sábado, 26 de maio de 2018

Eu, Ivan Loutfi

(com Ivan Loutfi)

Meu nome é Ivan,
Minha família,
Descendente de árabes,
Meu pai sírio,
Minha mãe
Brasileira,
Mineira,
Tenho um irmão gêmeo,
Sou o mais novo
Em um total de oito,
Cinco irmãs
E dois irmãos.

Nasci no interior
Mas sempre tive vontade
De sair por aí.

Outro grande amor
É a música.
Crio algumas coisas
No piano,
Algumas coisas ruins, algumas
Boas,
A partir de aulas da minha irmã
Leila, e depois fui praticando.

No piano
Dentro da minha limitação
Tenho a liberdade de criar.

Com 16 sai de Teófilo Otoni
Fui para BH
E agora no Rio.

Sou carioca de coração,
Aqui é o meu lugar,
Mas ainda volto
Para visitar a família.

Adoro
A liberdade da viagem
Em uma explosão de sentidos
Até a volta
Cheia de recordações boas
E uma vida com muito sentido.

Esqueci de falar,
Sou geólogo,
E essa é uma forma de entender como o planeta funciona,
Vejo como um corpo,
Uma anatomia,
E nessa profissão quase  religião,
Vejo como somos um fragmento
De algo tão maior,
Representando quase nada
No universo.

Sei lá,
É isso.

MS

(com Bruna Christina)

Eu conheci um menino
Através da minha prima,
De início, não dava qualquer
Importância.

Começamos a conversar
Por mensagem
Às vezes um pouco demorado.

De repente a sua
Atenção me envolveu,
Ficávamos nos falando
Por mensagem,
Mas ao vivo,
Quase nada.

Ele pediu
Para ficar comigo:
Mas pessoalmente não havia
Iniciativa
De ninguém.

Falávamos disso
Pelo celular
Mas eu tímida,
Nervosa,
Me embolava
À sua frente,
E recuava.

Uns dois anos atrás
Na madrugada do ano novo
Sem nunca nenhum
Beijo entre nós,
Ele me pediu
Em namoro.

Eu travei,
Eu queria
Mas não sabia
O que fazer.

Já à tarde
Ele foi lá na rua
Disposto a falar
Com o meu pai.

Ele desistiu
De não receber nada.

Agora
Eu me arrependo
E quero aproveitar cada momento
E não deixar as coisas boas passarem
E não duvidar quando as coisas estão dando certo.

Eu, Renata Barcelos

(com Renata Barcelos)

Eu, com 18 anos,
Gosto de buscar um jeito
Se realizar meus sonhos,
Desejos,
Sou amiga, simpática,
Gosto de ajudar,
Movida por empatia,
Uma bomba de sentimentos
Bons, pelo mundo,
Quero mostrar alegria,
Com meus pensamentos equilibrados
Vou longe,
Mas se não, fico triste,
Quieta,
Mas então vou
Ler
Um pouco, sair,
Com amigos,
E tudo vai ficar bem.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os paletós de Brasília

Hoje é segunda:
Não se encontra
Nenhum
Por aqui.

Terça pela manhã
Lotam o saguão do aeroporto
Reformado,
Privatizado.

Um dia de aperto de mãos,
De saudades forçadas,
Um almoço na asa sul,
À tarde nada muito
Diferente.

À noite
Algumas ligações
E chegam no bar do hotel
Sorrisos fáceis
Que o dinheiro
(não muito limpo)
Compra.

Quarta é igual à terça,
Ou praticamente,
Nesse mar negro-gris
Quase sempre homens
Quase sempre brancos
Carecas-grisalhos
E um pouco
Acima do peso.

Na noite de quarta
Lembranças da terça,
Cai cerveja na manga,
No colarinho suor,
Na televisão um jogo
De futebol qualquer.
Comentários sobre as duas
Ou três mulheres das reuniões
Que eram, pelo menos,
Bonitinhas.

Na quinta a gravata já está
Na mala,
O check-out do hotel,
Parece que tem uma greve por aí,
O check-in no voo,
Os abraços apertados
Agora sim sinceros
Pois fará um pouquinho de falta
Essa disneylândia do cerrado.

