sábado, 23 de junho de 2018

Isto que é aniversário

Mas por que tanto busquei
Quando estava ao alcance
Das mãos
Nem tão assim
Esticadas
Quando bastava abrir
Levantar a cabeça e ver
A coisa acontecendo
Quase inominável
Inapreensível
Inconcebível
Quando bastava esquecer-se
De si e ser oceano
Quente
Pulsando
De vida
Quando estava ao alcance
Dos lábios
Desde que abertos
Ao talvez
Desde que incertos
Permitam
Contando com um sonho de amor
Que faça sorrir
Em frente ao abismo
Que faça voar
Que faça voar
Que faça cantar
A sua morte iminente
Quieto
Resignado
Pois certamente
Terá valido a pena
Cada pequena vícera
Rasgada
Apesar da noite escura
E inquieta
Certo que será corpo
De vida
E vaso de infinito
O seu olhar
Quando esfinge
O mundo.

Aniversário do Ítalo

É aniversário do Ítalo
Depois de bêbados
Falamos de filosofia
Poesia
Mas qual é a função
Do poeta?
Então se recitam
Das noites contadas
Dos tons
Da busca de sentido
Do potlach
Do porquê a coisa é função
E chegamos à música de Jorge
Ben, e chegamos ao conceito
Desse velho mundo
Então o vento lembra
Da música cantada aos berros
À uma da manhã
Com um violão
No Gato de Botas de Vila
Isabel,
Então chegamos à construção
Da religião, dos tempos crus,
Então chegamos no Nietzsche
Pensando na infantilidade dos deuses,
Então é hora de mais
Um cigarro
Já volto.

domingo, 17 de junho de 2018

Um minuto da sua atenção

Cara, eu só queria
Te contar
Que o mundo está pulsando
Firme
Elástico
Abissal
E águia
No centro de um eixo
Acentrico
Eu só queria te mostrar
Te fazer ouvir apenas uma vez
O horizonte é possível
Ainda sofrendo limites
O outro é possível
O eco é possível
Em cada pequeno passo
Em cada pequeno gesto
Rumo ao fundo
Do sentido mais simples
Elástico
Abissal
Sem qualquer capacete
Que impeça sentir alguma
Coisa
No suco de maracujá
Na boca
Então seca
Areia
Argila
Cimento
Mas agora jardim
De qualquer árvore
Que dure algumas
Gerações
Do sonho de alguma
Qualquer coisa
Que seja rio
Que enfim
Nos atravesse.

A noite de Santa

A noite de Santa
Teresa, dos trilhos
Vazios mas cheios
De gente, de som
E de luz
Pouca
Mas em meio ao escuro dos dias sem fim
Noite de Santa
Teresa, dos projetos
E ideias e sonhos
Dos Largos
Dos sorrisos
Por algum amanhã
Sonhado junto
Por alguma história
Ainda futura
Então a cada acordar em cada manhã
Haverá motivo
De ser além de si.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Querer

Quero o amor dos dias sem
Fim, o sonho das noites abertas,
O sorriso das almas sedentas
Por um pouquinho mais
De corpo.

Quero aqueles breves momentos
De cumplicidade simples
Com desconhecidos,
Aquela certeza de que tudo
Vai ficar
Bem
E de que o amanhã
É muito distante
Para se pensar.

Quero ter na minha mão
A sua
Caminhando rumo a um lugar qualquer
Em ruas novas
Que nunca vimos eprovavelmente
Jamais
Voltaremos.

Quero abrir a porta
E ver você correndo
De saudades apertadas
Se pendurando no meu pescoço
Já que desde hoje pela manhã
Não nos falamos.

Quero o gozo do seu corpo
Na ponta dos meus dedos
E língua bruxeleante e caneta
Arfando pela impossibilidade de estarmos um pouco mais
Juntos.

Quero a languidez dos lençóis molhados
Depois de juntarmos o céu e a terra
O sol e a lua
Os beijos e o mar.

