sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Lázaro, levanta-te!
Já é mais que tarde
Eu aqui a fazer alarde
O sol na vista arde
Enquanto tu continuas
Deitado aí.
Levanta-te Lázaro!
Aqui fora o teu pai continua louco
Aqui fora o ouvido continua mouco
Aqui fora o rogo continua rouco
De tanto pedir.
Levanta-te Lázaro!
Levanta-te e anda!
Usa essas pernas que são suas
Corra pelos caminhos e ruas
Veja o dia antes que as luas
Passem acima de ti.
Levanta-te Lázaro!
Queres fazer-me repetir até quando
Queres rir-se enquanto eu clamando
Queres sempre faceiro que eu brando
Continue a carpidar.
Lázaro, levanta-te!
Esses dez minutos no soneca nada
Te trarão, até quando nesta maçada
Ficaremos, a tia tão boa que fada
Parece, da escola recebi sua rosada
Caderneta, integralmente anotada
'Atrasado', parece até uma piada
Sem o riso, nessa conversa fiada
Ficamos, mas conheço-te, cobra criada
Sois e conseguiste, está acabada
Minha paciência.
Lázaro Silva, pela última
Vez, levanta-te!
sábado, 30 de setembro de 2017
Onda
A mente brilha
Em meio à noite
É dia.
O mundo balançando
Em meio à noite
Dançando.
O mundo de padrões
Inexistentes
Dulções.
É noite é noite,
Até enfim
Transporte
Para algo além
Do trilho
Tão estreito.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Sublime
O prazer do círculo
Da medida perfeita
Do cálculo restrito
Do corte de sangue
Purulento.
O prazer do beijo do sublime
Tão pequeno
Tão mesmo
Como abrir o peito
A deus a dois e ao mundo.
O prazer da construção perfeita
De repente
De dominós
Inteiramente
Desmantelada.
E se
E se você aguentar
A sujeira humana
E se você engolir a sujeira humana
Em uma noite suja
Funda e impossível
Em um gole tão fundo
E se você fungar
A fundação do fundante do mundo
Do corte preciso
Do corte lâmina
Da pele que abre
Da vida que escorre
Putrefata
Rumo ao concreto
No rio
Agora.
domingo, 24 de setembro de 2017
O doce da noite
Os rostos da noite
Eu quero os rostos da noite
Quero-os esfumaçados
Rostos esfumaçados da esfumaçada noite.
O cheiro da noite
Eu o quero deslizando sob meus pés
Acariciando o brilho frio e máquina
Da esfumaçada noite.
As dúvidas da noite
Eu quero as dúvidas da noite
Quero-as amargas
Dúvidas amargas da amarga noite.
Mas o doce da noite
Eu o quero possível e vero
Possível em verso
Mas nunca, nunca
Tão doce
Em prosa.
domingo, 10 de setembro de 2017
Mario Martinho
Fria
Impessoal
Do mestre
Que era o meu pai.
Ele dizia.
Eu sempre tentei
Saltar,
Até certo dia
Em que não saltei
De cabeça
No Tejo
Pois no último degrau
Já de tanto mergulhar
A cabeça doía.
Quando tive que voltar
Para casa.
Militar,
"Vai para o teu quarto
Chorar", ele dizia,
Mas já perto do fim após
De intestino
Chorou o que nunca havia chorado
Em sua vida.
Não mais queria
Mas despedir-se, sim:
Contou que viu os horrores
Pediu um caderno para escrever a quem
Faltava,
E agradeceu a vida
Que teve.
De apertar até doer,
Um coração puro,
Sempre disposto
A compartilhar:
Os doces
Da mercearia da mãe
Eram roubados
Para os amigos.
Essa vontade de sorrisos,
Esses despojos de infância
Da mercearia da vó Fernanda
Até que a minha mãe
Apanhou-me.
Faz-me esquecer
Dos nomes e caras
Tão próximas.
Com a pele fria,
E amarela,
Seus pontos que deveriam ser tirados,
Achava eu,
Pela filha heroína,
Que não queria deixá-lo
Morrer,
Mas ao tentar salvá-lo
Sem nunca conseguir
A angústia e o medo
Por nunca mais ver
Essa pessoa que me ensinou
A pular
Para a água,
Para o nada incerto,
Para o desconhecido.
