começando a tomar os seus também, era uma ajuda para os momentos difíceis.

Ondas quebrando. Duas crianças brincam na areia e constroem um castelo. Uma corre atrás da outra. Ondas. Risos. Barulho de ondas. Os remédios não estavam funcionando mais, não para Fred, que se mantinha relativamente bem, mas para o pai. Sua esposa revelou que lhe traia há alguns anos e que queria o divórcio. Iria levar Marta, a filha já havia concordado. Disse que o encantamento simplesmente passou, queria buscar alguma coisa nova. Tantas noites esperando o marido que ficava até tarde na firma. Não entendia a razão, essa mesma firma que agora estava reduzindo custos, se manter competitiva, o custo com pessoal está muito alto, não podemos garantir seu emprego, aceito ganhar menos, não é isso, o que é então, a firma é um organismo vivo e precisa seguir em frente.

Gaivotas voavam, grasnavam. A típica formação em V, elas se alternavam na ponta para todas poderem voar mais. O mar. O que ele havia feito de errado? Não dera carinho suficiente para sua família? Não pensara neles a todo instante, se poupando de roupas novas e restaurantes caros para poder levá-los em viagem? Por que isso acontecia justamente com ele? ‘Eu que sou um homem bom, honesto!’ Não entendia.



Oto se preparava para sua caminhada matinal. Adorava a praia, e por isso havia escolhido morar em Ipanema. Cinco minutos caminhando e chegava à praia, com todo seu movimento, seus banhistas, os vendedores, barraquinhas. Colocou seu chinelo de dedo, uma bermuda, uma camiseta e o dinheiro da água de coco. Só isso. E saiu, seu amigo estava lhe esperando na portaria. Era uma quarta-feira bonita, céu azul, sem nenhuma nuvem.

Adorava esses passeios, pelo menos quatro vezes por semana caminhava pela orla. Às vezes ia até o Posto 12, se sentava, ficava admirando o Leblon e Ipanema. Outras vezes ia até o Arpoador e via com espanto a quantidade de casas no Morro Dois Irmãos. Sempre estava com alguma companhia. Às vezes sua mulher, outras algum amigo que morava próximo. Conhecia muita gente ali na Vinícius, à noite se sentava em um bar e jogava conversa fora.

Tinha uma vida amena, gostosa até. Confortável. Seus pais haviam lhe deixado uma boa herança, além daquele bonito apartamento. Não tinha motivos para se preocupar. Casado há pouco tempo, vivia feliz.



Ondas. O barulho. “Oi, você vai ter que ir no hospital, o Fred teve uma nova crise, a enfermeira me ligou, eu não vou poder ir lá.” Ele se levantou, estava cansado. Por que ele? Não aguentava mais aquele peso em seus ombros, aquela rotina, era um domingo, não era o dia do descanso? Afinal Deus também não descansou? Por que ele não poderia descansar, só um pouco? Sabia o que iria se seguir, noites em claro no hospital, dias intermináveis na firma, usava o horário de almoço para pelo menos dormir meia hora, grandes copos de café, a gastrite voltava a atacar, mais remédios. Tantas vezes já havia passado por isso, já era automático, conhecia os médicos pelos nomes, tudo bem com o garoto André?, tudo bem foi só mais um susto, pode deixar, eu fico com ele aqui, você quer alguma coisa, não obrigado.

Não seria egoísmo ele pensar em se matar? Justamente quando seu filho precisava dele? Mas ninguém via que ele também precisava de ajuda? Sua esposa não via, ou não queria ver, ou pelo menos não parecia ver. Ela que ultimamente andava com aquele sorriso no rosto, um sorriso cínico, um sorriso de quem já não está mais presente e despreza tudo aquilo. Se ele morresse pelo menos ela cuidaria de Fred, teria que cuidar, não teria como fugir.

Foi trabalhar no dia seguinte, mais uma noite em claro. A barba mal feita, roupa amassada. Foi chamado na sala do chefe, a firma não poderia tolerar este comportamento, você sabe que precisamos demitir funcionários para continuarmos competitivos, pensamos em lhe dar um tempo para conseguir outra coisa mas se comportando desse jeito você será um dos próximos. Saiu, voltou ao trabalho, ficou até tarde, e então foi ao hospital ficar com seu filho.

Não aguentava mais aquela situação, precisava dar um jeito. A mãe cuidaria dos filhos, teria que. E ainda receberia uma pensão, pequena, mas era alguma coisa. Os filhos teriam um novo pai, parecia que ele tinha dinheiro, as coisas se resolveriam. Teria que vender o carro da família, custos do enterro, também sem o emprego não daria mais para pagar as prestações.

Mas que se foda. Quero que essa porra toda exploda, vá para a puta que o pariu. Tô cansado dessa merda. Só o Fred melhorar dessa crise que eu dou um fim nessa vida de merda. Pulo de uma ponte, um tiro na cabeça, sei lá, algo garantido, não quero virar uma bosta de um vegetal. Foda-se a firma, foda-se minha esposa. Filha da puta. Ela que cuide dos filhos agora, vadia. Achava que era só colocar os filhos no mundo, bem sim. Vai aprender uma coisa.



Alô?, sou eu, fala Cabeça!, um vôlei, bora, que horas tá marcado?, beleza, em meia hora no nove?, fechado, abraços Cabeça.

Estava passando o protetor solar, àquela hora o sol era muito forte. Não queria ter um problema na pele, afinal seriam tantos anos ainda na praia, tinha que se cuidar. Roupa leve, clara, chinelo de dedo. Enquanto isso pensava: ok, ele decidiu se matar, agora qual é o melhor jeito? Ponte Rio-Niterói? Chavão. UERJ? Muito longe. Tiro na cabeça? Mas onde? Em casa, no banheiro? E os filhos? Deixou isso de lado, foi jogar vôlei.

À noite no bar levantou o assunto com os amigos, surgiram as mais disparatadas sugestões. ‘Pular do prédio da firma’. Forte impacto emocional, mas não condiz muito com ele. ‘Saltar no trilho do metrô’. Ele não quer chamar a atenção do mundo, só da esposa. ‘Se matar na frente dela’. Não é tão má opção, mas ele não quer prejudicar os filhos. ‘Porra Oto, sei lá então, ele não gosta do mar? Bota ele vendo o mar e dando um tiro na cabeça’.



Fred já havia se recuperado da crise, continuava tomando todos seus remédios. A esposa e a filha se preparavam para a mudança. Cada dia novas malas apareciam, eram preenchidas, e simplesmente sumiam do apartamento. Ele via essas cenas alheio a tudo isso, distante. Seus pais já haviam falecido, não tinha irmãos, então era mais fácil. Apenas quatro cartas, uma para cada um de seus filhos, dizendo que os amava incondicionalmente, uma para sua esposa, cheia de raiva e desprezo, uma para um amigo mais próximo, dizendo que ele tinha chegado ao seu limite.

