sábado, 21 de janeiro de 2017

Porto

Chama o anjo da morte,
Frio, taciturno,
Chama o fim dos tempos,
Horizontal, sedento,
Mas encontro o seu corpo
E descanso.

A dúvida, o talvez constante,
O desmanche dos sonhos
De uma sociedade
Melhor, mais justa e humana,
Mas deito a cabeça em seu colo,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E fecho os olhos pesados
De tantas noites insones.

O mundo cada vez mais
Com menos respostas,
Lá fora a guerra,
Lá fora a democracia
Morreu,
Mas estamos aqui dentro
Nesse quarto,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E relaxo os braços pesados
De tanto lutar.

Lá fora não há mais quimera,
Lá fora impera a dor
Desigual, como cada vez mais
Esse mundo, lá fora o nada,
Mas estamos aqui dentro
Nesse quarto,
E tudo vai ficar bem,
Você me diz,
E relaxo os ombros pesados
E durmo.

Dança

O dia e a noite
Juntos,
O sol sob o meu
Corpo,
A chuva fria
De verão,
O vento em
Meus cabelos,
O desejo
Do mundo,
O estremecer
Da alma,
O brilho
Nos olhos
Quentes,
O agora
Acontecendo
Na entrega
Ao todo
E ao nada.

Dançarina

Nesses olhos
Castanhos
E grandes,
Nessa respiração
Funda,
Nesse sorriso
Simples
De dores imaculado,
Nesse caleidoscópio
De eus,
Nessas unhas
Recém vermelhas,
Nesse estado de espírito
De corpo em movimento
A dança te busca
E te encontra
Disponível.

O sonho móvel
Se realiza,
O corpo orgânico
É técnica,
A alma pluma
É dança,
E brilham
Juntos
Como necessidade
Apaixonadamente.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Você

Eu olho você
E vejo
Uma pergunta
Ambulante,
Uma dúvida,
Um talvez,
Um não
Sei,
Um quem
Sabe,
Um
Um dia,
Uma incógnita,
Uma incógnita,
Um possível,
Um possível!
Um convite
De última hora,
Um enigma,
Uma esfinge,
Uma esfinge!
Uma esfinge
Faminta,
Um jogo
Invencível,
Uma entrega
Inesperada,
Um caminho
Sem fim,
Labirinto,
Lá
    Bi
         Rin
                To,
Uma estrada
De terra,
Um convite
Singelo,
Um pedido
Enfim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Beleza

A beleza
De uma gota de chuva
Não cabe
Nas margens estreitas
Do papel.

A beleza
De um sopro de vento
Não cabe
Nas palavras estreitas
De um verso.

A beleza
De um raio de sol
Não cabe
No espaço estreito
De uma página.

A beleza
De um horizonte aberto
Não cabe
No sorriso singelo
De um amor.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Jardim das Delícias

Navego
Na tormenta
Nas vagas
Enormes
No descompasso
Sem fim.

É preciso
Aprender
A ficar submerso
- li outro
dia -
E então
Submerjo.
Fundo.

O corpo
Jogado
Em meio a esse
Furacão
De casas,
De dores,
De sonhos
E esperanças.

Quando quase
Entregue
Chego
Ao olho
E descubro
Que surpresa!
Quão amenos
São os ventos
No olho
Do furacão.

Olho a minha volta:
Imagens
Lembranças
Memórias
Giram
E eu fico tonto.

Mas surge uma nesga de céu
E inconsequente,
Lacrimejante,
Me ajoelho
E retiro do peito
O coração
Pulsando.

Ofereço ao céu
Ao vento
Ao todo
E mordo-o
Com força.

Seu sangue escorre de minha boca
Banha meu peito
E pinga
Na terra seca.

Pouco a pouco
Nesses pontos rubros
De sangue e lágrimas
Nascem brotos
De girassóis
E nasce firme
Um jequitibá-rosa
Imponente,
Majestoso.

Os girassóis se espalham
Rapidamente,
Novas árvores
Palmeiras, ipês,
Tamarindeiros, mangueiras, cajueiros,
Crescem fantásticos
Em torno a um lago
Que brota
Do centro da terra.