Na sexta
Estão na lavanderia
Levados por uma empregada qualquer
Cujo nome nem me lembro.

sábado, 19 de maio de 2018

Sente-se

Dentro do útero piscina
Um calor música umbilical,
Um sonho luz oblíquo,
Jorge, salve Jorge,
Um solo infinito,
Um dissolver da pele,
Daqui de dentro é belo
O mundo, ao menos
Um pouco mais,
Daqui de dentro
Refração,
Ajulejos
Saias
E luminárias
Que esfacelam
O horizonte,
Daqui de dentro
O pulsar
Verticalmente
Impossível,
Daqui de dentro
Rachaduras
E a terra
Que firme
Inobliterada
Surge
E a chuva que cai
Neste espaço singelo
Impressionante
Onda
De absoluto
Sentir.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Quarta no Osbar

Tomo uma cerveja no Osbar.
Hoje é quarta mas ninguém
É de ferro, ao fundo toca um Bob
Dylan, Elvis, e um rock que faz sonhar
Com um tempo um pouco mais
Doce, o copo ainda está
Gelado, o Osmar, querido,
Já deixou a garrafinha de água,
Matamos um pouco as saudades,
E me disse que está pensando
Em ampliar, é sorte esse coração
Poder alimentar mais gente
Sedenta de pão e de luz,
É sorte o tempo ameno
E o relógio ter parado
À espera de uma qualquer
Coisa, é sorte ainda haver céu
E sorrisos brancos à espera,
Não sei se ainda resiste
Qualquer metafísica mas também
Não me preocupo, o pastel chegou,
A cerveja está vindo,
O volume da música aumentou,
É quarta mas estamos no Osbar.

Ainda bem.

sábado, 5 de maio de 2018

Sábado à tarde

É tarde
No condomínio América
Em Del Castilho
O sol já baixou
O céu
Ainda claro mas róseo azul
Crianças jogam futebol
Na varanda uma cabeça apoiada
Em um braço apoiado em uma grade
De uma varanda do segundo andar
Observa as crianças jogando futebol
Um muro
Enorme
De apartamentos
Apenas quatro luzes acesas
Ainda é claro
Apenas quatro vidas visíveis
Do lado de fora
Uma churrasqueira solta suas últimas chamas.
É sábado
As pessoas conversam
Com uma certa
Paixão
Dois amigos sorriem discutindo
O próximo jogo
O horizonte quase
Não mais
Alumia.
É sábado
O dia do descanso chegou
E tudo está bem.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Piaf

(com Álvaro braga)

À sombra
Piaf
É mais
Do que ela mesma

A sombra
É claro
Como conceito
É mais que ela mesma

A sombra
Mundo de possibilidades
É como se não fosse
O que não é

Porque o mundo da vida
Por meio das sombras
Surpreendentemente
Convidativamente
Abandona o não.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Retrato

(com Sergio Allisson)

Ele mora num apartamentozinho
Ela divide com cinco amigas
Ela química
Ele exatas
Ou adm
Cinema ele só conhece
Comercial
Ela não, ela gosta de Almodóvar,
Por exemplo,
Tarantino acha muito violento
Mas sabe o que é.

No final das contas
Ela iria para Indonésia, Marrocos,
Ele só para Miami.
Inclusive ela já foi para Cartagena.

Já fez mochilão pela América
Do sul, já foi ao Peru,
Ela lê Dostoiévski
Ele não lê.

Ela toparia uma relação
Aberta, ela acha que seria possível
Tentar, ele não,
Inclusive
Ele jamais confessaria a ela
Que existe prazer anal
Ele já fumou maconha na vida dele
Mas jamais admitiria que é a favor
Da legalização
Ela não fumou, mas é a favor,
Eles não gostam de luxo
Isso eles tem em comum.

Eles vão dormir na casa dele hoje
Ele mora aqui perto, ela não,
Eles vão andando,
O banheiro deles já uns bons quinze dias
Que não é lavado,
Eles não se importam,
Mas o sexo é muito bom,
Eles tem um encaixe perfeito,
O pau dele é do tamanho que ela gosta,
Inclusive
Porque apesar de tudo
Ele respeita muito o tempo dela,
Isso ela não tem muito do que reclamar não.