Comprou uma arma, não era tão difícil conseguir uma naquela região onde morava. Escolheu o dia, saiu na noite anterior, foi a um bom restaurante. Tantas vezes teve vontade de comer lá, mas sempre pensava em sua família, as prestações do carro, o aluguel. Pediu carne e massa, um vinho importado. Demorou. Comia aos poucos. Seria sua última refeição. Cada mordida era uma onda de prazer e alívio. Limpava a boca. Um gole de vinho. Descia suave. Mais uma mordida. O prato terminou, o último gole, pagou a conta, foi feliz.

Acordou cedo no dia seguinte, pegou o ônibus às quatro da manhã, ponto final General Osório. Andou por aquelas ruas ainda escuras, não era nem cinco e meia, Teixeira de Melo, Vieira Souto, Francisco Bhering, Pedra do Arpoador. Via o mar, toda a praia de Ipanema e do Leblon. Morro dois Irmãos. O céu que clareava aos poucos. O metal frio que estava pendurado em sua cintura lhe trazia arrepios e uma certeza fria.

O barulho das ondas. Não havia crianças naquela hora, não havia ninguém. As luzes dos apartamentos começavam a se acender aos poucos, o sol ainda não aparecera. De azul o céu ganhava uma cor rosácea. Ondas quebrando na areia branca que parecia um leito sublime para se deitar e sentir o mundo tomar conta. Decidiu que iria tomar um banho de mar, o seu último.

Desceu da pedra, tirou sua roupa e entrou no mar. Nu, como veio ao mundo, como quando estava sozinho em casa, como amara tantas vezes sua esposa para a qual sentia hoje tanto desgosto. Um sentimento de compaixão com o mundo tomou conta de si, um sentimento bom por se entregar a algo maior que ele. Viu o sol que começava a despontar no horizonte, era a hora.

Voltou para a areia, viu as marcas que seu pé deixava. Colocou sua roupa de novo que agora colava em seu corpo. A arma estava dentro de seu tênis, não queria que ela emperrasse no momento crucial por estar molhada ou cheia de areia. O sol subia rápido no horizonte, pegou a arma em sua mão. Destravou o gatilho. Quando todo ele aparecesse redondo no céu seria o momento.

Ondas quebravam na areia, lágrimas brotavam em seu rosto. Não sabia se existiria céu ou inferno, e para onde ele iria se isso existisse. Pedia desculpas pelo que iria fazer, havia tentado todo o possível. Pedia desculpas para seus filhos, esperava que eles tivessem uma lembrança boa do pai que fora. Não queria ser lembrado como covarde, tentou mostrar-se forte em suas cartas para eles.

Por que tanta injustiça? Não teria direito à felicidade aquele que buscava sempre agir corretamente? Por que eram felizes pessoas que haviam feito tão pouco e justamente ele, que tanto se esforçara, merecia aquilo? A traição de sua mulher foi uma faca em seu coração. Cada vez que dela ele se lembrava era como se estivesse girando a faca, mais e mais, a dor apenas aumentava.

O sol já estava quase todo acima do horizonte, as ondas quebravam na areia, o dia clareava. Lágrimas escorriam de seu rosto e então ele entendeu o porquê de tanta injustiça. Tomou uma decisão. Quando o sol apareceu todo, majestoso, rubro, ele já estava completamente vestido, arma no bolso, correndo. Francisco Bhering, Vieira Souto. Cada quadra que ele ultrapassava a decisão se estabelecia mais forte dentro de si. Passou a Gomes Carneiro, Teixeira de Melo. Era isso, sabia que agora era a coisa certa a se fazer. Farme de Amoedo, entrou na Vinícius de Moraes.

Atravessou a Prudente de Moraes, era o terceiro prédio à esquerda. O porteiro lhe saudou, não o via há algum tempo. ”Quer que eu interfone para o Dr. Oto?”. “Não precisa, ele está me esperando”, respondeu. Tomou o elevador de serviço, ainda estava um pouco molhado. Apertou o sexto andar. Seu peito arfava, correra várias quadras sem parar. Segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto. As portas do elevador se abriram, ele tomou a direita, correndo ainda, para a última porta do corredor. Reconhecera a porta, ao invés de tocar a campainha empurrou-a com seu pé, com toda força. A porta cedeu sem muito esforço. Foi para o escritório, sabia que ele estaria lá. Encontrou Oto sentado, escrevendo no computador. Assim que ele se levantou deu-lhe dois tiros na cabeça e um no coração. A xícara de café que estava na mesa do computador, ainda fumegante, tomou-a de um gole só.

Em Copacabana

“Vou anotar isso para colocar na minha história”. Era assim que Marcos vivia, sempre com bloco e caneta ao alcance das mãos, tentando capturar toda e qualquer experiência do mundo e colocá-la em seus textos. Escrevia de tudo, romances, contos, poesias, biografias. Estava sempre olhando o mundo em busca de novos sinais, novos elementos com o qual constantemente se deparava. E naqueles instantes nos quais o tempo para e tudo parece fazer sentido, quando o não formulado se formula de repente, ele tirava bloco e caneta do bolso e começava a anotar, em um frenesi que só parava quando ele achasse que conseguiu colocar no papel tudo o que passava pela sua cabeça. Depois, quando relia essas palavras, normalmente tirava um sentido geral da coisa, mas a sensação de pura formulação ficara em algum outro lugar.

Nesse dia estava tomando cerveja com os amigos no Bip Bip, um bar em Copacabana, quando viu um florista vendendo rosas de mesa em mesa para casais que nem sequer olhavam para ele. Era o florista mais triste que já havia visto, carregava nos ombros o peso do mundo e nas mãos a possibilidade de um prato de comida no dia seguinte. Não dera sorte, naquele bar não lhe compraram nenhuma, e o florista se dirigiu a outro bar para outros casais que também lhe diriam não sem nem olhar em seus olhos.

Marcos percebeu que era exatamente esse caráter de resignação trágica que queria colocar em seu personagem. O peso do mundo o esmagaria e ele aceitaria isso sem reclamar. Precisaria haver alguma morte, isto está claro, para atrair a atenção do leitor, mas por enquanto ainda estava trabalhando na caracterização do seu personagem.



Casado, dois filhos. Auxiliar de escritório, trabalhava em uma empresa no centro da cidade. Dava beijos em seus filhos e em sua mulher, que ainda dormiam, descia a Saint Roman todo dia, bem cedo, e tomava um ônibus para o centro. Ombros caídos, olhar distante. Fazia contas na cabeça e sempre estava preocupado se iria conseguir pagar as contas naquele mês. Eram tantas prestações, ficava difícil conciliar tudo. Voltava sempre bem tarde, nem sempre conseguia ver seus filhos acordados. Nos finais de semana gostava de tomar cerveja. Ia ao Bip Bip, mas como a cerveja lá é cara, só ficava ouvindo as rodas de bossa nova e samba.



Depois continuaria com seu personagem. Seus amigos já estavam reclamando, Marcos que sempre fazia isso e às vezes ficava horas escrevendo em seu bloco sem nem prestar atenção a quem estava na mesa com ele. Levantou-se e foi pegar mais uma cerveja, a sua já tinha acabado há algum tempo.

