quantas cores tem o girassol de van gogh?
quantos perfumes traz a primavera
a florir despretensiosa?
domingo, 16 de dezembro de 2018
girassol
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
amor de irmão
(com Thaís Mandarino)
eu adoro ter irmão
por mesmo que não seja de sangue
irmão se torna irmandade
o encontro de almas
conhecida há tempos
muito bonita
porque ele compartilha a tua vida contigo
mesmo as mais vergonhosas
as mais impiedosas
você conta
o amor de irmão
muito profundo
marcado de dentro na pele
eu tenho grandes amigos, mas como
dar a vida como se fosse a tua
domingo, 9 de dezembro de 2018
nosso país
do palhaço político
onde o bordão é pior que tá, não fica
vivemos em um país de escândalos de twitter
de juízes políticos
onde o argumento supera o fato
vivemos em um país de escândalos diários
cada dia mais impossíveis
onde esqueceu-se completamente do real
vivemos em um país inverossímil
cada dia mais inacreditável
onde esqueceu-se do simples lembrar
vivemos em um país famélico
de pão e de teto
onde é amarelo o verde-azul
vivemos em um país a latifundiar
qualquer esperança
nesse canto por deus esquecido
vivemos em um país passado
tornado presente
nessa terra formada de sangue e húmus
vivemos um pesadelo sem fim
uma vontade de acordar
desesperadora
vivemos em um pais só fígado
nas fontes pútridas
espalhadas pelas praças
vivemos em um país bad trip
do não pode ser
verdade, isso
vivemos em um país necessidade de dormir
e desligar-se e ao menos amar
e tentar dançar em meio ao caos
vivemos em um país em brasas
ardentes no estômago
vazio talvez para sempre
domingo, 2 de dezembro de 2018
sete
hoje me cuidei
dormi o sono atrasado
tomei meu café
da manhã mais calmo
olhei de xícara na mão
os passantes na rua
hoje acordei
tarde, espreguiçado
o sol mais alto
a barba de baba da noite
o vento do início do verão
hoje fiz amor
sorridente, dei amor
recebi
tirei o atraso de mim
respirei
hoje Internet
não teve salvo por motivo
prático, não teve
ruído, poucas pessoas
na tarde justa
hoje cuidei do meu corpo
tomei meus remédios
todos, na hora certa
comi, bem, saudável
bebi uma água de coco
hoje depois
do almoço a sesta, satisfeito
nu, com o toque do lençol
e da pele quente que me sorria
ao meu lado na cama
hoje lavei louça
ajudei na comida
fui no mercado
caminhei por Copacabana
despudoradamente tranquilo
hoje deixei de lutar
só por hoje
uma pausa, deixei o fim
do mundo depois das flores
penduradas na janela
hoje fiquei feliz
hoje comecei um livro
hoje abaixei a guarda
hoje fiz um poema
hoje pude descansar
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Dark Side
tomo uma cerveja no Osbar
mais uma vez
hoje a trilha sonora é Dark
Side, olho para cima
são linhas paralelas
quase se encontrando no céu
azul quase sem nuvens
tomo uma cerveja no Osbar
outra vez
começou a tocar Money
e me pergunto por que
seria tão importante esse papel
impresso que só compra angústia
ou desilusão
é, aqui no Osbar, tem cerveja
tem uma alegria invisível
ou quase
tem o ponto de fuga
da altura infinita
e acima esta fileira de casulos
quase todos já apagados
quase todos com um tubinho asceptico
mesmo no centro do Rio
de Janeiro, megalópole maníaca
ainda resta alguma pausa
ainda que de roupa social
que ainda despretensiosa
faça algum sentido
o sax e o piano do Us
and Them, acompanham o vento
do final de tarde
enquanto no gramado algumas folhas
novas balançam, enquanto o pedinte de bermuda azul e cachaça na mão
entra nesse poema por ouvir a música
que vocês também
ainda que silenciosamente
estão ouvindo
passam grupos saindo do trabalho
mulheres de salto
poc poc poc poc
homens de calça e camisa e orgulho
vazio, ruidosos homens
ao lado táxis esperam
esperançosamente qualquer um que queira ir para qualquer lugar
mas de mãos dadas às suas
prefiro não
tem alguém na minha cabeça
mas não sou eu
the lunatic is in my head
the lunatic is in my head
ouve seus risos?