O vento
Calmo
As faz
Balançar.

Pouco a pouco
Esse círculo mudo
Cresce,
Se alarga.

Ainda com o coração
Na mão
Recoloco-o no peito aberto
E o cubro com as folhas
Que o doce vento
Me traz.

Como frutos
Tão sinceros
Que a sua verdade
Me preenche.

Corro em direção à borda dessa pupila cega
E pulo.
Agora sei.
Sempre que
A vertigem
Voltar
Aqui estarei
No âmago,
No centro,
Nesse jardim.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Mundo

Mundo
Me curve
Me embale
Me dance
Contigo.

Mundo
Me munde
Me chame
Me mande
Sou teu.

Mundo
Me mova
Me movimente
Me milimetre
Somos um.

Vertical

A verticalidade
Chama,
A verticalidade
Convida,
A verticalidade
Balança.

A verticalidade
Entrega,
A verticalidade
Ultrapassa,
A verticalidade
Conecta.

A verticalidade
Impossível,
A verticalidade
Improvável,
A verticalidade
Acontece.

Ah verticalidade,
Desperte,
Ah verticalidade
Me busque,
Ah verticalidade
Me horizontalize.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Musa

Venha musa,
Venha,
Por ti
Me derreto,
Me desfaço.

Venha,
Me imante,
Me ultrapasse,
Me trespasse,
Me desfaça.

Venha,
Me mate,
Assassine,
Em busca
Da tua palavra

Certa, precisa,
Que transforme
A coisa
Em verso.

Venha,
Sonho por ti,
Vivo por ti,
E quando te encontro
Sou todo.

Leitor

O meu verso
O teu eco,
A minha vida
À tua convida,
Estas palavras
Que brilham
E voltam.

Quero
Que o teu
Sonho
Aqui
Apareça.

Que o teu horizonte
Seja o meu horizonte,
Que nesse barco
Poético
Tu sejas eu
E eu seja nós.

Fogo

Eu olho
O fogo
Ele olha
Para mim.

Sanguíneo

A fímbria da vida,
O convite
De ir
Além do hoje.

A possibilidade
Nova
Que se desdobra
No ar.

Um novo novo
Começa
Quando se abre
O olhar.

O deslizar
Suave
Da pele
Saindo
De si
Rumo
Ao todo
Enfim.

A inteireza
Da vida
Sólida
A brilhar.

O gosto
Espesso
Do sangue
Na boca
A borbulhar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Mundo

O mundo
Um grande brilho
Um grande encontro
Uma grande música
Silenciosa.

Este mundo
Uma grande possibilidade
Uma grande verdade
Um pequeno vento
Delicioso.

Ah, o mundo
Uma grande contradição
Uma grande conquista
Da grande entrega
Rumo
Ao talvez.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fracta

Uma parte de mim
Saudades
Uma parte de mim
Futuro,
Uma parte de mim
Duvida
Outra parte
Exclama,
Uma parte de mim
Chora,
Outra parte
Canta.

Uma parte de mim
Dorme
Uma parte de mim
Corre,
Uma parte de mm
Enfim
Outra parte
Ainda,
Uma parte de mim
Belo
Outra parte
Ética.

Uma parte de mim
Brasil
Uma parte de mim
Mundo,
Uma parte de mim
Senil
Outra parte
Escritório,
Uma parte de mim
Febril
Outra parte
Mar.

Uma parte de mim
Baia
Uma parte de mim
Além,
Uma parte de mim
Lesma
Outra parte
Voa,
Uma parte de mim
Suja
Outra parte
Apresentável.

Uma parte de mim
Rima
Uma parte de mim
Prosa,
Uma parte de mim
Verso
Outra parte
Margem,
Uma parte de mim
Escreve
Outra parte
Se perde.

Uma parte de mim
Amor
Uma parte de mim
Dor,
Uma parte de mim
Sonha
Outra parte
Corpo,
Uma parte de mim
Sexo
Outra parte
Horizonte.