Mas qual seria o fio narrativo? Sua esposa poderia traí-lo... Não, muito padrão. Morte dos filhos? Também não... Não é tragédia que Marcos queria em sua história, é resignação. Ser demitido? Não seria uma má ideia, mas como desdobrar esse acontecimento?

Dia seguinte, assim que acordou, noite ainda, Marcos se sentou na frente do computador e começou a escrever um conto. Descreveu seu personagem. Ele ia começar mais um dia de trabalho.



Acordava bem cedo, como sempre fazia. Não poderia pensar em chegar atrasado, aquele emprego era a única possibilidade de dar uma condição um pouco mais digna para seus filhos. Eram dois, Michele, de 4 anos, e Antônio, de 6. Dormiam ainda, assim como sua esposa. Deu a cada um seu merecido beijo na testa e saiu para mais um dia de trabalho. Estava trancando o portão da casa quando ouviu um tiro.



Marcos também ouviu o tiro, se assustou. Sabia que precisava se mudar, seu apartamento era de frente para a favela. Mas o preço dos alugueis estava tão alto, só conseguia morar ainda em Copacabana pois o seu apartamento lhe havia sido alugado por uma amiga de sua falecida mãe que não cobrava muito por um misto de pena e compaixão.

Ficou inquieto, não conseguiu continuar sua história. Ficava com medo, e se alguma coisa acontecesse com ele? O fim, e depois? Cessar de existir, não se manteria em seus livros pois nenhum havia sido publicado. Não se manteria em seus filhos, não tinha nenhum. Nem esposa, tampouco. Por alguns anos seus amigos ainda se lembrariam de Marcos, aquele escritor fracassado que estava sempre tentando criar a última novidade em literatura. Mas e depois?

Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Tomou um copo de leite, torradas com manteiga. Pensava na vida, será que algum dia iria se casar? Fazer a diferença para alguém, dividir o estar no mundo, olhar para frente e ver o mesmo horizonte. Esses pensamentos o deixavam um pouco triste, voltou para seu computador e continuou a escrever.



Estava acostumado ao barulho de tiros. O governo dizia que iria ter mais segurança, mais policiais, mas ainda não havia percebido nenhuma diferença. Desceu a Saint Roman e esperava na Av. N.S.ra de Copacabana para atravessar. Iria tomar seu ônibus para mais um dia de trabalho. O sinal fechou, ele ia atravessar a rua mas viu que um carro não iria parar. O homem ao seu lado não viu o carro, e atravessou. Barulho de freio, impacto. A gabardina bege do homem ficou toda ensanguentada. O saco de compras que carregava voou bem longe.



Marcos estava com fome, só havia duas fatias de pão em sua casa. Era um dia chuvoso, colocou a gabardina e desceu para a padaria. Comprou pão francês, manteiga e leite, itens que não poderiam faltar em sua dispensa. Deixara seu personagem esperando, precisava voltar e continuar a história. Parou na faixa de pedestres, esperaria o sinal fechar para atravessar a avenida. Olhou para sua esquerda e viu um homem simples, roupa gasta, uma expressão tranquila no rosto. Típico trabalhador, provavelmente sua família ainda dormia enquanto ele tentava ganhar o seu sustento.

O sinal de carros fechou. Marcos colocou o primeiro pé na rua. Respirou fundo. Entendeu, não era o momento. Olhou para a direita e viu um carro que ultrapassou o sinal vermelho. Para que a pressa? De nada adiantava, logo em seguida o carro teve que parar no próximo semáforo.

O Grande Baile

Maria estava linda. Todos no baile olhavam para ela. Sua maquiagem delicada marcava seu rosto e alongava seus olhos. O vestido azul lhe dava um porte que não pensara algum dia ter. As mulheres que passavam por ela suspiravam de inveja, os homens suspiravam por imaginar o que estaria atrás daquela roupa.

Seu rosto era só contentamento, um sorriso amplo e complacente, um olhar conciliador. Mãos leves que dançavam ao sabor do vento. Movimentos suaves que lhe traziam uma graça incomparável. Cumprimentava a todos com um leve movimento de cabeça, e todos a cumprimentavam.

Ela se dirigia ao balcão das bebidas, não sem atrair a atenção por onde passava. Tomou nas mãos uma taça de champanhe e nela dava leves bebericadas. As bolhas faziam seu nariz coçar. Estava feliz, olhava o mundo e se sentia parte dele.

Nesse momento viu um homem alto, sério, andar em sua direção. Sentiu suas pernas tremerem. Ele ajeitou a gravata e cada passo que dava

Ouviu o trinco da porta se abrindo, a hóspede estava voltando mais cedo. Maria rapidamente devolveu ao guarda roupas o vestido azul que costumava colocar à sua frente enquanto se olhava no espelho. Rapidamente, antes que a hóspede percebesse.

- Desculpe minha senhora, já estou de saída – disse Maria.

O baile continuará amanhã, nesse mesmo horário.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Escritório

João tinha um sonho: trabalhar em uma multinacional. Desde criança ouvia seus pais lhe dizendo os benefícios que elas traziam, todas as possibilidades que se abriam quando se trabalhava em uma. Seus pais eram engenheiros, os dois eram funcionários de empresas desse tipo. Seu pai, engenheiro químico, trabalhava no setor farmacêutico, e sua mãe, engenheira mecânica, no setor financeiro. Sempre viajavam a serviço, ficavam até tarde em seus escritórios, respondiam chamadas telefônicas que duravam horas mesmo nos fins de semana, mas com isso conseguiam dar muito conforto a João e sua irmã, Josefa. Moravam todos em um belo apartamento de frente para a praia, na Rua Delfim Moreira. Tinham dois carros importados e já planejavam comprar mais um para dar de presente a João em seu próximo aniversário. As viagens internacionais eram constantes, antes dos 18 anos seus filhos já conheciam cinco continentes.

Acostumado a essa vida de luxos, João não podia senão buscar esse padrão. Estudou direito na universidade mais conceituada do Rio de Janeiro e desde cedo focou sua formação para o setor privado. Ele buscava esse frisson, essa possibilidade de construir alguma coisa nova, de estar sempre envolvido com algo. Em sua família todos o apoiavam, menos seu avô materno.

André era um homem calmo, paciente, que morou sua vida toda no interior. Teve três filhas, Joaquina, Joana e Janaína. Cada uma seguiu um caminho diferente. Joaquina assim que terminou o segundo grau foi morar no Rio de Janeiro com um tio-avô. Fez engenharia mecânica, se casou e teve dois filhos: João e Josefa. Já Joana, assim como seu pai, era muito criativa e gostava das artes. Foi para a cidade grande só para fazer o curso de artes plásticas. Assim que se formou, abriu um ateliê ao lado da casa do pai, que o ajudava com seus projetos. Janaína era ainda mais ligada à vida do interior. No colégio, já fez a formação para professora, e dava aulas para alunos dos 4ª e 5ª anos. Até se casarem, Joana e Janaína moravam com seu pai - sua mãe morrera muito cedo e por isso elas ficaram muito apegadas a ele. Mas mesmo após se casarem, as duas passaram a morar a menos de cinco quilômetros de distância e continuaram visitando seu pai com frequência.

