terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eis o amor

O amor é único
O amor é múltiplo
É cama é cozinha
É prato na mesa
É foda no quarto

É espaço vazio
De repente todo
É vivência inteira
O amor é dor
Que se escolhe

E ponto.

O amor é dó e ré
Dói todo e qualquer
Sou eu só sua
De mar de fel
Vira lua de mel.

O amor é fá e sol
Sorri simples alegre
Sou eu só seu
De céu e de lua
De areia e de mar.

Luz que espraia
Maré de si
e abraça, cala.

O Mar...
A distância mais curta entre sentir e pensar.

Omar Omar Omar
Ramoamar
Palmaramoamar.

Eis o amor
Contradição, paradoxo,
Dúvida certeza,
Troca, olhar,
Amor é sentido,
Início e fim
De nós.

Leve

Leve como a neve
Se eu fosse Dostoievski
Eu faria um fratricídio.

Leve como se deve
Se eu fosse Saramago
Me casava com Pilar.

Pese Fitzgerald
Zelda ao bailar
Em rumos, fios auscultar.

Leve como se neve.

Injusto

A injustiça do Estado
Fere, machuca, dói,
A constante dúvida,
O sempre talvez,
O gás, a nuvem, sem paz.

Quadros brancos,
Sonetinhos bonitos
ABBA
Nossa rima rearrumará
Casas erradas.

Gasolina cerveja cigarro
Sem carro botija e namorado
É tudo sem teto e sem bordado
No meu verso cortado e errado
Tiro porrada e gás tacado.

E borda de verso: cigarro
Dúvida, rima e estado
Sem casa, cerveja, carro
Me perco em sonetos: falo
Sem paz e teto e...

Preto fado, por que?
Então me defronto e se?
Então transpiro, blazé,
Então ninguém vê
A morte progressiva.

Dúvidas

Quais são
As cores
Das folhas verdes
Da Voluntários da Pátria
Às três da tarde?

Quais são
As luzes
Que brilham singelas
Na praça São Salvador
Às seis da manhã?

Como é
O cheiro da aurora
Que contamina e transborda
Na pedra do Arpoador?

Como é
O ultrapassar fluido
Que trespassa e fere
Ao provar a beleza?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Outro

Nessa vida tão intensa
Tão pulsânime
Tão forte
E doce
O outro
Me atravessa.

Quadro

O transbordar
De sons,
De luzes,
De gostos.

Ser criança,
Em um mundo
Novo,
Em um mundo
Cores.

O mundo
Traz
Liberdade,
Infinito,
Impossível.

Estar
E não estar,
Um depósito de lembranças
A se acumular
Transbordando
Futuros.

Mais uma praça

A luz
Sombreando
O verde.

O drama
Do verde
Tronco.

A luz
Da lua
Focaliza
A praça
Iluminada.

O lugar
Em dádiva,
A vontade
De fazer
Som,
De fazer
Música,
De fazer
Poesia.

Não lugar,
Não aqui,
Apenas
Desejos,
Apenas
Vontades,
Apenas
Bem vindo.

Praça

Nesta praça
De luzes e cores
Que atravessam
Uma busca
De contato,
De encontro,
De troca,
De trigo,
De troco,
Uma vontade de manifestar-se,
Uma vontade de aproximar-se
Do núcleo,
A liberdade
É controle ou descontrole?

Neste espaço
De corpos e sons
Que provocam
Uma experiência
De calor,
De movimento,
De caos,
De cantos,
De suor,
A possibilidade do descompartimento,
A possibilidade do compartilhar
A esperança
Em um futuro
Indeterminado.

Neste chão
Provisório
Deixo de ser eu
E passamos a ser nós.
Desconhecer-se
Rumo ao outro,
Rumo à parte
Que a praça te traz.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Praia entre amigos

A curva do mar
Em cores amarelo azuladas
Anuncia o poente.

