27/03/1972
Hoje resolvi começar um conto
novo. Os contos que escrevi já não me são suficientes, quero uma nova ideia,
algo pulsante. Ainda não sei bem qual vai ser a história. Penso em um amante de
livros que se apaixona por determinada personagem. Mas tenho dúvidas. Como
deixar a história interessante? Como fazer a engrenagem girar?
Acho que vou usar a metaficção, o
leitor e o personagem se encontrando em algum momento. O que mais gosto na metaficção
é que ela reforça a noção de que a realidade toda ‘realidade’ é uma mera ficção
que se convencionou denominar de outra forma. Gosto da fluidez que a metaficção
permite, gosto do clímax quando as duas esferas – a do autor e a dos
personagens – se misturam. Enfim, tenho que pensar...
28/03/1972
Escolhi o romance que vai ser a
razão da vida do meu personagem: Uma
Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Ele foi escrito há poucos anos atrás pela
amiga de um amigo meu. Acho que pode ser o romance perfeito para a minha ideia.
Ele contém traços existenciais ao mesmo tempo em que possui um quê de
distanciamento e de idealização romântica. Ele se passa aqui mesmo no Rio de
Janeiro. Tive uma ideia que vai ser bem legal: o meu personagem (Maurício?
Gustavo?) vai se envolver tanto com a história do livro que vai reescrevê-la
várias vezes. E em algum momento da história quero colocar algo que mude o rumo
dos fatos. O que?
06/04/1972
A Amelinha andou doente esses
dias, não pude escrever. Fico com pena, ela só tem cinco anos, mas sempre está com
algum problema. As alergias dela são impossíveis, tenho que controlar tudo que
ela come, tudo que ela faz. O Antônio é agitado que nem ele só, mas pelo menos
quase nunca fica doente. Bem, não dá para culpá-los, já sabia o que me esperava
quando engravidei.
É engraçada essa ideia de
engravidar. Às vezes a gente engravida de uma ideia. A gente cuida, acaricia,
passa toda a gestação junto dela até ela nascer. Tem ideias que tem uma
gestação longa, quase interminável. Tem outras que parecem já surgirem com 42
semanas. Na mesma hora que aparecem elas se debatem para vir ao mundo. Esse meu
novo conto foi uma ideia de 42 semanas. Tenho andado angustiada para
escrevê-lo, mas cuidar dos meus filhos não me deixou nem tempo para escrever alguma
coisa por aqui. Espero que agora consiga dar um pouco mais de atenção a ele.
07/04/1972
Nasceu o conto. Não terminei, mas
já tenho alguns temas principais. O personagem central (Gustavo) é apaixonado
por Lóri, a personagem principal de Uma
Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Ele leu o livro várias vezes e é tão
envolvido com ela que quer separá-la de Ulisses (o amante dela no romance).
Então ele decide reescrever o livro, criando um novo final. Sua namorada sente
um pouco de ciúmes, mas acha ao mesmo tempo bonita essa devoção por uma mulher,
ainda que imaginária. Alguma coisa tem que acontecer nesse novo final, não sei
exatamente o quê. Bem, ficou assim:
“Uma Nova Aprendizagem
Gustavo era um homem simples.
Trabalhava em uma repartição, um emprego honesto, um trabalho burocrático, um
salário pequeno mas que pagava as contas. Quando chegava cedo em casa adorava
sentar-se em sua poltrona e ler um livro.
Gostava de literatura
contemporânea, havia se interessado pelo estilo de uma escritora brasileira
chamada Clarice Lispector. Cada novo romance que ela publicava era motivo para
Gustavo correr à livraria que ficava na esquina da sua casa e mergulhar em sua
poltrona, só saindo para ir ao banheiro, dormir ou trabalhar. Até as refeições
ele fazia na poltrona: o livro em uma mão, o talher em outra, o prato apoiado
no colo.
Apesar de sempre ler novos
livros, houvera um romance que não saia de sua cabeça: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Já perdera a conta de
quantas vezes o havia lido. Queria ser Ulisses, queria com todas as forças ter
Lóri em seus braços.
Não tinha como negar: estava
apaixonado por Lóri. Sua namorada – que por ironia do destino se chamava
Clarissa – tinha um pouco de ciúmes, mas no final das contas achava graça
naquela história toda. Sabia que Gustavo tinha um coração bom, o máximo que
poderia acontecer seria que ele a traísse por uma personagem de livro. Não
estaria correndo muitos riscos.
Gustavo estava obcecado com este
romance. Tinha noites insones pensando em Lóri, nos detalhes de sua camisola,
nas mechas do seu cabelo. Aquela mulher profunda precisava ser dele. Mas como?
Foi então que teve uma ideia: ele
mesmo reescreveria a história.”
08/04/1972
Estou ficado cada vez mais
envolvida com esse conto. Nossa! É uma sensação incrível vê-lo nascendo. É
difícil dar profundidade psicológica para os personagens. É uma forma tão
sucinta. Mas ao mesmo tempo é uma forma que permite tanta experimentação, que
consegue englobar tantas possibilidades.
Dormi ontem pensando sobre a
virada da história. Tive uma ideia que acho que vai tornar o conto ainda mais
interessante: vou colocar um pouco de fantástico na história. O fantástico é um
gênero difícil, marcado pela dúvida: será que isso que aconteceu tem uma
explicação racional ou será que foi algo inexplicável, oriundo de um mundo com
outra lógica? Ele é gênero entre o insólito e o maravilhoso. Colocar isso no
conto não vai ser fácil, ainda mais com a minha pretensão de usar a metaficção.