Joaquina não procurava manter firmes seus laços paternais. Via em André uma pessoa atrasada, com uma visão de mundo muito restrita. Não entendia como ele conseguia passar seus dias naquilo que ela chamava de uma ‘mesmice morna’. Ficar vendo a água do rio passar, olhar as estrelas, tocar violão ao redor da fogueira, toda essa vida não fazia sentido para ela. Mesmo assim, isso não impediu que seu filho fosse muito apegado a ele. Apesar de raramente se verem, João e André gostavam muito da companhia um do outro. Faziam todo tipo de brincadeiras, conversavam horas a fio. João gostava muito de ouvir as histórias de seu avô de tempos imemoriáveis, aventuras incríveis, uma grande família morando sem nada do que ele estava acostumado – televisão, computador, eletricidade. Era uma outra vida que causava ao mesmo tempo estranhamento e admiração em João.

Sempre que podia, André tentava afastar seu neto do tipo de vida que sua filha seguiu. Olhava bem dentro dos olhos verdes do neto, uma cópia de seus próprios, e dizia:

- Vá trabalhar com alguma coisa que lhe dê bastante tempo livre, algo que lhe permita usar a criatividade! Não fique enfurnado em um escritório enquanto a vida passa do lado de fora. Não desperdice a sua melhor época para não se arrepender depois!

A isso João sempre respondia com uma frase curta como “Talvez, vou pensar vô” ou “Quem sabe”. Ele sempre pensava em como seus pais haviam conquistado aquele apartamento, aqueles carros, como o trabalho deles permitia a eles irem a festas, viajarem. Era um modo de vida que trazia uma marca muito forte.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, nos diz o ditado. João não parecia nem considerar realmente esse tipo de pensamento, nem seu avô achava que isso fosse dar algum resultado, mas isso acabou sendo muito importante para ele. Veremos.



João se formou aos 24 anos e pouco mais de um mês após receber o título da UERJ, conseguiu uma vaga como trainee da Fuelflex, uma multinacional do setor do petróleo. Ele se achava a pessoa mais feliz do mundo naquele momento, um futuro promissor despontava, o tapete vermelho estava debaixo de seus pés. Já havia trabalhado em escritórios de advocacia, tribunais e outras firmas, mas nunca em uma multinacional. João estava em júbilo.

Foram seis meses de treinamento. Tudo era motivo para festa, ele e seus mais de vinte colegas de trabalho haviam acabado de conseguir aquele emprego. Estudavam durante o dia e saíam para comemorar à noite. Por mais de três meses essa foi a rotina de quase todos os trainees recém-contratados. Aos poucos a alegria inicial foi dando espaço a um sentimento de seriedade e compromisso, a absorção de uma aura que reinava na empresa.

Cada dia ele era apresentado a novas informações, novos dados, a etiqueta da empresa, o código de conduta, as interpretações dos códigos, os principais processos em andamento, todo tipo de informações que de alguma forma poderiam ser úteis a um advogado da Fuelflex. Um advogado sênior e uma advogada associada eram os responsáveis pelo curso em seu primeiro módulo, que durou três meses. Os meses seguintes eram destinados a palestras e apresentações dos advogados de diversos setores da empresa.

Animado com a possibilidade de assistir a essas palestras, no início do segundo módulo João sentava na primeira fileira. Anotava tudo que era falado, cada palavra, cada vírgula. Mas já na primeira semana ele percebeu algo de estranho.

- Você não acha que esse advogado é muito parecido com o que fez a palestra ontem, que também é muito parecido com o que fez a palestra anteontem? – perguntava João a seus colegas mais próximos.

- Você está viajando! – era a resposta mais delicada dentre as que ele ouvia.

A princípio achou que deveria ser alguma coisa da sua cabeça, afinal estava dormindo muito pouco naqueles dias. Mas com o passar das semanas aquela dúvida abriu espaço para uma certeza de aço – aquelas pessoas eram iguais. Por mais que um ou outro tivesse uma gravata mais colorida, ou um corte de cabelo um pouco diferente, os olhos eram todos negros com a mesma frieza, os narizes finos e altivos, o semissorriso escondendo um ar de histeria. Alguma coisa estava errada naquela empresa, e ele iria descobrir.

Essa certeza da qual ninguém compartilhava acabou levando-o a se isolar cada vez mais. Achava estranho como seus colegas não conseguiam ver o que lhe parecia óbvio, como poderia haver tantas pessoas iguais, afinal gêmeos em geral são dois, algumas vezes um pouco mais, mas nunca em uma quantidade tão grande como aqueles que lhe apareciam. Não perdia a esperança de conseguir provar a eles que aquela empresa escondia alguma coisa de muito importante, algum segredo que não podia ser revelado. E assim foi até o final dos seis meses de curso.

Seria o primeiro dia de trabalho, tão esperado. Mas aquela felicidade inicial fora substituída por uma dúvida que lhe corroía, uma necessidade de resolver um tão grande mistério que nunca havia imaginado a possibilidade de realmente existir. Mesmo assim, essa mesma empresa que lhe gerava incômodo pagava seu salário, permitia um futuro promissor, trazia grandes possibilidades. João começou a duvidar se, quando descobrisse o enigma, revelaria a todos. Depois de muito refletir tomou a decisão de que isso iria depender da solução do enigma, de como isso poderia impactar a sociedade como um todo, até que ponto seria ético ou não, ilegal ou não. E assim ele cortou o cabelo, se barbeou, colocou seu melhor terno e foi trabalhar.

O centro do Rio estava um calor infernal. Era uma manhã de verão e às 8:00 os termômetros marcavam 30ºC, e subindo. Só no caminho entre o estacionamento da catedral e a Fuelflex qualquer um já começava a suar. Para não dar uma má impressão justo no primeiro dia, assim que chegou na empresa João foi no banheiro para se ajeitar. Quando foi girar a torneira olhou para o espelho e se viu entrando no banheiro, como se fosse um filme. Igualzinho, idêntico. Seu outro eu passou por João, foi o mictório que estava atrás dele, fez suas necessidades e se dirigiu às pias para lavar a mão. Por todo esse tempo João ficou parado, estático, não acreditando no que estava vendo. E como se isso não fosse suficiente, seu outro eu lhe disse, enquanto lavava as mãos, olhando pelo espelho:

- Bom dia João.

- Bom dia, gaguejou João em resposta.

- Está tudo bem? Você está branco.

- Tudo, tudo bem, novamente gaguejando em um som quase inaudível.

- Não fique tão nervoso. É só nosso primeiro dia. Por mais que tenhamos feito seis meses de treinamento, eles sabem que eu, você e os outros vinte e poucos trainees ainda estamos começando. Vai dar tudo certo.