O espelhar de nós
Nas ondas reflexo
Em movimento.

A música ao fundo,
No horizonte bolas
Convidam.

Corpos, corpos, corpos,
No céu os últimos raios,
Da água o último beijo,

Corpos suados,
Corpos dourados,
O esperado desfecho.

Um sorriso sincero,
O passante de olhar contemplativo
Do mar a calmaria,

Alô mate
Gelado! Kibe, esfiha!
Olha o queijo coalho!

Olha o biscoito Globo!
Faltam três
Pra acabar!

O sol já se foi
Mas a areia continua
Quente,

O dia já se foi
Mas a alma continua
Quente,

O cheiro já se foi
Mas a pele continua
Quente,

Meu amor já se foi
Mas eu continuo
Quente,

Os primeiros pingos
De chuva avisam:
É terminado o domingo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Tempo

As tuas feridas
Ainda estão
Abertas?

As minhas
Como pústulas purulentas
Amarelo avermelhadas
Me lembram de estar vivo
A toda hora.

Sinto em meu corpo
Ainda o peso do teu
Quando em movimentos agonizantes
Iluminados pela penumbra
Buscávamos a morte.

A minha pele ainda cheira
À tua
Nessa mistura
Onde não mais me reconheço
Pois não sou, somos.

Ou éramos.

Me viro na cama
E não encontro
O teu pescoço lêmure
Onde cavava sete palmos
Em busca de ti.

Vou à cozinha
E não encontro
Os teus olhos águia
Que me despiam
As roupas e a alma.

Mas tudo bem,
Você passará.
Tudo bem,
As saudades,
As levará
O tempo.
Eu tenho
Os dias
A meu favor.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A palavra

Instante singelo
Entre dois
Silêncios.

Sol de inverno,
Lua nova
Em noite escura,
Vento novo
Em barco
À deriva,
Costa
Sorrindo o horizonte,
Do nadador a beira,
Firmamento
Em meio
Ao nada,
Música
De um mundo mudo,
Pão de luz
Cozido no forno de deus,
No início era ela,
Seu suspiro último
Será o nosso.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Amor

Amor
Não é
Função
Unívoca.

Amor
É entrega
Não é excludente,
Não pede
Nada,
É eterno
Em cada um
Dos seus
Momentos.

Caralho!
Limitaram
O amor.

O amor é mais,
O amor é o impossível,
O amor é o bem,
O amor é simultâneo
A cada um
Dos seus minutos.

O amor não
Se relaciona
Com o tempo.
É o despertar
Instantâneo.

O amor
Não tem
Indivíduo.

Porto

Chama o anjo da morte,
Frio, taciturno,
Chama o fim dos tempos,
Horizontal, sedento,
Mas encontro o seu corpo
E descanso.

A dúvida, o talvez constante,
O desmanche dos sonhos
De uma sociedade
Melhor, mais justa e humana,
Mas deito a cabeça em seu colo,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E fecho os olhos pesados
De tantas noites insones.

O mundo cada vez mais
Com menos respostas,
Lá fora a guerra,
Lá fora a democracia
Morreu,
Mas estamos aqui dentro
Nesse quarto,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E relaxo os braços pesados
De tanto lutar.

Lá fora não há mais quimera,
Lá fora impera a dor
Desigual, como cada vez mais
Esse mundo, lá fora o nada,
Mas estamos aqui dentro
Nesse quarto,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E relaxo os ombros pesados
E durmo.

Dança

O dia e a noite
Juntos,
O sol sob o meu
Corpo,
A chuva fria
De verão,
O vento em
Meus cabelos,
O desejo
Do mundo,
O estremecer
Da alma,
O brilho
Nos olhos
Quentes,
O agora
Acontecendo
Na entrega
Ao todo
E ao nada.