De sexta para sábado
Após aquele impessoal amarelo
Ele não reclamava mais de nada,
Seu silêncio ausente de incômodo,
O sonho de uma lembrança
De um funeral,
Até que a minha irmã falou:
"Papá está no hospital".
Durante dez minutos
Pela coragem
De vê-lo morrer.
O maquinal daquelas máquinas,
Daquele corpo não presente,
Até o suspiro final
Daquele corpo
Que ali ficou
Sem nunca mais pedir
Para eu pular,
Sem nunca mais pedir
A aventura,
Sem nunca mais pedir
Um pouco mais
De vida.
Com a Elis
(com Anaê Veronrsi)
Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.
No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.
Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!
No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.
Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.
Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.
A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.
No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?
Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.
O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.
Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
A sempre busca
A sempre busca
Por um instante de ar
Bem longe desses dias de merda
E morte e dor
Sempre desigualmente
Distribuídas.
A sempre busca
Por um intervalo no tempo
Bem distante dessa rotina
Massacrante, estafante
E imbecil
Sempre pior
Para alguns.
A sempre busca
Por um pouquinho só
Do que a propaganda nos diz
Cheia de sorrisos e sexo
E viagens e coisas
Sempre exclusivas
Para poucos.
A sempre busca
Por algum sentido nesse mapa sem placas
Nem rotas, vias ou caminhos
Apenas uma grande avenida
Rumo ao vazio
Esquecido
Por muitos.
Bilhete
(com Alvaro Braga)
A possibilidade total
Do infinito,
A possibilidade de ser
Qualquer coisa,
Possibilidade linda
E amedrontadora,
A dificuldade do ser livre,
A facilidade do espaço
Predefinido,
Mas o reconforto
Da autenticidade,
Do próprio caminho,
Da voz de si,,
Filha de lutas e pesos,
Como amadurecimento da vida
Para ser finalmente vivida.
A vossoroca da mesmice
Como pântano magnético,
Sempre a buscar mais um
Robô, mas e se o mundo
Fosse feito de pessoas possíveis
Nessa causalidade tão incrível
Que é uma vida na Terra
Por uma condição tão benéfica
Do acaso, de deus, ou de qualquer
Outra possibilidade que explique
Essa aleatoriedade toda
De uma possibilidade de vida
Tão negligenciada
Como bilhete premiado
Nunca resgatado,
Que você tem,
Não perdeu,
Mas se esqueceu
Em uma gaveta velha.
O poema é aquele
Que te pergunta
Sobre aquela gaveta velha,
Sobre o oxigênio daquele bilhete
Rumo ao mar e ao sol.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Sonhos
Hoje a noite é daquelas cheias
De dúvidas, hoje a noite
Parece que vai ser
Interminável.
Ao fundo ouço um instrumento
Elétrico que se toca sem ser tocado:
Parece um violino
Ou um instrumento de cordas e arco
Mas não possui cordas,
Não possui arco,
Apenas antenas
E circuitos.
Enquanto ouço
No violão e teremim
O número 5 das bachianas brasileiras
Me lembro que hoje o Ministro da
Fazenda
Anunciou em documento oficial
A sugestão de acabar
Com o ensino superior gratuito
Das universidades estaduais do Rio.
Ao fundo Clair de Lune
Tocado em um instrumento
Que não se toca,
Ao fundo Once Upon a Time in the West
Tocado sem cordas nem arco,
Ao fundo a modernidade,
Mas hoje foi oficializada
A intenção de acabar
Com o sonho de UERJ que um dia sonhei.
Penso nos veículos elétricos
E lembro da sua mecânica
Tão mais simples,
Nos avanços em baterias,
Nas células a combustível,
E sei que eles já chegaram
E que um dia, talvez tarde demais
Para esse planeta agora tão pequeno,
Após vencer tantos lobbies batalhas jurídicas obstáculos
Vão substituir aqueles outros
Com motor a combustão.