João olhou para a direita e viu seu outro eu que lhe sorria, secando as mãos e saindo do banheiro em seguida. O que significava aquilo? Quem era ele? João encheu suas mãos de água e molhou o rosto. Era o melhor que ele poderia fazer naquele momento. Pegou algumas toalhas de papel e se secou. No justo momento em que secou seu rosto, olhou para seu reflexo no espelho e viu que seus olhos estavam negros.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Visões

O seu olhar de infinito me cativou desde o primeiro momento. Vi em seus olhos uma certeza incomum, como uma decisão tomada em um tempo anterior a nós mesmos. Eles se encaixavam perfeitamente na moldura do seu rosto, alvo, suave, forte, como você mesma. Apenas te observando uns poucos minutos já se podia perceber toda Magali, completa, inteira, com seus caminhos e atalhos expostos em um grande mapa no meio de um parque de diversões com todos passando e comentando vamos para lá, não melhor por aqui, olha, você viu isso, onde estamos, onde é a saída. Você era transparente, um par de janelas abertas em uma tarde de verão. Você está aqui me falava o seu sorriso que respondia à menor palavra que eu dizia, ao menor toque que eu te dava. Eu conseguia saber onde estava, o seu mapa apontava para o meu e assim sua presença era um presente, um farol em noite chuvosa, um alívio que me afastava da presença de mim mesmo, do odioso conflito de existir, pois com você encontrava a paz.
A sua paciência sempre me fez admirá-la, seus gestos contidos, contínuos, te ver por horas e horas lendo sem descansar. Quando costuravas em movimentos demorados sabia que na verdade suas agulhas tomavam fôlego para capturar o mundo e envolve-lo em desenhos trançados feitos apenas por esporte. O mundo cabia em suas mãos e você o moldava como queria, com a complacência de uma mãe que vê seu filho dando os primeiros passos e se alegra, pois sabe que muitas pegadas ele ainda há de deixar. Pegadas que você não deixava, passando flutuante por onde andava, leve como seu corpo magro e alto, leve como seus dedos que acariciavam a vida, leve como o perfume de sua pele que eu guardava na memória de tempos felizes fazem o todo ter algum sentido. Quando cheirava seu cabelo cor de trigo, cor dos lindos campos que vi no cinema, cor do sol quando beija o mar em uma tarde de verão, morria, e não precisava de mais nada. Os seus lábios pressionavam os meus pedindo socorro e eu me agarrava a esse pedido como o mais secreto tesouro enterrado em uma ilha distante, e eu sentia que os fados estavam a nosso favor, e eu te dizia sim sem nem saber se eu mesmo conseguiria me salvar, e eu mergulhava em você com a certeza de que estávamos flutuando em um céu de algodão e que nada nem ninguém nos faria voltar, descer a uma realidade que de tão distante nem parecia aquela na qual tanto tempo vivi, se é que vivi, se é que vivo.
Não ter você por perto tira todo o meu chão, esse escrever em bolinhas, o absurdo de te mandar cartas em bolinhas, poesia em bolinhas, contos em bolinhas, filosofia em bolinhas, esse texto em bolinhas. Eu respiro Magali, vivo Magali, busco você em cada rua, em cada rosto, e você nunca está. Fico chorando como uma criança que se lhe roubaram o pirulito mas sei que é tudo incoerente, não existe pirulito, não existe criança, não existe roubo, só existe essa sensação disforme. Queria que você me visse, só um instante, mesmo efêmero, não com as suas mãos como você sempre faz para me dar as boas vindas, mas inteiro, de uma vez, e assim você entenderia, perceberia que eu só sou em função de você, que o meu corpo é um sistema que não funciona sem você, Magali, você ao mesmo tempo motor e combustível dele, que os meus olhos são nossos olhos e isso basta.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

No Céu


Joãozinho gostava muito de olhar para o céu. Via muitas estrelas, com muitos desenhos.
Era um menino obediente e por isso seu pai sempre que podia levava Joãozinho para passear à noite.
Muitas vezes os dois deitavam na grama e ficavam olhando para o céu. Seu pai falava de muitas constelações e mostrava seus desenhos divertidos.
Uma vez seu pai lhe disse que muitas estrelas que vemos já haviam desaparecido e nós olhamos apenas para o seu brilho final. Joãozinho ficou surpreso, pensando em como uma estrela poderia desaparecer.
Joãozinho também gostava das nuvens e suas formas diferentes.
Sua mãe passeava com ele e subia até uma montanha bem alta, onde algumas vezes as nuvens estavam tão baixas que se não se via nada em volta.
Sem deixar sua mãe ver, um dia Joãozinho correu até o topo da montanha e ficou no meio das nuvens.
Joãozinho estava sem fôlego por ter subido a montanha correndo. Ele não percebia, mas cada vez que respirava engolia um pouco de nuvem.
Joãozinho engoliu tanta nuvem que ficou muito leve. De tão leve que estava, Joãozinho saiu voando.
Joãozinho voou mais alto que as nuvens. Viu as estrelas, a lua e o sol.
Aos poucos, Joãozinho foi voando mais baixo até que voltou para a montanha. Correu para sua mãe que estava muito preocupada.
– Onde você se meteu? Eu te procurei por toda a parte! – disse sua mãe nervosa.
– Eu voei bem alto e fui ver as estrelas, a lua e o sol, respondeu Joãozinho.
– Quanta imaginação tem essas crianças! Vamos para casa, você tem que tomar banho – disse sua mãe, que nunca entendeu o que aconteceu naquele dia com Joãozinho.

Repartição – Introdução


É uma árdua tarefa explicar o funcionamento de uma repartição. É um conjunto de engrenagens dos mais diversos tamanhos que se movimentam em harmonioso funcionamento. A menor alteração pode prejudicar o sistema de uma forma imprevisível e às vezes irremediável.
Francis Huber, matemático e estatístico francês, por exemplo, fez o seguinte experimento em uma empresa pública na França: sem avisar aos funcionários, durante um mês inteiro substituiu o pó de café utilizado por pó de café descafeinado, voltando ao pó de café tradicional no mês seguinte. Os números impressionam: retirados os efeitos de sazonalidade, no mês do café descafeinado, o total de vendas caiu 20%, a quantidade de reclamações dos consumidores aumentou em 15% e o lucro foi reduzido em incríveis 32%. Isso demonstra como uma organização com milhares de funcionários pode depender de um pequeno fator aparentemente trivial.
Os exemplos seriam muitos, não vamos nos estender para não tomar mais tempo do leitor. Entendemos que a melhor forma para o leitor compreender o espírito de uma repartição é contando histórias e assim este livro está repleto delas. Algumas histórias aconteceram aqui mesmo, outras poderiam ter acontecido. Cada uma traz um olhar diferente, particular, que busca a imersão em um mundo muito próprio com suas questões, visões e sonhos.
E o mais importante, não se esqueçam: caso se perderem, perguntem a qualquer uma das (poucas) pessoas de uniforme azul onde está a saída e elas lhe indicarão prontamente.

Sabedoria


Recordar é morrer
Enquanto se vive
O lembrar é sofrer
Em profundo declive

Se quem de passado
Vive é museu
E eu desconheço o meu fado
Então quem sou eu?