E nesse querer sem fim
Me queimo de desejo
E não há mais
Nada além do brilho dos seus olhos de órix
Olhando o calor do deserto sem sombra
Em que me encontro quando estou
Longe.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Algo

É muito bom
Estar aqui
Na onda
Com vocês
Na tentativa diária
De ser algo
Mais
De sentir algo
Mais
Por alguma coisa
Além
Desse dia a dia quotidiano
Desse possível
Quotidiano
Dessa
Insuperável
Esperança
De viver
Nem que seja na porra de um pequeno momento
Algo mais.

sábado, 26 de maio de 2018

Em Machu Picchu

(com Nath)

Fui para o Peru
Para conhecer Machu Picchu
No meu último aniversário
Para fazer novos amigos, conhecer lugares.

Uma série de coincidências me levou a subir Machu Picchu
No dia anterior do meu aniversário
E conheci um cara
Que era aparentemente incrível.

Tivemos ótimos momentos juntos,
Conversamos muito
Sobre muitos assuntos
E vivemos coisas muito legais
Que eu nunca tinha vivido
Com ninguém.

Ele, Holandês,
Eu, carioca,
E você pensa: foi bom enquanto durou.

A gente continuou se comunicando
Mas a forma como ele levava as coisas
Me fez acreditar que aquilo poderia dar certo.

E a gente se gosta bastante,
Não sei se ia dar certo.

E a gente tinha combinado de eu ir visitá-lo,
Mas no dia em que eu falei que eu ia lá
Ele falou:
"Eu estou com medo,
Espera"

Descobri depois
Que ele faz parte dos 10% extremamente religiosos
Da Holanda
E o bicho estava extremamente preocupado de eu não ser
Da religião dele.

E isso para ele foi um problema.

E ele falou que não dava conta,
E a gente se despediu por Skype
Ele aos prantos,
Mas não conseguia,
"A conexão com Deus com a religião
Não era forte", me disse,
E ele quer alguém
Que pense como ele,
Para reforçar a crença.

Ele não quer ser questionado.

E desde então, a gente não se fala,
E ontem, dia em que eu iria viajar para lá,
Saí com uma amiga
E fomos celebrar o enterro
Da ideia do que ele poderia ser na minha vida.

E então, eu acho realmente, que foi
Bom enquanto durou
Mas foi bom não ter ido.

A vida é feita de pequenos momentos
Incríveis
E o fato deles não serem eternos
Não desmerece a magia
E a intensidade dos acontecimentos.

Xenofobia

(com Mohammed el Jazouli)

Um dia, eu e meu amigo,
Queríamos fazer uma associação
Para orientar os imigrantes refugiados
Subsaarianos.

Nós começamos isso porque tem muitas associações
No meu país, mas essa ideia
Nunca foi implantada por ninguém.

Os africanos subsaariano que chegam lá
Moram nos guetos
Entre eles, e tem muita
Dificuldade de se integrar.

Também ocorre um racismo
Contra eles, pois dizem que eles
Roubam o emprego da gente,
Aumentaram o crime,
E o país está em crise.

A gente quer ajudá-los
A se integrar com os marroquinos.

Com muita burocracia,
Ficamos um ano,
E ouvíamos as perguntas:
"Por que você quer ajudá-los?
Precisamos ajudar aqui dentro.
Deixa eles irem para a Europa."

Foi difícil,
Eu sofri muito,
E essa tristeza me empurrou
Para deixar o país.

Nos últimos meses, a gente desistiu,
Ele foi para Omã
E eu vim para o Brasil.

A mesma coisa que eu escutei lá
Sobre africanos subsaarianos
Eu ouço aqui.

Eu gosto do Brasil,
Acho o Brasil
Bom, pois eu ando sempre
Com as pessoas boas.

No Omã,
Ele esqueceu toda a história da associação.

Agora,
A história está voltando.

Agora,
Nós somos refugiados.

Agora,
Vemos a xenofobia.