Teremim, ele se chama, e não é sinal
Subproduto ou invenção
Posmoderna, mas filho russo
De quase um século atrás.
De antena circuitos capacitores.
Penso na exploração da lua,
Que não é sonho, já existe,
Inclusive se tornou algo comum,
Penso no computador de bordo
Que carrego no bolso,
Que não é sonho, já existe,
Penso na estação espacial internacional
Que pesa 400 toneladas
E dá uma volta na Terra a cada 90 minutos,
Que não é sonho, já existe,
Penso no carro
Movido a água salgada
Que não é sonho, já existe,
Mas hoje,
Além de apresentar em documento oficial
A defesa pelo fim da UERJ
Enquanto universidade pública estadual
O Ministério da
Fazenda
Também comemora
Uma nova taxa de juros
Que vai aumentar ainda mais
A taxa de juros de um banco público
Nivelando-a ao mercado privado
E às taxas de juros reais mais caras
Do mundo.
Norwegian Wood
Acompanhado de guitarra:
I once had a girl, or should I say,
she once had me.
She showed me her room, isn't it good,
Norwegian wood?
O que vai acontecer na Coreia
Do Norte? Como os Estados
Unidos e a China
Vão se comportar? Que mundo
Restará para os meus filhos?
She asked me to stay
and she told me to sit anywhere,
So I looked around
and I noticed there wasn't a chair.
Duas semanas atrás
O Governo
Federal
Anunciou a privatização
De mais de cinquenta empresas públicas
Inclusive a Casa da Moeda.
I sat on a rug, biding my time,
Drinking her wine.
We talked until two and then she said,
"It's time for bed".
Quanto tempo
Ainda deveremos esperar
Para chamarmos
Esse país de nosso?
She told me she worked in the morning
and started to laugh.
I told her I didn't and crawled off
to sleep in the bath.
Penso no motor de dobra,
Que ainda é sonho,
Na exploração de Marte,
Que ainda é sonho,
Na cura da AIDS,
Que ainda é sonho,
Na erradicação da fome
Que por opção
Ainda é sonho,
E no Brasil república,
Que ainda é sonho.
And when I awoke, I was alone,
this bird had flown
So I lit a fire, isn't it good,
Norwegian wood?
domingo, 27 de agosto de 2017
Bolinha de Gude
(com Stefanie Pereyra Peralta)
O câncer:
Uma bolinha de gude
Autogerada
Aqui no seio esquerdo
Bem junto
Ao coração.
Eu que queria me sentir necessitada,
Queria ser mãe,
Cuidar amorosamente
Bem junto ao meu colo quente,
Agora triste descubro
Uma nova maternidade
Não do útero
Mas de uma bolinha de gude
Autogerada
Feita de células
Vorazes e imperdoáveis.
Os tratamentos
Sem fim,
Remédios
Sem fim,
Cansaço
Sem fim,
Só o cabelo
Tem fim.
Esse pedaço mutilado de mim
Que quer levar junto a si
O meu ser mulher.
Mas em meio à lama
Descubro
Algo novo,
Em meio às dúvidas
Da maternidade
De uma bolinha de gude irregular
Autogerada,
De repente pude
Ver
A oportunidade de me
Conhecer e ser mais.
Descobri
Algo novo
Que havia dormido
Com a morte da minha mãe.
Ela, que também morreu de câncer,
Quase levou
Meu desejo de viver.
Ela, também mãe de uma bolinha de gude,
Autogerada,
Minha irmã defeituosa,
Me deixou com um ano de dolo,
Um ano de dor,
Até aceitar a sua distância sem fim.
Passaram-se os anos
E de repente a notícia:
Era 2 de setembro de 2016,
Ao lado de Felipe.
Entrei sozinha no consultório
Com a esperança
De não ser nada.
O médico triste:
Seu rosto me disse tudo:
Nena, te dio mal.
Sí, tenés cáncer.
Silêncio, muito silêncio.
A partir disso, tudo mudou.
Tudo foi duríssimo,
Um vidro para o qual se corre
Sem se ver,
Um espelho sem ninguém
Do outro lado,
Cacos
Que rasgaram tudo
Dos pés à cabeça.