Após o outro, alguém se fia,
Nada como um dia!
Dorme sentado em contraponto

O mundo dá voltas
Mas repetem-se as faltas
E eu fico tonto.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Sonetos de Amor (ou Como Amar com Poesia)

I
E eis que um dia o poeta disse alto
De seu mais profundo recôndito de dor
Para não restarem dúvidas ao mais cauto
Bradou heroico: ‘Faça-se o amor’

A todos a notícia espalhou o arauto
De repente o mundo se encheu de cor
A alegria contaminava de sobressalto
Os sorrisos se abriam como botões em flor

Este sentimento que se alimenta de versos
Trouxe júbilos, deixa perplexos e extasiados
Aqueles que nele se permitem imersos

Consigo um vislumbre da paz derradeira
E ainda se tal benesse lhe concedem os fados
O espírito inflamado transborda sem beira.


II
Além de o amor com suas mãos forjar
Já que impedir o desamor o poeta não pode
Preparou ele o mais delicioso manjar
Que os doentes do coração acode

Descobriu que é bonito em versos chorar
As mágoas cantadas em melodiosa ode
As lamúrias se vão como vagas no mar
Os lamentos vibram em perfeito acorde

Com esse prato feito de rimas e estrofes
Ajudou o poeta na solidão dos desamantes
Deu-lhes um fôlego de muitos foles

Saciada do trauma a profunda tristeza
Renovada ficou a esperança dos postulantes
De em placidez ver na vida doce beleza.

III
Ah, sus, o amor em versos é tão belo!
Não há coisa igual no mundo
De uma serenata o som singelo
Não deixa o coração tão fecundo

É um sentimento tão sincero
Que em questão de segundos
Com a pessoa amada cria um elo
Das alturas dos céus oriundo

Com ele o pôr do sol é mais vivo
A vida é mais leve e densa
Quem dele se beneficia não pensa

Simplesmente vive, rosto em riste, altivo
Guarda raríssima joia de quem se ama
O olhar que em tudo sentido derrama.


IV
Agora que te amo com todo o meu ser
Meu peito se comprime de saudades
Ando perdido nas ruas sem nada ver
A tua lembrança é minha única realidade

Afastar-me de ti me impede de viver
Peço humildemente aos céus a caridade
Que em um piscar de olhos eu possa ter
Ao meu lado aquela musa de felicidade

A tua distância corrói os meus dias
Sinto-me desfalecer por tempo infinito
Entro em um labirinto de paredes frias

Reencontrar-te é como acordar de um sonho
Bom e perceber que é deveras mais bonito
O mundo para o qual volto, risonho.

V
És de todas a dama mais bela
O teu riso brota em suave fonte
Iluminado por olhos de languidez singela
Ressaltando suave feminina fronte

És pintura da mais linda tela
Altiva como elevado monte
Labiríntica de muitas vielas
Não há poeta que não te conte

Pensar em ti alegria me traz
Contemplar-te em lampejo fugaz
Em meus braços ter o teu corpo

Não há bem maior que possa querer
Enquanto durar todo o meu viver
Do que em teus cabelos morrer absorto.

VI
Após um dia no qual nada tem razão
Quando em pensamento horas sem rumo
Vagueio, sentir junto à minha a sua mão
Afasta de mim negras cortinas de fumo

Abraça-me, quero tua segurança, senão
Sei, sinto que perderei o prumo
Ao seu lado me esqueço do mundo vão
Derreto-me em um último beijo sumo

Pousar minha cabeça em seu regaço
Restaura aquela há muito perdida paz
Que consigo o auge da inocência traz

Com você o meu olhar antes baço
Em um rio de felicidade desponta
Pelo áureo caminho que o destino aponta.

VII
Apenas em um momento imaginar-te
Junta abraçada a outro alguém
Encolerizo-me e vou além
Sofro deveras destarte

Não sei se o universo comparte
Ou se fica de minha dor aquém
Por ser só pensamento digo amém
Floreios de diabólica arte

Os teus lábios pousando em outros
Lábios que não os meus soltos
Morro por essa cena recriar

Não traia a minha esperança
Dá-me por favor esta fiança
De seres só minha em infinito mar

VIII
Ter o teu corpo em rubras horas
Os teus beijos lânguidos roubar
A mim tua pureza entregar
Nadarmos juntos por muitas auroras

Ser sua em infinitas noites quentes
Sentir os seus braços tomando os meus
Em mim levo apenas um camafeu
E os beijos que lhe dou apaixonadamente

O teu perfume inebriante de Flora
As tuas curvas extasiantes sem ar
Me deixam, sempre irei te amar
 
Nossos corpos em brasas ardentes
Agradeço humildemente a Deus
Tal ventura, nunca lhe direi adeus.


IX
Em uma tarde de sábado a calma
De andar de mãos dadas
Com as tuas, flor amada,
É divina benção para minh’alma

A suavidade e calor de tua palma
A tua leveza e dulçor de fada
Olhar de doce alvorada
Meu peito palpitante acalma

A beleza de teu amor suave
Entre nós não há nenhum entrave
Navegamos em todos os assuntos

Agradeço por estar ao teu lado
Ser teu companheiro alado
De sonhos sonhados juntos

X
E eis que chega a roda viva
Mesquinha, podre, vil
E nos mostra a ilusão servil
Conquistou-nos miragem lasciva

O castelo sempre cativa
Mas a fundação de areia se abriu
Mas a torre de mármore ruiu
A poesia se desfalece decisiva

O ideal pelo poeta cantado
Às areias do tempo não resiste
Ao exame do quotidiano nem insiste

O real a duras penas afastado
Com todo seu peso esmaga
Afoga-nos imensa vaga.

XI
Apenas um eco daquela miragem
Resta-nos baço na memória
Não se ergam túmulos em sua glória
Não lhes prestemos homenagem

Morta está tamanha bobagem
Esgoto que envolve a escória
Rotos os alicerces desta história
Torta deveras era sua mensagem

Oh, sofrimento que preenche o ser
Inominável dor que oprime no leito
Resignar-se em solidão comprime o peito

Desatentos dependemos sem perceber
Dos versos mentirosos do poeta
No coração nos fere oculta seta

XII
Passada a dor primeira é preciso fingir
Esquecer-se que é feito de pura ilusão
O sentimento cantado em bonito refrão
Ao ponto que a realidade a ele irá aderir

É triste ao simples sofrimento cingir
Aquilo criado por arguto artesão
É feliz quem recita o seu bordão
E deixa ao olvido o afligir

Sonhar suave com um verde campo
Um amor doce de véu sacrossanto
Sem prestar atenção no areal

O júbilo vem para aqueles que respiram
O sentir poético e digerindo-o o tornam
Mais verdadeiro que o real.