Eu recebi muita ajuda
De muitos brasileiros
E vejo que recebi essa ajuda
Pois eu também tentei ajudar os outros no meu país.

E agora, estou bem,
Trabalho como professor de francês,
Estou com o Chega Junto,
E conto essa história porque hoje é o dia da África,
E sei que os africanos estão sofrendo muito,
Mesmo que a Europa tenha recursos para receber muito mais imigrantes
Não o fazem.

Lá fora, os brasileiros, latinos,
Sofrem igualmente.

Quando eu cheguei aqui,
Vi como a visão do Brasil
Lá fora
É um estereótipo
E que aqui tem muita diversidade.

Agora estou
Sujeito ao mesmo preconceito contra o qual eu lutava
Lá no meu país.

É um sentimento
Que você nunca pode imaginar
Até que você vive.

Quando eu estava lá
Eu via o sofrimento,
E sofria, mas aqui
Sujeito a esse preconceito,
Você se machuca.

Falta para as pessoas
Pensarem antes de falar
E verem algo além
Da superfície.

Os governos também são culpados
Pois não tem muita discussão
Não tem uma educação da verdade
Não dão muitas oportunidades.

Lá no Marrocos
Sofríamos antes da imigração
O desemprego já havia
O crime já havia
Mas por egoísmo patriótico
Nós queremos ter tudo
E não deixar nada para o outro.

Queremos ficar ricos
À custa dos outros.

Em Candide, Voltaire conta
Sobre um europeu que veio para a América Latina
E tinha diamantes e ouro nas ruas da Bolívia e do Peru.
Ele começou a guardar esses diamantes e ouro.
O imperador do Peru falou
"Você pode ter todo o ouro e diamante que quiser"
E morou no palácio
Rico, com tudo.

Mas dois meses depois,
Ele fala ao imperador
"Eu quero ir para a Europa,
Pegar comigo
Todo o diamante e ouro,
E ir para lá
Onde eu tenho tudo
Que ninguém tem".

Eu, Carmen Martí

(com Carmen Martí)

Antigamente eu vinha aqui de bicicleta
Salvo um mês ou outro,
Há mais de vinte anos venho aqui.

Em agosto de 2012
Eu fui atropelada
No hospital, quando eu vi a situação,
Com as pernas muito enfaixadas
Fiquei com medo de não sair dali.

E muito questionamento com Deus
E nem sempre as enfermeiras tem um papo bondoso
Para lidar a todas as horas.

Foram muitos por quês com Deus,
E Deus levantou uma pessoa
Uma senhora de uma igreja
Que ficou muitas horas comigo na enfermaria onde eu estava deitada.

Por causa do soro eu me movimentava pouco
Foram mais de quatro meses e meio
Até que eu fui para a casa da minha irmã
E continuei sendo medicada.

Fomos insistindo
Conseguimos entrar na Santa Casa
De Misericórdia de São Paulo
Até que fomos parar na área de traumato-ortopedia.

E tenho fluído o tempo assim,
Embora tenha ficado muito triste,
Falando com muitas pessoas,
Muita insistência
Mas pouco resultados.

Por não ter ninguém da família
Que seja advogado
O tempo passa.

E hoje estou aqui, na frente do Roy,
Vislumbrando um futuro muito mais promissor,
Com sonhos que vão se realizando
E torcemos para que a vida de todos
Os habitantes da Terra
Tenha mais
Qualidade de vida.

É isso que eu desejo para o futuro
E me esforço
A cada dia
Para isso.

Eu, Paulo Mendonça

(com Paulo Mendonça)

Minha história começa em um nascimento complicado,
Minha mãe grávida, no interior, roça, fazenda,
Meu pai trabalhava lá,
Sem médico, a parteira disse:
"Está complicado",
O médico da cidade
Depois de ser procurado
Disse:
"Só se salva um ou outro".
Meu pai fugiu dessa decisão
E acabamos sobrevivendo os dois.

