terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Jardim das Delícias

Navego
Na tormenta
Nas vagas
Enormes
No descompasso
Sem fim.

É preciso
Aprender
A ficar submerso
- li outro
dia -
E então
Submerjo.
Fundo.

O corpo
Jogado
Em meio a esse
Furacão
De casas,
De dores,
De sonhos
E esperanças.

Quando quase
Entregue
Chego
Ao olho
E descubro
Que surpresa!
Quão amenos
São os ventos
No olho
Do furacão.

Olho a minha volta:
Imagens
Lembranças
Memórias
Giram
E eu fico tonto.

Mas surge uma nesga de céu
E inconsequente,
Lacrimejante,
Me ajoelho
E retiro do peito
O coração
Pulsando.

Ofereço ao céu
Ao vento
Ao todo
E mordo-o
Com força.

Seu sangue escorre de minha boca
Banha meu peito
E pinga
Na terra seca.

Pouco a pouco
Nesses pontos rubros
De sangue e lágrimas
Nascem brotos
De girassóis
E nasce firme
Um jequitibá-rosa
Imponente,
Majestoso.

Os girassóis se espalham
Rapidamente,
Novas árvores
Palmeiras, ipês,
Tamarindeiros, mangueiras, cajueiros,
Crescem fantásticos
Em torno a um lago
Que brota
Do centro da terra.

O vento
Calmo
As faz
Balançar.

Pouco a pouco
Esse círculo mudo
Cresce,
Se alarga.

Ainda com o coração
Na mão
Recoloco-o no peito aberto
E o cubro com as folhas
Que o doce vento
Me traz.

Como frutos
Tão sinceros
Que a sua verdade
Me preenche.

Corro em direção à borda dessa pupila cega
E pulo.
Agora sei.
Sempre que
A vertigem
Voltar
Aqui estarei
No âmago,
No centro,
Nesse jardim.