RJ, Jan/2012

Pelas Ruas do Centro

Naquela semana Moisés estava muito ocupado. Era fechamento de mês e seu telefone tocava o dia inteiro, recebia e-mails mil. As intermináveis reuniões terminavam ainda mais tarde nessa época de tanto trabalho. Ele ficava estressado, um pouco abatido, mas sabia que iria passar. Já havia ultrapassado problemas tão maiores com suas curtas pernas, esse seria apenas mais um.
Chegar cedo, reuniões, reuniões, e-mails, telefonemas, reuniões, almoço rápido, reuniões, e-mails, telefonemas, reuniões, sair tarde. Era a rotina da última semana do mês, há muitos anos que passava por isso. Pelo menos compensava na semana seguinte, chegar tarde, e-mails, bate papo, aquele almoço, telefonemas, e-mails, sair cedo. Mas naquele momento ainda estava no olho do furacão, problemas aparecendo de onde menos se esperava, funcionários que ficavam doentes da noite para o dia, cartas que voltavam por problemas no serviço postal, reuniões de elevador que se tornavam conferências de horas.
Em meio a essa confusão Moisés não percebeu que nessa terça-feira havia tomado um caminho diferente para casa. Ele, que trabalha na Senador Dantas, escolhia sempre o caminho mais curto, e tomava a Evaristo da Veiga para pegar o metrô. Ao invés disso, caminhou algumas quadras a mais, tomou a Alcindo Guanabara sem saber por quê.
Quarta-feira, dia 1º, Moisés estava mais calmo. Havia aguentado mais esse turbilhão, teria pelo menos três semanas até enfrenta-lo de novo. Chegando ao trabalho, saindo da estação do metrô, percebeu que não conseguia encontrar a Evaristo da Veiga. Achou muito estranho, mas resolveu relevar, deveria ser cansaço acumulado. Deu a volta, olhou o prédio de sua empresa, subiu. Passou o dia com isso na cabeça, incomodado, ele que conhecia tão bem o Centro. Ao sair, já com um pouco mais de tempo, percorreu com cuidado seu caminho. Observou que havia dois prédios dos quais não se lembrava, justamente onde deveria estar a Evaristo da Veiga. Não eram prédios novos, eram construções antigas, assim como seus prédios vizinhos. Havia passado tantas vezes por ali e não reconhecia os prédios. Aquela certeza foi se avolumando, crescendo, ao ponto que Moisés não teve mais dúvidas: algo estava acontecendo.

Chegando a sua casa, olhou o mapa do Centro na Internet e o imprimiu. Moisés iria levá-lo consigo no dia seguinte. E o fez. Foi desenhando no mapa todo o seu trajeto até o trabalho – saiu na estação Cinelândia, atravessou a Praça Floriano, foi pela Treze de Maio, pegou a Alcindo Guanabara e chegou na Senador Dantas. Estava claro, um trecho da Evaristo da Veiga havia desaparecido, justamente onde havia um restaurante árabe que ele tanto gostava. Em seu lugar se viam dois prédios que estranhamente pareciam sempre ter estado lá, não havia sinais de obras, rostos novos. Não conseguia entender como aquilo estava acontecendo, ruas desaparecendo, nenhuma comoção. Nessa noite tomou um remédio para dormir.
Mais um dia se passou, Moisés estava começando a se acostumar com aquela nova ordem das coisas, e eis que ao tomar seu caminho para o trabalho ele descobre que a Evaristo da Veiga estava de novo lá, o mesmo restaurante árabe. Ao entrar nessa rua, entretanto, olhou para a esquerda e viu um muro que tampouco lhe soava familiar. Rapidamente entendeu ele, e foi para seu trabalho.

Cada novo dia era um novo caminho, às vezes de sua casa até o metrô andava seis quadras. Outras vezes, com menos sorte, andava mais de dez. Ao chegar na Cinelândia, sempre havia mais opções de ruas, normalmente não aconteciam problemas com distâncias. Certa vez foi sair de casa, atravessou a rua e ao olhar para um lado, viu um muro, para outro, uma escola. Não havia como sair daquele espaço, voltou para casa e descansou. Ligou para seu chefe e explicou o ocorrido, este já sabia de sua situação.

Ultrapassada a surpresa inicial, Moisés animou-se com as possibilidades que isso lhe dava, cada dia um novo mistério, novos caminhos, novos trajetos, opções que deixavam de existir, restaurantes que simplesmente sumiam e voltavam a aparecer dias depois. Com o muro na rua Senador Dantas teve de ficar uma semana inteira sem ir ao restaurante que tanto gostava, especialmente pelo chocolate de menta que vinha junto com o café. Se adaptou a essa nova rotina, estar sempre atento. De repente aquela rua era muro, outra rua era prédio, o que era prédio voltava a rua. Não se sabia o que esperar.

Marcar um almoço se tornou muito difícil, não tinha certeza se conseguiria ou não chegar no restaurante marcado. Seus amigos compreendiam, não se incomodavam caso alguém não conseguisse comparecer ao almoço. Sabiam que essa pessoa deveria ter encontrado algum obstáculo para chegar e se acomodara em outro lugar. Simplesmente começavam a comer na hora marcada.
As pessoas se acostumaram a prestar mais atenção nas ruas, não se poderia ter certeza se seria possível voltar pela mesma rua que se foi. Em uma sexta feira chuvosa não restou opção outra salvo cancelar uma peça de teatro e devolver os ingressos - a Sete de Setembro e a Av. Passos se tornaram um jardim de crisântemos, ninguém conseguia no teatro chegar.
As linhas de ônibus constantemente mudavam seu trajeto, contornavam prédios, muros, jardins, praças. As ruas mudavam constantemente. O transporte subterrâneo passou a ser a melhor opção e o metrô já lotado, ficou ainda mais.

Era uma sexta-feira, já estava escuro quando saiu do trabalho. Moisés entrou na Embaixador Regis de Oliveira, rua pequena, apenas de pedestres, experimentava um novo caminho. Achou estranho, não viu viva alma. De repente, olhou para trás viu uma luz branca, crescente. Um barulho muito forte vindo de todos os lados. O ar se tornava leve, não havia vento, não havia cheiro. Sua boca estava seca, ele sabia que a rua estava desaparecendo.

Em vão

A dor do mundo me assola
Náufrago em imundo mar
Em doces ilusões acreditar?
Não consigo dar a mim essa esmola

As esperanças a realidade degola
De algum dia em paz ficar
No vazio contemplo a singrar
Barcos com suas invisíveis gaiolas

Não posso esquecer verdade tamanha:
Quanto mais alta é a montanha
Mais fortes os ventos e as vertigens são

O espírito de gravidade me sussurra
Incita no coração a bravura
Vão, vão, vão!

domingo, 1 de janeiro de 2012

No Quarto

Bárbara era uma pessoa triste. Não possuía nada que lhe fosse digno de seu nome, talvez só o olhar inquiridor que penetrava qualquer pessoa que a olhasse. Não era nem feia nem bonita, era uma mulher interessante. Questionava. Gostava de ler, de Clarice a Cortázar, sempre possuía um livro em sua mesa de cabeceira. Tímida que era, não criou muitas amigas.

Filha única de um pai militar e uma mãe professora, sonhava como seria ter irmãos. Em sua infância, disfrutou bastante por não ter que compartilhar a atenção de seus pais, mas isso lhe fazia falta, falecidos eles. Gostaria de poder dar a seus filhos muitos irmãos para compensar a falta que isso lhe fazia.