Por isso, criei um vínculo muito forte com a minha mãe
Somos seis irmãos
Cinco mulheres e eu,
Sou o quinto de seis.

Vim de Rio Novo, na beira de uma açude.
Saindo da fazenda fomos para o centro,
Um local pequeno, quatro mil habitantes,
Crescendo nessa cidade
Mínima.

Nunca tinha planejado
Acabei querendo conhecer o mundo
Vim para o Rio,
Com medo do Rio fui para Niterói,
Até que um dia fui para os Estados Unidos,
Iowa.

O que eu estou contando para você?
A minha vontade de ver o mundo.

Sair de um lugar que nada tinha
E querer ver culturas diferentes
Formas diferentes de pensar a vida
Formas diferentes de encarar desafios
De encarar as individualidades e as culturas.

A partir daí nunca mais parei,
E desde então estou rodando o mundo.
Não apenas por prazer,
Eu uso isso para o meu trabalho
Sobre cultura nas organizações.

Em função disso tenho conhecido coisas muito diferentes.

No Japão, fiquei morando um mês,
A maneira como eles vivem,
Respeitam um ao outro, se ajudam,
Respeitam a individualidade e ainda assim as coisas funcionam.

No Irã, um país de onde todo mundo morre
De medo, tem uma cultura riquíssima, eles tem
Uma ancestralidade absurda, estão
No meio dos árabes, falam persa e não
Tem muito a ver com o que está em volta.

E a última, mais maluca,
Foi para o Butão, na Ásia,
Vi que nós, ocidentais, complicamos demais.
A vida na verdade
É fácil e simples.

E por que eu viajo?
Não tenho pretensão de mudar alguma coisa,
Essa situação que a gente vive
No Brasil e no mundo,
É muito complicada,
Mas eu tento
No meu quadrado
Fazer alguma coisa
Melhor.

O Sol e o Vento

(com Antônio, 5 anos)

Era uma vez o sol e o vento,
E eles resolveram fazer uma aposta.
O sol disse:
- Quem conseguir tirar o casaco daquele homem será o mais poderoso!

E o vento começou a soprar a soprar e a soprar
E o homem só colou mais roupas.

Chegou a vez do sol.
Só com um raiozinho, o homem sentiu muito, muito, muito calor.
E o homem tirou todas as roupas!
E ficou só de cueca na caixinha de areia
Sem meia
Como um gato.

E fim!

Histórias

(com Carol)

I
Não sei se fui eu
Ou minha irmã,
Pois eu era pequena
E não me lembro.

Minha vó conta
Que abrimos o armário dela
E tiramos tudo do quarto.

Ela entrou
Na casa
Assustada
E uma de nós falou
Engraxado né vovó?

II
Um dia minha irmã
Tomando banho na banheira
Não queria sair,
Minha tia apagou a luz
Para ver se ela saía,
Mas ela ficou lá quieta,
Meu avô entrou no banheiro
E ela
Pequena
Arregalou os olhos
E disse:
Água!
Luz!
Susto!

III
Minha mãe estava sem dinheiro,
E eu perguntei:
- Mamãe, se a menina pedisse para comprar pirulito,
Você comprava?
- Depende minha filha. A mamãe tá sem dinheiro. São quantos?
- E se fosse um pirulito?

IV
E tem uma outra também:
Minha mãe procurando meu irmão,
Não encontrava,
E ela sentou no sofá
Apoiou a cabeça na mão
E disse não saber o que fazer.

Olhou para debaixo da mesa
E lá estava ele
Com uma lata de biscoitos
Escondido
Sorrindo.

V
No dia de Natal
Após a ceia
Deixamos o pernil em cima da mesa.
E de manhã o mesmo
Cadê o pernil?
Sentada no sofá
Vi embaixo da mesa
Roído o presunto inteiro
Pelo Pity Pity.

VI
Meu irmão ganhou um microscópio
Colocava tudo para lá ver.
Ele quis ver sangue
Minha irmã mais velha a mais corajosa
Furou o dedo para ver
Alguém saiu correndo feliz avisando
"Sangue mãe, sangue!"
Minha mãe desesperada
Veio e viu todas as crianças
Em volta do microscópio.