Eles vão transar amanhã de manhã
Hoje não
E engraçado que ele é doido para comer uma mulher do trabalho
Mas ele tenta respeitar
Ela por sua vez já deu um beijo em um colega
É bobeira
Mas ele não entenderia.

Mas eu acho
Verdadeiramente
Que eles vão ficar um bom tempo
Mas não muito tempo
Ela sabe que não vai aguentar muito tempo
A caretice dele.

Uma coisa legal que eles fazem
De vez em quando
Eles transam vendo filmes pornôs
Ela gosta de ver uma mulher com dois caras
Para todos os efeitos ele está entrando na onda dela.

Vamos tomar um álcool, né?

sexta-feira, 23 de março de 2018

Gostaria de

Gostaria de
Um livro que fique não deitado
Mas de pé
Que permaneça não deitado
Mas vertical
Enquanto durarem as areias do tempo
Enquanto durarem as palavras
Enquanto durarem as línguas
Escritas ou faladas
Que seja página quando eu for pó
Que seja sonho quando for adeus
Que seja luz quando nem mais
Na escuridão eu puder habitar
Que dure muito, muito mais,
Repleto de arabescos fractais
Vindos de um tempo distante,
Que de tão imperfeito guarde
História, desejos, noites, sei lá,
Que rasgado seja kintsugi,
Falho, frágil, fraco,
Mas com alguma cola dourada,
Que sujo, no lodo, no esgoto,
Ainda guarde algum verso
Passível de sorriso, de choro
Ou de dor.

domingo, 11 de março de 2018

Infância em Sulacap

(com Ana Terra e Clarisse Kloss)

Lá não tinha quase nada,
Tinha muita brincadeira de rua,
Pique pega, pique cola, pique
Esconde, queimado
E futebol.

Bebendo água
Da bica
Para nem entrar
E chegávamos em casa
De pé quente
No piso gelado.

Depois da escola
Sempre tinha alguma criança lá em casa
Porque as mães não podiam vir buscar.

Lá em casa tinha uma escala de banho:
Como todo mundo queria brincar
Ninguém queria ser o primeiro.
Meu pai sorteou:
Ana, Moacyr, Clarisse
E colou na porta do banheiro.
Resolveu.

O Moacyr
Quando começava a bater na gente
Era amarrado na cadeira
E deixado no escuro.

Quando o telefone tocava
Era uma luta
Para ver quem atendia:
Uma puxando o pé da outra,
Se arrastando.
Enquanto isso,
O telefone tocando.

O Fafá estava sempre
Com bolsos cheios de comida
Mas sempre dividia
Com todo mundo.

O Davi uma vez
Atravessando as quatro pistas
Da rua principal
Tropeçou
Mas como não ia conseguir se levantar
Continuou engatinhando.

O mesmo Davi
Em uma das várias vezes que apertamos as campainhas e saímos correndo
Uma lata caiu do seu bolso
E ele teve que voltar.

Jogávamos vôlei na casa da minha mãe
E fazíamos os códigos nas mãos que víamos na TV
- não os entendíamos, é óbvio -
Mas aqueles sinais
Faziam parte do jogo.

Éramos às vezes sádicos
Mas só com as lagartas da casa da minha avó:
Colocávamos no álcool, queimávamos,
Mas só lá.

Nós duas
Colocávamos um mesmo avental
Amarrado
E ficávamos correndo juntas
Para passar o tempo.

Quando abriu a sorveteria
Passávamos o domingo inteiro esperando a hora,
Depois da igreja,
De pedir com os olhos
E a Graça já sabia os sabores sem nem falarmos nada.

Nesses dias se juntavam nove
Crianças
Na casa da vovó Marinete:
Não era muito ordeiro.

Catávamos coquinho
De amendoeira,
Enchíamos sacolas,
E depois comíamos tudo.

Quando alguém tinha que ir no seu Zé ou no seu Horácio
- os dois comércios do outro lado da rua -
Nossa mãe pedia
Na verdade obrigava
A outro ficar sempre de olho
Pela varanda
E ninguém queria
Parar a brincadeira para isso.

Sulacap parecia uma cidade do interior:
Na praça da igreja
Um comércio, um açougue, uma papelaria, uma locadora,
Uma loja de ferragens, uma caixa de correio.