Os filhos também eram um sonho, talvez menos impossível, pois com seus 32 anos ainda poderia tê-los. Mesmo assim, a ela lhe pareciam tão distantes como os irmãos que seus pais não lhe deram. Solteira, sozinha, solitária, não achava que encontraria um bom pai a tempo. Tivera alguns amores, uns de verão, outros de inverno. Alguns conseguiram passar várias vezes pelas mesmas estações, mas nenhum havia imprimido nela a certeza que seria para sempre.

Para ocupar seu tempo, Bárbara era professora de português em uma escola primária das redondezas. Dava aulas três vezes por semana e muito eventualmente alguma aula particular. A renda que conseguia na escola somada à pensão de seu pai já era suficiente para pagar seus parcos custos, o aluguel de um quarto e sala, uma comida simples que ela mesmo cozinhava, algumas contas quase sempre no valor mínimo e de vez em quando uma extravagância, como assistir uma comédia romântica no cinema do bairro ou alugar cinco filmes pagando quatro em um final de semana chuvoso.

Quando estava em casa, gostava bastante de bordar. Flores, casas, babados para panos de prato. “Mantém a mente ativa”, acreditava, repetindo o ensinamento passado por diversas gerações de sua família. Gostava de costurar sentada em uma cadeira de balanço que possuía em seu quarto, muito antiga, pertencente ao dono do apartamento que alugava.

Além da cadeira de balanço, possuía em seu quarto uma cama estreita, uma cômoda e um armário para suas roupas, prateleiras para seus livros, um ventilador para seus calores e a mesa de cabeceira. Guardava uma reprodução de Pollock com um carinho especial, presente de seu primeiro namorado, único quadro daquelas paredes nuas. Era uma habitação com poucos móveis, assim como o resto da casa, assim como ela mesma.

Certo dia, enquanto bordava, percebeu que atrás dos seus poucos móveis havia muita sujeira, não fazia uma faxina completa na casa há algum tempo. Preparou-se toda, esfregão, luvas, desinfetante, esponja, balde, vassoura. Para sua surpresa, ao desencostar os móveis da parede percebeu que atrás da cômoda havia uma mancha escura, úmida, como uma infiltração de um líquido de cor acinzentada. Tentou limpá-la, mas era difícil, fazia força e a mancha não parecia diminuir. Resolveu deixá-la, não a incomodava, o móvel a escondia.

A rotina lhe causava ao mesmo tempo atração e repulsa. Era algo em que podia confiar, ter certeza do amanhã, saber como se portar. A inércia da rotina impedia qualquer coisa nova acontecer. Não que o novo fosse intrinsecamente bom, mas no novo poderiam surgir coisas novas. Por exemplo, eu poderia encontrar alguém que desse sentido a esse meu existir ermo, essa minha ausência de substância no dia a dia. Ou quem sabe encontrar alguma atividade que me deixasse preenchida. Mas a gente se acostuma com a tristeza, é como um sapato que aperta - você sabe que aquilo incomoda, mas deixa lá. Só é possível perceber realmente o incômodo quando se tira o sapato. Mas enquanto ele está lá, é algo para o qual não se dá atenção. Assim também é a tristeza, só quando vem a felicidade é que percebemos como aquilo não estava bem. Só que ao contrário do sapato, quando no dia seguinte utilizamos outro para não machucar o pé, a tristeza volta a mesma, e às vezes ainda pior. Então prefiro deixar a tristeza vestida, ela vai criando calos e nem me lembro mais dela. É minha companheira. Assim como minhas agulhas e minhas linhas, acho que são as únicas que me entendem. Ouvem meus lamentos e criam excelentes suéteres, gorros, meias. Gosto de costurar na cadeira de balanço que está no meu quarto, sinto que controlo o mundo. Ele está parado, só se mexe quando eu quiser, para a frente, para trás. E assim me tranquilizo. Discorro? Estou falando muito? É que a solidão nos dá muito tempo para pensar. Isso pode ser bom, ou não. Não sei, acho que depende de como se lida com ela.

Depois da mancha acinzentada, começou a prestar mais atenção àquele canto do quarto. Percebeu que de cinza se tornava negra e aumentava. Tentou esfrega-la novamente, mas percebeu que a esponja se tornava negra. Era uma substância espessa, como o piche, um alcaçuz recém-cuspido. Desistiu. Teve que mover os móveis para ocultá-la, nada que lhe assustasse.

A casa cheirava a morte. Em seu isolamento Bárbara não possuía animais de estimação, flores, nada com vida em sua casa, a não ser ela mesmo com seu olhar fundo. Era um ar pesado, se percebia assim que se entrava no apartamento, como se algo fosse acontecer, como se houvesse algo de errado. Aquela cena pastel que o visitante via na casa apertava-lhe o peito, deixava-o sem ar. Mas como não possuía visitantes e com esse ambiente havia se acostumado, era algo em que ela não prestava atenção.

E assim passavam as semanas, meses. Escola, bordado, filmes, alguns livros. Bárbara flutuava sobre isso alheia, distante. Em seu ensimesmamento, não via o sol nascer, as fases da lua, as estações do ano. Era tudo igual, não havia nada que lhe tirasse dessa letargia.

Os móveis já não ocultavam a mancha negra, ela já tomava quase duas paredes inteiras. A cômoda que cobria a mancha quando cinza já estava com sua madeira apodrecida. Bárbara teve que retirar suas roupas de lá e colocá-las na sala.

Nada que afetasse muito sua rotina, agora dormia na sala, a cama havia sido tomada pela mancha. Conseguiu salvar suas roupas, o quadro e o colchão. A cadeira de balanço era muito grande, havia sido montada dentro do quarto. Deixou-a lá.

Seu dia era simples, quando ia para a escola acordava um pouco mais cedo. Fazia sua toalete. Descia à padaria, comprava pão francês. Tomava seu café da manhã em uma pequena mesa na cozinha. Saía. Caminhava até a escola. Dois tempos de aula de manhã. Almoço. Um tempo de aula à tarde. Caminhava para casa. Costurava. Lia um trecho de um livro. Cozinhava. Costurava. Dormia.

Em seus dias de não ir à escola, ela dava um passeio pelas redondezas. Havia uma praça arborizada que gostava de sentar-se, tomava a condução e em trinta minutos chegava lá. A natureza não chama sua atenção, mas gostava dessa praça. Não sabia o bem que lhe fazia respirar outros ares que não o da sua casa.

Normalmente não chegava até a praça, apenas caminhava um pouco. Via os carros passando, pedestres indo de um lado a outro. Sinais que abriam e fechavam, ônibus sempre apressados. Barulho, pessoas falando alto. Buzinas. Voltava para casa.

Estava cansada. Sentiu uma falta de ar que não sabia explicar. Era como se não houvesse mais oxigênio ao seu redor. Seu mundo não tinha mais cores, pôr do sol, grama, lama. Tudo era o mesmo, a mesma consistência pastosa. Não havia novidades, nem lhe atraíam, mas a repetição lhe cansou. Chegou em casa da escola, tomou um banho demorado. Pegou suas agulhas e linhas. Entrou no quarto, todo negro, sentou-se na cadeira de balanço e pôs-se a costurar.