VII
Eu morava em Aracaju
E deixei na mesa
Uma bandeja de empadinhas
Recém saídas do forno
Mas apenas dez minutos depois
Apenas metade
E o resto comido
Pelo cachorro
Grafite.

VIII
Minha irmã foi cortar
O pelo do cachorro
E o cortou sem querer
Demais.
Resolveu cortar todo o pelo
E ele ficou parecendo um porco.

Quando minha outra irmã
Chegou
Com sua cara de espanto
O cachorro se escondeu
Envergonhado.

IX
A tigela de plástico
Do Pity Pity estragou
E colocamos um prato fundo
Mas minha mãe o quebrou sem querer.

Ele sentou no tapete da cozinha
E seus olhos diziam
Por que eu?
Não vou comer nunca mais!

Eu, Ivan Loutfi

(com Ivan Loutfi)

Meu nome é Ivan,
Minha família,
Descendente de árabes,
Meu pai sírio,
Minha mãe
Brasileira,
Mineira,
Tenho um irmão gêmeo,
Sou o mais novo
Em um total de oito,
Cinco irmãs
E dois irmãos.

Nasci no interior
Mas sempre tive vontade
De sair por aí.

Outro grande amor
É a música.
Crio algumas coisas
No piano,
Algumas coisas ruins, algumas
Boas,
A partir de aulas da minha irmã
Leila, e depois fui praticando.

No piano
Dentro da minha limitação
Tenho a liberdade de criar.

Com 16 sai de Teófilo Otoni
Fui para BH
E agora no Rio.

Sou carioca de coração,
Aqui é o meu lugar,
Mas ainda volto
Para visitar a família.

Adoro
A liberdade da viagem
Em uma explosão de sentidos
Até a volta
Cheia de recordações boas
E uma vida com muito sentido.

Esqueci de falar,
Sou geólogo,
E essa é uma forma de entender como o planeta funciona,
Vejo como um corpo,
Uma anatomia,
E nessa profissão quase  religião,
Vejo como somos um fragmento
De algo tão maior,
Representando quase nada
No universo.

Sei lá,
É isso.

MS

(com Bruna Christina)

Eu conheci um menino
Através da minha prima,
De início, não dava qualquer
Importância.

Começamos a conversar
Por mensagem
Às vezes um pouco demorado.

De repente a sua
Atenção me envolveu,
Ficávamos nos falando
Por mensagem,
Mas ao vivo,
Quase nada.

Ele pediu
Para ficar comigo:
Mas pessoalmente não havia
Iniciativa
De ninguém.

Falávamos disso
Pelo celular
Mas eu tímida,
Nervosa,
Me embolava
À sua frente,
E recuava.

Uns dois anos atrás
Na madrugada do ano novo
Sem nunca nenhum
Beijo entre nós,
Ele me pediu
Em namoro.

Eu travei,
Eu queria
Mas não sabia
O que fazer.

Já à tarde
Ele foi lá na rua
Disposto a falar
Com o meu pai.

Ele desistiu
De não receber nada.

Agora
Eu me arrependo
E quero aproveitar cada momento
E não deixar as coisas boas passarem
E não duvidar quando as coisas estão dando certo.

Eu, Renata Barcelos

(com Renata Barcelos)

Eu, com 18 anos,
Gosto de buscar um jeito
Se realizar meus sonhos,
Desejos,
Sou amiga, simpática,
Gosto de ajudar,
Movida por empatia,
Uma bomba de sentimentos
Bons, pelo mundo,
Quero mostrar alegria,
Com meus pensamentos equilibrados
Vou longe,
Mas se não, fico triste,
Quieta,
Mas então vou
Ler
Um pouco, sair,
Com amigos,
E tudo vai ficar bem.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os paletós de Brasília

Hoje é segunda:
Não se encontra
Nenhum
Por aqui.