09/04/1972
Pronto, acho que consegui. Metaficção
e fantástico. O conto continua assim:
“Foi então que teve uma ideia:
ele mesmo reescreveria a história.
Na primeira vez que Gustavo
reescreveu a história, ele basicamente trocou o nome do amante de Lóri pelo
seu, mudando algumas pequenas passagens. Terminou com um ar triunfante,
trabalho concluído. Mas ao ler o resultado final, percebeu que faltou
coerência: como ele, Gustavo, funcionário de repartição, poderia ter o conhecimento
de vida e de filosofia que Ulisses tinha no romance?
Ele então buscou alterar ainda
mais a história: Lóri se envolveria por ele desde o início e passaria pelo seu
processo de aprendizagem apoiada nele. Mas faltou algo, o questionamento
existencial, motor da narrativa original, se perdeu.
A partir daí, Gustavo se entregou
febrilmente ao processo de reescrever várias vezes o romance. O resultado final
nunca lhe agradava. Às vezes faltava alguma experiência que Lóri tivera no
romance original que não fazia mais sentido, outras vezes sentia que a
coerência interna se perdia.
Clarissa lia as
várias páginas datilografadas e ria dessa experiência que considerava
inocentemente bela. Percebia que o namorado estava buscando capturar algo
sutil, difícil de definir, quase uma essência da literatura, e que esse projeto
era um círculo do qual não via Gustavo sair tão cedo.
Para retirá-lo
de seu isolamento Clarissa ia até a casa dele, abria a porta girando a chave
com o mínimo de barulho e enquanto ele estava na máquina de escrever falava
palavras doces em seu ouvido. Já se tornara um hábito entre os dois, ele nem
mais se assustava. Após um pouco de insistência, ele, amolecido, aceitava sair,
e eles passeavam no calçadão tomando sorvetes, de mãos dadas. Ela olhava o mar,
as gaivotas voando, os barcos, o sol, o namorado a seu lado, e era feliz. Achava
aquela felicidade suficiente, não precisava de nenhum personagem de romance
para ver que o mundo era belo e que valia a pena.
Certo dia era
aniversário de Gustavo e os dois haviam combinado de jantar na casa dele.
Aproveitando que teria a tarde livre, Gustavo ficou repassando mentalmente
todas as tentativas frustradas de modificar o romance, de fazer Lóri se
apaixonar por ele, de ressaltar suas características mais ressaltáveis. Pensou
em cada pequena coisa de Lóri que lhe deixava perdidamente apaixonado. E então
percebeu que qualquer coisa que ele modificasse no livro ela deixava de ser
Lóri. A solução não estava em modificar o romance, mas sim em continuá-lo.
Após esse
insight percebeu que essa escolha significava deixar Lóri e Ulisses se amarem.
Um profundo ciúme correu por suas veias, corroeu suas entranhas, mas Gustavo se
segurou. Já havia passado quase um ano desde que começara a tentar modificar o
romance, valia a pena tentar. Sentou-se à máquina de escrever e ficou
datilografando por um sem número de horas. As ideias lhe corriam pelos dedos,
as cenas se passavam e ele se sentia cada vez mais próximo de Lóri. Descrevi-a
por completo, e isso lhe dava grade prazer. Um vestido vermelho, uma fita no
cabelo, brincos longos que ressaltavam seu fino e delicado pescoço. Um camafeu.
Foi então que
ouviu uma voz doce lhe dizendo: “Ulisses, eu vim aqui para você”. Quando ele se
virou, não pode acreditar. Ele via Lóri exatamente como havia imaginado. Seu
vestido vermelho ressaltava uma pele suave, um colo de mármore que o decote
deixava entrever, os cabelos longos onde ele desejava morrer mil mortes. Ficou
estarrecido.
Os longos dedos
de mulher passando em sua barba o tiraram daquele torpor. Ele abraçou-a
ferozmente e eles se amaram com uma vontade de saciar uma sede infinita. Estendido
na cama, Gustavo dormiu um pouco. Quando acordou já estava escuro, havia
perdido a noção do tempo. Olhando para seu lado não viu ninguém: será que havia
sido um sonho?
Levantou-se e
foi ao banheiro. Em seguida, pensou em continuar o que estava escrevendo. Ao olhar
para a sua mesa de trabalho, percebeu que todas as páginas datilografadas não
estavam mais ali. Em seu lugar, um delicado e singelo camafeu.”
(...)
12/06/1972
Ontem foi
publicado o conto. Li algumas críticas e elas em geral foram bem positivas, os
temas se entrecruzaram de modo sutil, mas bem conectado. Eu estava relendo o
conto publicado e apreciando o resultado quando alguém bateu em minha porta. Quando
fui abrir, a surpresa: era Gustavo, com um camafeu na mão.
Mário
recostou-se em sua cadeira de espaldar alto e gostou do que via. Aquela
composição multiforme iluminava a tela do seu computador. Tudo em seu devido
lugar. Havia alternado os registros entre primeira e terceira pessoa gerando a
identificação do leitor com a escritora sem nome. ‘O pronome eu pertence a
todos’, repetia-se constantemente, lembrando-se do teórico búlgaro.
Havia apresentado
o processo de escrita ao mesmo tempo em que construía o conto. Fora uma experiência
nova. Iria encaminhá-lo para seu professor, ele que já tinha mais experiência
saberia o que fazer com aquela composição.
Ontem foi
publicado o conto. Mário leu algumas críticas e elas em geral foram bem
positivas, os temas se entrecruzaram de modo sutil, mas bem conectado. Ele estava
relendo o conto publicado e apreciando o resultado quando alguém bateu em sua
porta.