venha comigo
ao lado escuro da lua
sábado, 24 de novembro de 2018
dúvida
por que ainda fazer poemas
por que ainda dizer
por que ainda falar alguma
coisa, não deixar-se
calar, por que ainda escrever
qualquer linha que seja
um rasgo no espaço em branco
da página, por que ainda lutar
por que tentar agir
por quem ainda não tem absolutamente
nada, por que ainda
acordar e ficar de pé
levantar-se e caminhar
dar e receber um abraço
um beijo, um toque
por que não simplesmente desistir
entregar-se ao nada
vazio e calmo
por que correr
e não andar devagarinho
passo
antepasso
por que não tentar
observar
a beleza firme da noite
ferina
obscura
e lâmina
e deixar
de perguntar?
domingo, 11 de novembro de 2018
Casamento
na casa da praia
no domingo de sol
à tarde e vento
tudo é possível
na casa do horizonte esmeralda e barulho de mar
o céu se abre
na passagem das nuvens e ondas
nos lírios gigantes
de ontem, era casamento
um pouco de amor nesses dias cinzas
um pouco de alegria desurbanizada
um pouco da mari e do cássio
a voz e violão
a ressaca da festa de ontem
a lembrança de uma noite feliz
estamos juntos
ombro a ombro
sonhando
um novo mundo
sábado, 27 de outubro de 2018
Ho'oponopono
meu antigo relacionamento
nove anos com a ex
e um término traumático
nós quase vizinhos, com amigos
em comum, ela começou a sair
com uma pessoa próxima
a mãe dele, me dizia
Thiago, eu te entendo, se eu fosse
você, eu daria
um soco nele
foram três dias
de um período morte
consumido por uma energia negativa muito forte
eu cheio de ódio saí para correr
na volta, um amigo mandou
ho'oponopono
a ruptura abrupta
de certa forma inexplicável
do ódio à leveza
ho'oponopono
entoando esse mantraum estalo no corpo
uma quebra
ho'oponopono
domingo terminamos,
quarta a notícia do outro
sexta o mantra
após o ódio
um choro de felicidade
um riso
uma ligação para a minha ex
pedindo perdão pelos pensamentos
podem nos fazer mal
mas importa é como recebemos
como reagir ao outro?
então comecei a entender o não
julgar o não
criticar
um mês depois conheci minha esposa
atual, em um samba, a chamei Ana
Luisa, para dançar, e nunca mais
nos desgrudamos
uma sucessão de coisas maravilhosas
tem acontecido desde então
momentos maravilhosos
de energias boas
um ano juntos
meus sogros músicos, pessoas do bem
mesmo que um dia terminemos
nesse curto período de tempo em que estamos juntos
ela tem me ajudado a crescer como pessoa
como ser humano
e eu vejo o carinho que meu filho tem por ela
eu encontrei uma joia
uma água pura no deserto
o carinho, o amor e tudo que ela traz
de bom, um êxtase, uma efervescência
uma sensação de pura
felicidade
Coragem
minha mãe advogada
com um sócio
que começou a sabotá-la
assim que começaram a ganhar dinheiro
na briga
na divisão de processos
a princípio
era assim:
par de um lado
ímpar de outro
mas na calada da noite
ele desviava alguns para ele
ela o desmascarou
ameaçou abrir com barra de ferro o escritório
toda vez que ele fechasse
uma vez
minha mãe toda vestida de branco
roupa, blazer, sapato
cabelo com gel, com joia
em seu maior grau de vaidade
ela me disse:
hoje eu vou de branco
pois hoje quem vai me defender é Oxalá
nesse dia foi um matador de aluguel
no escritório
dois tiros
um na bochecha
e outro na escápula
mas apenas no músculo
minha irmã
que estava no cômodo
ao ver o sangue no blazer branco
gritou: ela morreu
ela abriu os olhos
e disse: não morri
minha mãe cheia de sangue
disse para o motorista da ambulância
passar em frente ao fórum
chegando lá, gritou:
A., eu vou te botar na cadeia!
ele foi preso
o irmão ficou foragido
e morreu
hoje minha mãe continua com o escritório
às vezes é meio loucura
ser corajoso
mas não podemos nos acovardar
em prol da verdade
e daquilo em que acreditamos
Primeira Vez
eu sou de uma cidade pequena
lá do interior de São Paulo
no jardim perto de casa
na sombra da figueira
com onze anos
eu e um amigo
cujo tio trazia uns catecismos
ficávamos sentado na árvore
lendo aquelas revistinhas desenhadas
do Carlos Zéfiro
com onze anos
nunca tinha me masturbado
mas fiquei com aquele negócio na cabeça
aquilo ativava a imaginação
e fui tomar banho
pela primeira vez:
ejaculei
aquele negócio branco
pensei:
pequei!
pequei!
o mundo acabou para mim
fui para o inferno
saí do banheiro com cara de choro
e fui falar com meu pai
- pai, pequei
- pecou moleque?