Dançarina

Nesses olhos
Castanhos
E grandes,
Nessa respiração
Funda,
Nesse sorriso
Simples
De dores imaculado,
Nesse caleidoscópio
De eus,
Nessas unhas
Recém vermelhas,
Nesse estado de espírito
De corpo em movimento
A dança te busca
E te encontra
Disponível.

O sonho móvel
Se realiza,
O corpo orgânico
É técnica,
A alma pluma
É dança,
E brilham
Juntos
Como necessidade
Apaixonadamente.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Você

Eu olho você
E vejo
Uma pergunta
Ambulante,
Uma dúvida,
Um talvez,
Um não
Sei,
Um quem
Sabe,
Um
Um dia,
Uma incógnita,
Uma incógnita,
Um possível,
Um possível!
Um convite
De última hora,
Um enigma,
Uma esfinge,
Uma esfinge!
Uma esfinge
Faminta,
Um jogo
Invencível,
Uma entrega
Inesperada,
Um caminho
Sem fim,
Labirinto,
Lá
    Bi
         Rin
                To,
Uma estrada
De terra,
Um convite
Singelo,
Um pedido
Enfim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Beleza

A beleza
De uma gota de chuva
Não cabe
Nas margens estreitas
Do papel.

A beleza
De um sopro de vento
Não cabe
Nas palavras estreitas
De um verso.

A beleza
De um raio de sol
Não cabe
No espaço estreito
De uma página.

A beleza
De um horizonte aberto
Não cabe
No sorriso singelo
De um amor.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Jardim das Delícias

Navego
Na tormenta
Nas vagas
Enormes
No descompasso
Sem fim.

É preciso
Aprender
A ficar submerso
- li outro
dia -
E então
Submerjo.
Fundo.

O corpo
Jogado
Em meio a esse
Furacão
De casas,
De dores,
De sonhos
E esperanças.

Quando quase
Entregue
Chego
Ao olho
E descubro
Que surpresa!
Quão amenos
São os ventos
No olho
Do furacão.

Olho a minha volta:
Imagens
Lembranças
Memórias
Giram
E eu fico tonto.

Mas surge uma nesga de céu
E inconsequente,
Lacrimejante,
Me ajoelho
E retiro do peito
O coração
Pulsando.

Ofereço ao céu
Ao vento
Ao todo
E mordo-o
Com força.

Seu sangue escorre de minha boca
Banha meu peito
E pinga
Na terra seca.

Pouco a pouco
Nesses pontos rubros
De sangue e lágrimas
Nascem brotos
De girassóis
E nasce firme
Um jequitibá-rosa
Imponente,
Majestoso.

Os girassóis se espalham
Rapidamente,
Novas árvores
Palmeiras, ipês,
Tamarindeiros, mangueiras, cajueiros,
Crescem fantásticos
Em torno a um lago
Que brota
Do centro da terra.

O vento
Calmo
As faz
Balançar.

Pouco a pouco
Esse círculo mudo
Cresce,
Se alarga.

Ainda com o coração
Na mão
Recoloco-o no peito aberto
E o cubro com as folhas
Que o doce vento
Me traz.

Como frutos
Tão sinceros
Que a sua verdade
Me preenche.

Corro em direção à borda dessa pupila cega
E pulo.
Agora sei.
Sempre que
A vertigem
Voltar
Aqui estarei
No âmago,
No centro,
Nesse jardim.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Mundo

Mundo
Me curve
Me embale
Me dance
Contigo.

Mundo
Me munde
Me chame
Me mande
Sou teu.

Mundo
Me mova
Me movimente
Me milimetre
Somos um.

Vertical

A verticalidade
Chama,
A verticalidade
Convida,
A verticalidade
Balança.

A verticalidade
Entrega,
A verticalidade
Ultrapassa,
A verticalidade
Conecta.

A verticalidade
Impossível,
A verticalidade
Improvável,
A verticalidade
Acontece.

Ah verticalidade,
Desperte,
Ah verticalidade
Me busque,
Ah verticalidade
Me horizontalize.