Uma parte de mim
Lambe
Uma parte de mim
Sangue,
Uma parte de mim
Range
Outra parte
Liso,
Uma parte de mim
Siso
Outra parte
Livre.

Uma parte de mim
Baixo
Uma parte de mim
Mesa posta,
Uma parte de mim
Gosta
Outra parte
Vômito,
Uma parte de mim
Lodo
Outra parte
Todo.

Uma parte de mim
Grita
Uma parte de mim
Forte,
Uma parte de mim
Arte
Uma parte de mim
Morte,
Uma parte de mim
Fica
Uma parte de mim
Parte.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Volta

Brilham
De volta
As cores
Suaves
Do infinito.

O mundo
A dor
A guerra
Intervalam.

Mas o belo
O sublime
O ritmo
E a rima
Voltam.

A miséria
A injustiça
O poder
Desmesurado
Intervalam.

Mas o infinito
Aguarda.
Não tem pressa :
Estará
Lá
Para sempre.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Eco

Um barco feito de sonhos
Uma nave lua de nuvens
Um convite pedra lisa
Um pedido voz brilhante.

Por que acontece
Por que existe
Por que insiste
Em admirar.

Pois acontece
Pois tão onda
Pois tão areia
Pois tão mar.

São

A poesia homenagem
Ao momento disperso
Ao momento tão certo
Da sincera homenagem.

A possibilidade tão certa,
A pergunta tão perto,
A luz tão sincera
De um retrato tão belo.

A música tão simples
De uma conversa transversa
Em acordes suaves

A rima singela
De uma conversa doce
Da vida contínua.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Que mundo

Que mundo é esse
Em que hoje vivemos?
Que mundo é esse
Em que os senhores da guerra
Novamente
Saem
De suas casernas
Com botas lustrosas,
Sorrisos lustrosos
E ternos engomados?

Que mundo é esse
Em que os senhores do poder
Novamente
Saem
De seus covis
Defendendo
O interesse
Do povo
Quando esse povo
Há muito
Não é ouvido,
Há muito
Pede
E há muito
É silenciado?

Que mundo é esse
Em que lá de Brasília
Surgem novos projetos
Novas emendas
Novas ideias
Requentadas
Adormecidas
Há décadas
Buscando
Um novo amanhã
Que nos levará
Ao ontem?

Que mundo é esse
Em que cada dia
Mais e mais
Somos bombardeados
Com a novidade do dia
O corrupto do dia
O desvio da merenda
O desvio da saúde
O desvio da previdência
O desvio da construtora
O desvio da empreiteira
O desvio do metrô
O desvio das joias
O desvio do Estado
Que se torna
Um governo
Após o outro
Após o outro
Após o outro?

Que mundo é esse
Em que cada governo
Novo
Surge
E mais outro
E mais outro
E nos perguntamos
Como chegamos
Até aqui?

Que mundo é esse
De jantares
Festas
Comemorações
Por um ano
Que
(Glória a deus
Nosso senhor
Há de abençoar
Essa terra
Prometida)
Acabou
Mas temos 
Mais um ano
Pela frente
E mais um ano
E mais um ano?

Que mundo é esse
Cuja única esperança
É podermos retornar
Ao sonho
Do amanhã
Que tínhamos ontem
E não
Trinta anos atrás?

Que mundo é esse?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Vozes

Ouço
Vozes.
De um lado
Fico,
De um lado
Parto,
De um lado
Sigo em frente.

Vozes,
Ouço
Vozes.
De um lado
Nado,
De um lado
Voo,
De um lado
Caminho.

Vozes
Vozes
Vozes
Ouço vozes,
De um lado
Pedra,
De um lado
Água,
De um lado
Carbono.

Vozes! Vozes!
De um lado
O nada,
De um lado
O todo,
De um lado
O agora.

Duplo

O gosto
Sincrético
Da vida,
As ondas
De luz,
As ondas
De tons.

O gosto
Agridoce,
Os acordes
Alegres,
Os acordes
Doces
Da vida.