- fui no banheiro
saiu um negócio branco
dentro de mim
- aaaah, para com isso
só vai com cuidado
no dia seguinte
começou a vida
Um Mexicano
no México, em uma festa
chique
e esse banqueiro mexicano me disse
que queria mudar para os Estados
Unidos
e queria subir de nível
mas eu questionei
perguntei
por que você não quer
ficar no seu país
duvidando
dessa fascinação pelos Estados
Unidos
e ele me disse
para subir
ter um trabalho importante
é diferente da França
posso enfrentar
problemas de corrupção
chantagem
problemas com narcotraficantes
desde então percebi a minha sorte
que não enfrento os mesmos problemas
dos outros
e que existem razões imperceptíveis
à primeira vista
e que devo ouvir mais
sem julgamentos
domingo, 21 de outubro de 2018
a água implícita
(com Natasha)
o que eu mais desejo
o que eu mais tenho
vontade, é aprender a amar
ainda sinto
tanto medo
mas tanto medo
que não deixo
e não consigo
saber
sentir
perceber
qualquer coisa, como é o amor
eu não sei o que é amar
são quase 30 anos buscando
amor
amor
amor
amor
mas quando tu tem a troca
algo acontece com você
e às vezes eu fico pensando
que isso não é para mim
quero saber sentir o que eu sinto
viver com medo é viver sozinha
apenas um ano e meio
convivendo
compartilhando
intimidade
a busca
por mim ainda
não encontrada
é de alguém que me encontre em mim
pois isso é tudo o que eu desejo
só o que eu queria é o cotidiano
compartilhar com alguém
o cotidiano, compartilhar
o todo a vivência o amor
essa solidão absurda
que te deixa paralisada
em face do medo da resistência
da rejeição
tenho um desejo de estar com alguém
um desejo que me move
mas eu mesma me digo
- eu mesma minha inimiga número um -
que não mereço
um sentimento de atraso
uma demora para viver
uma corporidade tardia
apenas uma paixão na vida
com 25 anos
um não namorado incompreendido
da paixão que eu lhe dava
quando tu é mulher
tu não tem desejo tu não pode isso
e então vivi uma demora
para poder desejar
mas agora eu quero pele
eu quero pantufa
eu quero a história da tua vó
eu quero as tuas fotos de família
eu quero o teu dente quebrado na 6a série
eu quero amar
para não existir apenas
mas viver
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
a sinédoque gente
(com Álvaro Braga)
quando você se acha vivo
mas asombra o outro
algo que está morta
está muito mais viva hoje
como algo na história
ou outros tão escuros de luz
tornaram-se
pedra
o rinoceronte brutal
impermeável
de convivência mínima
quando você cospe no próprio coração da sala
um acovardar-se
para enfrentar o oceano
o resseio de se afogar
e de viver pela simplificação
um não amadurecimento talvez
de despossuir
ficar nu
de um mínimo preconceito
de nunca experimentar uma minimamente nova possibilidade
um bombom mínimo
deixado ao lado
um enxergar um pouco além do mínimo
a simplificação extrema dos modos de vida
um não viver nunca uma rota de fuga
que se esquece
do versículo
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Maria vai?
(com Álvaro Braga)
essa viagem foi maneira para caralho
fudemos nossa coluna
mas vivendo mais intensamente com outra pessoa
criamos um vínculo com essa pessoinha
que talvez seja indissolúvel para sempre
aquelas coisas que vão ficar muito marcadas a ferro e fogo
a viagem foi linda pela possibilidade de estranhamento
ser um alienígena de nós mesmos
forçar alguma coisa que possa ser boa
após a barreira inicial
ser intenso no usufruir
ao brincar no parquinho
no videogame
no mergulho naquele momento
absoluto intenso com a pessoa o lugar
a potencialidade máxima do ser vivo
conectando-se com todas as dimensões
mas voltamos e somos macacos sem psicanalista
que necessitamos
de forma
ur
gen
te
canalizar a nossa pouca sapiência
para aprender a viver junto
o limiar que separa
as crianças
dos adultos
os covardes
e os fortes
aqueles que optamos pelo caminho mais difícil
já que há um caminho que precisa ser trilhado
se tivesse
pensamento crítico
será que Maria
iria com as outras?