O tempo me trouxe
Da morte companhia calma,
Mas por ver a minha mãe,
Tinha medo da dor.
Pouco a pouco alguns focos de luz
Em meio aos óculos baços,
Pouco a pouco alguma nesga de céu
Em meio aos dias chuvosos:
Deixei as pessoas os pesos as correntes
Que me afastavam de mim
E busquei aqui dentro
O diploma de psicóloga,
Busquei aqui dentro
Mais fundo que qualquer agregado imperfeito,
A oportunidade de ajudar as pessoas
Nisso que passo.
O câncer é uma porcaria,
Não posso agradecê-lo,
Mas o que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Não só por mim
Mas por outros,
Outros pais e mães
De filhos autogerados,
O que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Ao lado de Felipe, meu anjo aqui na terra.
Assim, em meio às lágrimas e às dúvidas,
Compreendi que tudo o que fiz
Até hoje
Fiz para ter paz
No momento de partir.
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
Desejo
Quero aquecer minhas mãos em suas coxas
Morrer no cheiro de shampoo do seu cabelo
Tocar o seu corpo entre lençóis e suor
E dentes e línguas
E sentir o seu gozo
Brotando consistente
Do paraíso perdido
Que borbulha em seu baixo ventre
Ondulando entre gemidos
Até acontecer o impossível sorriso
Da entrega sólida
Entre os braços meus.
Sítio Alto da Alegria
(com Luciara Mota)
O valor da liberdade,
Do brincar com terra,
Dos sete irmãos,
Da argila passando entre os dedos.
Certo dia a descoberta:
Mãe, a terra não é suja.
A cor dela que é marrom.
Sem medo cadeado crueldade cobra animal,
Fazendo brinquedos
De galhos folhas frutas.
A minha uma boneca
Dançando em seu concerto
Enquanto a família observava
E eu tocava um piano imaginário de pedra.
Ser diferente
Em meio a um mundo diferente
Em meio aos sorrisos da Biliu
Em meio ao gnocchi da Biliu
Em meio às histórias do sítio
Tão verdades quanto lendas.
Gravei a frase
Que lembra a minha infância:
A liberdade é um vento em que tudo cabe.
Essa fase mágica
Como parte da minha história,
Como parte de um eu que está comigo aonde vou,
Como paredes coloniais descascando,
Como uma jabuticaba farta,
Como um bougainville em flor,
Como uma árvore sem nome que plantei e abraço,
Como um sonho vivo
Enquanto viva
Eu estiver.
Certa Noite
(com Luciara Mota)
O reflexo da luz
Na água
Certa noite me encontrou,
Certa noite me contou
Sobre o seu nome
Incomum,
Certa noite me disse
Sobre a busca do brilho
No outro,
Certa noite me trouxe
Um prisma
A espalhar a luz,
Certa noite me disse:
Eu vivo as histórias fundas todos os dias.
O reflexo da lua na água
Certa noite me disse,
Que a luz está mais funda
Do que nessa superfície,
Certa noite contou
Do dia em que descobriu
Que além de imagem era história,
Além da ilusão há um real,
Além do espelho há o sonho.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Meta
Breve intervalo entre dois silêncios,
Luz de vela em um quarto escuro,
Fôlego em meio ao mar bravio,
Trovão que acende o horizonte,
Terceiro pé do homem, concreta.
Espaço entre o eu e a coisa,
Possibilidade ínfima de troca,
Fundação sólida da Torre de Babel,
Fiel de balança nas mãos da Justiça,
Veneno e remédio, raiz, terra fecunda.
Dela somos servos e senhores,
Escravos e feitores, as dores
Do parto e a beleza do novo.
O ódio só continua vivo
Alimentando-se de si mesmo.
O amor resiste ao tempo e à morte.
A palavra é um instante de amor na língua.
Para o Vô Armando
(com Aline Figueiredo)
Aos domingos
Em Jacarepaguá
A ver
Os bois.
Através das grades
Fazíamos
Juntos
Mu
E sorríamos.
De madeira
E lençóis
As cabanas
No quintal.