Terça pela manhã
Lotam o saguão do aeroporto
Reformado,
Privatizado.

Um dia de aperto de mãos,
De saudades forçadas,
Um almoço na asa sul,
À tarde nada muito
Diferente.

À noite
Algumas ligações
E chegam no bar do hotel
Sorrisos fáceis
Que o dinheiro
(não muito limpo)
Compra.

Quarta é igual à terça,
Ou praticamente,
Nesse mar negro-gris
Quase sempre homens
Quase sempre brancos
Carecas-grisalhos
E um pouco
Acima do peso.

Na noite de quarta
Lembranças da terça,
Cai cerveja na manga,
No colarinho suor,
Na televisão um jogo
De futebol qualquer.
Comentários sobre as duas
Ou três mulheres das reuniões
Que eram, pelo menos,
Bonitinhas.

Na quinta a gravata já está
Na mala,
O check-out do hotel,
Parece que tem uma greve por aí,
O check-in no voo,
Os abraços apertados
Agora sim sinceros
Pois fará um pouquinho de falta
Essa disneylândia do cerrado.

Na sexta
Estão na lavanderia
Levados por uma empregada qualquer
Cujo nome nem me lembro.

sábado, 19 de maio de 2018

Sente-se

Dentro do útero piscina
Um calor música umbilical,
Um sonho luz oblíquo,
Jorge, salve Jorge,
Um solo infinito,
Um dissolver da pele,
Daqui de dentro é belo
O mundo, ao menos
Um pouco mais,
Daqui de dentro
Refração,
Ajulejos
Saias
E luminárias
Que esfacelam
O horizonte,
Daqui de dentro
O pulsar
Verticalmente
Impossível,
Daqui de dentro
Rachaduras
E a terra
Que firme
Inobliterada
Surge
E a chuva que cai
Neste espaço singelo
Impressionante
Onda
De absoluto
Sentir.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Quarta no Osbar

Tomo uma cerveja no Osbar.
Hoje é quarta mas ninguém
É de ferro, ao fundo toca um Bob
Dylan, Elvis, e um rock que faz sonhar
Com um tempo um pouco mais
Doce, o copo ainda está
Gelado, o Osmar, querido,
Já deixou a garrafinha de água,
Matamos um pouco as saudades,
E me disse que está pensando
Em ampliar, é sorte esse coração
Poder alimentar mais gente
Sedenta de pão e de luz,
É sorte o tempo ameno
E o relógio ter parado
À espera de uma qualquer
Coisa, é sorte ainda haver céu
E sorrisos brancos à espera,
Não sei se ainda resiste
Qualquer metafísica mas também
Não me preocupo, o pastel chegou,
A cerveja está vindo,
O volume da música aumentou,
É quarta mas estamos no Osbar.

Ainda bem.

sábado, 5 de maio de 2018

Sábado à tarde

É tarde
No condomínio América
Em Del Castilho
O sol já baixou
O céu
Ainda claro mas róseo azul
Crianças jogam futebol
Na varanda uma cabeça apoiada
Em um braço apoiado em uma grade
De uma varanda do segundo andar
Observa as crianças jogando futebol
Um muro
Enorme
De apartamentos
Apenas quatro luzes acesas
Ainda é claro
Apenas quatro vidas visíveis
Do lado de fora
Uma churrasqueira solta suas últimas chamas.
É sábado
As pessoas conversam
Com uma certa
Paixão
Dois amigos sorriem discutindo
O próximo jogo
O horizonte quase
Não mais
Alumia.
É sábado
O dia do descanso chegou
E tudo está bem.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Piaf

(com Álvaro braga)

À sombra
Piaf
É mais
Do que ela mesma

A sombra
É claro
Como conceito
É mais que ela mesma

A sombra
Mundo de possibilidades
É como se não fosse
O que não é

Porque o mundo da vida
Por meio das sombras
Surpreendentemente
Convidativamente
Abandona o não.