Disco Voador
os dias de hoje estão
imersos em uma avalanche
rinocerôntica
e a pergunta
que vale um
milhão de dólares
como não alimentar
os rinocerontes?
como não deixá-los proliferar?
essa falta incorrigível
de formação ética
limita qualquer possibilidade
de qualquer problema econômico
esse pêndulo
até que talvez paremos de rodar essa Terra
e repensar os nortes
porque senão
além do fundo do poço
um pântano pegajoso incaminhável irrespirável enxofre um peso nos braços um barro no seu olho
mas aberta a possibilidade
incansável de novos modos de vida
que possam fazer uma quebra
no mundo
para transformá-lo
verdadeiramente
em um paraíso
essa sorte tão grande de uma posição nem tão
perto nem tão
longe do sol
de estar nessa sorte incrível sem perceber
de um bilhete de loteria
premiado
dentro da gaveta
- esquecemos que jogamos -
uma sorte cósmica incrível
(com C.L.)
a sorte
é a possibilidade
de após fazer tantas merdas
e ainda se dar bem
e ser feliz
e sair bem na fita
não ser prejudicado
por fazer tudo o que é contrário ao normal
na minha adolescência
uma amiga porra-loca total
adolescente em Carangola de Minas
família tradicional brasileira
ela saía descompromissada
e os pais não descobriam
e eu não acreditava
e eu inveja
sem poder sair daquele mundo
Carangola de 30 mil habitantes
aquela cidade onde hoje
passeata pró
Bolsonaro
meu pai
por ignorância
mas meu irmão
por mau caratismo
que só agora
eu vi acontecer
de forma tão latente
na minha adolescência
uma menina rebelde
que já questionava
tudo
sem com quem extravazar
até chegar no Rio com 18 anos
então na FND
me descobri
como pessoa, toda a realidade
do mundo, toda a política
e me formei no bar
nas conversas
os amigos até hoje
há outros 18 anos
uma metade tentando se libertar sem conseguir
a cidade inteira vendo novela às 21:00
contestadora de não poder sair por ser mulher
e a outra metade
perseguindo um mínimo de justiça social
igualdade, fraternidade
não a liberdade americana
mas uma liberdade social
à educação cultura saúde
não aguentar ver nenhuma criança em estado de pobreza
quem sabe evoluí
mas espero ser melhor amanhã
para ser um pouco mais feliz
pela felicidade do outro
Tiagão Punk
em Sorocaba
você andava à tarde
e encontrava umas pessoas
meio doidas na rua
e era uma vez o Tiagão
qual Tiagão?
o Tiagão Punk
ele não tinha família
saiu de casa cedo
por ser punk
e andava muito doidão
com algum disturbío
ele andava meio indignte
sempre se virando na vida
enorme gordão careca
sempre em todos os shows de punk
durante o dia você esbarrava
em qualquer rua do centro de Sorocaba
naquelas oito ruas por oito
o Tiagão Punkum quase vereador
ele andava com uma ratazana de laboratório
branca amarrada em uma coleira
dada por um amigo
de repente um tio dele morreu
deixou uma grana de herença
ele comprou um parque de diversões
ao lado do Shopping Sorocaba
ele, mestre de cerimônias do parque
liberava a catraca para meninos de rua
e gente mais pobre
mas as lojas
tinham contratos antigos
e não gostavam
e tinham prejuízo
com os novos frequentadores
um dia
assassinaram ele
dentro do parque
e tudo levou a crer
que foram os donos
das lojas
desde então
uma profusão de discos punk
em homenagem a ele
em 2017 reuniram a galera que conhecia ele
vários punks velhos se encontraram lá
e todos ficaram lembrando deles
e fizeram uma playlist de músicas
e choraram juntos
em homenagem ao Tiagão
um catálogo de contos surreais
as mil e uma noites
do herói anônimo
de Tiagão Punk
Bom senso
ontem
após a conferência com os Seus Putos
que denunciam as práticas genocidas no Rio
de Janeiro, as meninas perguntaram para o público:
quando vocês se sentiram trouxa?