Depois do almoço,
Histórias de chapeuzinho
Vermelho
Deitados
Em seu quarto
Na casa dos mananciais,
Na Avenida dos Mananciais.
Quem dormia
Era você
Enquanto eu
Pulava o seu ronco
E corria a brincar por aí.
Eu crescendo
À sombra do seu carinho.
Apenas mais velha
Vi os anos te mastigando
Até aquela prisão
Do seu corpo
Tremendo,
O caminhar
Comprometido,
A fala
Comprometida,
A memória
Comprometida,
A lógica
Abandonada.
A agonia
Da sua tentativa de expressão
Dentro desse escafandro
Vibrando incessantemente.
Levávamos fotos,
Histórias,
Em busca daquele pequeno sorriso
De quando víamos o boi
E fazíamos
Mu.
Foram mais de vinte anos nessa
Descida.
Ao final o sentimento duplo
De te querer perto
E te querer bem
Ainda que para sempre
Longe.
Agora
Apenas a lembrança
Dos seus bigodes cheios,
Do seu abraço protetor
E dessa herança
De um amor
E afeto
Incondicionais.
sábado, 12 de agosto de 2017
Gabriela
(com Ricardo, Marcelo e Andrea)
Nasceu fugida
Da ditadura
Em Tel Aviv
Aconteceu.
Em Berkley
As primeiras letras.
Aos cinco
Campinas.
Então
Araraquara,
São Paulo,
Até o Rio.
Gabriela
De tesouras
E beijos
De altos
E baixos
De amor
E ódio
Simultâneos.
De coração
Grande
O cuidado
Como afeto
Ao outro.
Esse afeto
Amoral
Impensado
De valores
Firmes
Inflexíveis
Talvez exagerado
Pelo outro.
Sua ligação
Intensa:
A oportunidade
De ver
A família
É alegria
A transbordar.
O prazer
De gente,
O encanto
Para um alguém
Novo,
Para um alguém
Outro.
A possibilidade
Da transição
Para um novo eu
Em um novo horizonte,
A paixão
Em um rio de sorrisos
Sem caminho do meio
É ela
Gabriela.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Onde está esse outro?
Neste caderno de pele
E suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Olho e penso
Onde estaria
Esse outro
Com um corpo
De suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Onde estaria
Esse outro
Vivo
Sob o rio de palavras que corre rápido
Onde estaria
Esse outro
Que me olha e pergunta
Onde estaria esse outro
Antes tão perto e distante
Ao alcance da tinta que jorra
Onde estaria esse outro
Nessa noite insone
Onde estaria o poema
E esse outro
Em qualquer outro lugar
Se não aqui?
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Catarse
(Com Ana Donato)
Em um final de tarde
Em uma cidade memórias
Em um espaço transporte
A catarse.
Dois grandes amores
Atravessaram o espaço da lembrança,
Atravessaram o espaço em trânsito
E olhando a paisagem urbana
Pela janela
Após ler poesias
No avião
A catarse.
O choque
A incredulidade
Das palavras nascentes
Tão íntimas
Tão sólidas
Tão concretas
Em meus olhos pálidos
E enfim
Agora tão públicas
Pois fui
Atravessada
Pelo poema.
Andando pela Rua
(com Livia Mund)
Estava eu
Na Costa
Rica:
Deitei
Na minha cama
Na casa
Do hotel.
Quando acordei
Sozinha
Só de calcinha
Preta
Desnorteada
Acordei
Em um país estranho
Acordei à frente
De um varal
Vi uma fronha
Usei de saia
Cobri os peitos
Acordei
Encontrei uma referência
E voltei para a casa
Do hotel.
Em um quarto
Vizinho
Gritava
'Yo necesito ropas'
Alguém me gritava
De volta
Até que na porta ao lado
Minhas amigas abriram a porta
E me confortaram.
Desde então
Todos trancavam
O quarto a casa
E se avisavam:
"A chave está
Naquele lugar que combinamos".
Já tomei banho,
Já andei por aí
E de repente
Os olhos abertos.
À distância
Tem graça,
Mas de perto
Pânico:
O que fizeram comigo?