Além da praça
E da academia de polícia,
Tinha um cemitério
Verdinho
Ao lado de um morro verde.

O tédio que tínhamos sempre
Clarisse queria matá-lo subindo o morro
E todo mundo se entreolhava
Nao querendo acompanhar.

Sulacap
Não é um bairro antigo,
Terreno
Da SulAmérica Capitalizações,
Loteado
Recentemente
E as gerações se seguiam
Ainda lá
Uma depois da outra.

Sulacap para a gente
É isso,
A nostalgia de um lugarzinho seguro,
Aconchegante,
Onde toda nossa família estava,
Todo mundo se conhecia.

Hoje não a reconhecemos,
A nossas avós morreram,
Nosso pai não mora mais lá,
Mas Sulacap continua
Nas nossas lembranças.

domingo, 4 de março de 2018

Redenção

Na barra do seu vestido círculo
No seu pé em ponta
No seu sorriso bom dia
No seu pandeiro chorando
Nos seus braços serpentes
No seu corpo negro
E branco e marrom
No seu pescoço pêndulo
Nos seus cabelos teia
Nos seus brincos soltos
E no seu balanço ancestral
A ínfima mas certa
Possibilidade de redenção.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Caetano

Famosos:
Caetano estaciona carro
no Leblon
nesta quinta-feira.

Caetano Veloso se prepara
para atravessar uma rua
do Leblon.

Caetano olha para o fotógrafo
enquanto atravessa a rua
no Leblon.

Caetano espera no estacionamento carioca
nesta quinta-feira
(10).

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Caetano dinossauro

Era o Caetano
Sorrindo
Girando
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Era à noite
Era meu aniversário
Estavam todos
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Havia música
Havia espaço
Havia um horizonte
Lúdico e real
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Pterodáctilo,
Tiranosssssssauro
Tiranossauro!

Alice

Era um balão laranja
Em meio a sala à noite,

Na verdade
Eram três balões laranjas
Girando
Nas minhas mãos
De sonhos na luz da noite
De sorrisos
Dos meus cabelos ao vento.

Agora dois balões
Em meio a sala à noite
Girando.

As palmas,
A garrafa de água de coco
Gelado,
Era o sorriso da Alice,
Era o copo de água de coco
Era o meu vestido balançando
Era a música em banda
Era noite
Uma noite em que fui feliz
Em que fui criança
Em que fui acarinhado
E vi a vida se descortinando
A meus pés.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

É noite

A noite acontecendo
Agora
Em corpos e cores
E suor
A noite acontecendo
Lá fora
E aqui dentro
Também
A noite acontecendo
As nuvens no horizonte
Os corpos
E a noite enfim
Noite
De quaseluz
E quasecorpos
No quasehorizonte
Da noite.

Sangue

A quase não palavra
Antesala do silêncio
Expectativa de algo
Um fio de luz na noite estrelada
Beirada do infinito
De penhasco tão
Acessível e alto
No instante da beira
Da superação do lapso do tempo
Em um instante de espaço
A sangrar
De um coração de boi
Em uma bancada de mármore
Frio
É a vida que sangra
E se desfaz.

Ser gnomo

Um beijo
Do jardim das delícias
Do verde novo
Jardim das delícias
Nesse jardim
De fundo de pedra
E plantas e flores
Um beijo
Do jardim das delícias
De verde roxo amarelo vermelho marrom
Jardim
Um beijo
De um som matinal.

Carnaval

O encontro
Enfim
Do horizonte
Na casa do Bruno
E da Núbia,
O sorriso
É carnaval
Em Santa Teresa
É alegria
Certeza
É toque profundo
Amargo
E sal
Do sorriso
Da Tati
Chegando
Para mais um carnaval
Na casa do Bruno e da Núbia,
Com Adrian e Daniel,
Com Vaz, comigo,
Com batera
Com xequere
Com baixo
Guitarra
E sol
É dia
É enfim
Carnaval
É alma aberta
É grande enfim
É carnaval.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Querer

Eu queria a leveza
Eu queria a praça
Eu queria a música
Infinita
Eu queria o toque
Tão doce
Da ponta dos teus
Dedos
Eu queria teus
Olhos
Paixão
Eu queria teu
Sorriso
Amor
Nesse poema
Enquanto durarem
As palavras.