por exemplo:
eu me sinto trouxa
quando eu entro no ônibus e ele custa R$ 3,85
e me faltam dez centavos
voltando para casa eu lembrei de quando meu cachorro
teve um problema para o estômago
no fim de semana logo antes da minha prova para entrar no mestrado
era muito forçoso dar água dar comida
alimentada apenas no soro pelo veterinário
meu cachorro não queria se separar de mim
meu pai aceitou levá-la ao veterinário:
não se preocupa, vou resolver isso
a prova
é importante para você
mas não o fez
ele se enrolou para levar o cachorro doenteao ir no mercado e ver promoção de cerveja
eu me senti muito trouxa
de ter dado essa confiança
após a conversa franca, apesar da falta
de bom senso ele passou
a ter mais responsabiliade
uma semana depois
apesar do soro e da promoção de cerveja
ela se recuperou
Judô
quando eu tinha uns 4
ou 5 anos, minha mãe queria
menina balé
menino judô
meu irmão, dois anos mais velho
foi seguir o seu destino
e fazer judô
em uma turma só de meninos
eles correndo no tatame
descalsos
algo muito tão mais livre leve
que a minha aulinha de balé
após muito bater o pé
na Rua Emmanuel Kant
onde morava
comecei a frequentar o Lar de Meninos Bom Caminho
onde eu e meu irmão íamos para a aula
de judô
o sensei Neuri
ficou encantado
e começou a trazer as filhas
desestabilizando o gênero dominante
eu virei a mascote daquela turma
uma criança muito fofa de franja grande bota ortopédica bochecha grande e sorriso trincado
as pessoas se definem
nome idade endereço profissão
elementos teoricamente dominantes do sujeito
quando olho para a minha trajetória
eu penso: sou judoca
apesar de uma tendinite patelar
que repete a dor
ite ite ite ite
como algo marcado no meu corpo
nós somos muitas coisas
mas o que eu mais gosto de dizer sobre mim
mesma, é que sou faixa preta de judô
um orgulho de me sentir desbravadora
um corpo estranho, forasteira
para algo que sempre deveria ser
normal em nossa sociedade
patriarcal
domingo, 16 de setembro de 2018
o primeiro
(com J.)
eu me mudei para o Rio
por causa de um cara
o meu primeiro,
que eu conheci no Sul
eu tinha pavor de ficar com alguém
mas o escolhi pois tinha certeza de que nunca mais iria vê-lo
mas ele anotou o meu contato
e começou a vir para Santos
ele na porta
e eu falava para minha mãe
dizer que eu não estava
mas eu me apaixonei
e vim para o Rio
de surpresa
sem explicar
- onde você está morando?
- na General Artigas
- é a minha rua
da rua eu o via da janela
mas não deu certo
ele namorando
quis me ver
mas eu me afastei
ano passado ele me procurou em São Paulo
- vamos jantar
- vamos
ele se separou
mas não rolou
nada, me afastei
não dei
atenção, e eu
apaixonada até hoje
eu, penso hoje, como fui
boba, ingênua
ao menos do lado do telefone
ainda vou dizer
eu te amo
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Pedro II
(com Rafael Arruda)
foi lá que eu aprendi
a diversidade
cultural
de renda social de etnia
de realidade
foi lá que eu aprendi
a importância do acesso à educação
às cotas
que apesar de tudo não compensam todas as desigualdades
foi lá que eu aprendi
que tempo histórico não é igual
a tempo cronológico
que tudo que eu aprendi
um dia por mim será esquecido
mas se eu aprender a pensar
que bom
foi lá que eu aprendi
que a nossa sociedade é marcada por uma dicotomia
entre um poder ser
um poder ter
e um nada
uma desesperança
minimamente melhorada
em sala de aula
foi lá que eu aprendi
a cantar a tabuada
a pular pelo telhado do colégio em busca da libertação
a fazer a fantástica guerra d'água
tomando conta do colégio inteiro
com balões d'água, garrafinhas e copos
a planejar qualquer coisa ainda mais fantástica
não por infelicidade ou revolta
mas pela mais pura alegria
por contar as horas por encontrar os amigos
para finalmente viver um momento onde tudo era possível
foi lá que eu aprendi
a ler, mais de uma vez
a entender a multiplicidade de cada palavra
de cada número, conceito, forma, som e cor
a ser eu, me pensar no mundo
foi lá que eu aprendi
o respeito ao próximo
a visão não isolada sobre si
o contato
a tentar ser apenas um pouquinho
melhor
a ver a diferença que nos marca e que nos define
andando lado a lado com o que nos une
foi lá que eu aprendi
a desaprender o preconceito que nos marca
a cada dia nesse mundo injusto
e a importância do próprio desaprender
para sempre