terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Na Catraca


Da série crônicas de uma repartição
Na Catraca

Afrânio acordou como sempre acorda, após dormir como sempre e começar sua rotina, como sempre. Levantou-se da cama, escovou os dentes, lavou o rosto e ligou o rádio. Mariana, sua esposa, tinha um sono pesado, não se incomodava nem um pouco com o barulho, ela que ia mais tarde para o trabalho e assim ganhava meia hora de sono, preciosos trinta minutos, mil e oitocentos segundos de um sono angelical.

O rádio ficava sempre sintonizado na mesma estação, de música clássica. Tocava uma sinfonia de Beethoven, talvez a quarta. Afrânio tomava seu banho e se perfumava com água de colônia, toque de requinte dos homens de bom gosto. Sua alimentação saudável contribuiu para que ele chegasse nessa idade de 62 anos parecendo muito mais jovem. Sempre que faziam algum comentário sua jovialidade ele enchia o peito e ficava todo orgulhoso, comentando posteriormente o ocorrido com sua mulher.

Há 35 anos ia para esse mesmo banco. Gostava do seu trabalho, já tinha feito as mais diferentes atividades que se pode imaginar. Muitas pessoas que haviam ingressado com ele já não trabalhavam mais lá, mas Afrânio gostava das novas gerações, cheia de vida e energia.

Após seu café balanceado ele colocava sua roupa de trabalho e tomava o metrô em direção à Carioca. Ainda vazio naquele horário, às vezes dava a sorte de conseguir um lugar sentado e prosseguir com sua leitura matinal, que variava entre os mais diversos temas, de antropologia a botânica. “Por que não?”, se perguntava ele.

Chegando sempre pontual sacou seu crachá e foi passá-lo na catraca. Ela emitiu um ruído estridente e acendeu uma luz vermelha. “Que estranho...”, pensou. Tentou novamente e novamente o mesmo ruído, a mesma luz. Os olhos do segurança se encontraram com os dele, que limitou-se a dar um sorriso tímido. Tentou novamente e nada, ruído, luz vermelha. O segurança perguntou:

– Posso lhe ajudar?
– Não sei, meu crachá funcionou ontem. Não sei o que aconteceu.
– Talvez seja a catraca, tenta outra.

Trocou de catraca, não sem os olhares reprovadores das pessoas que começavam a acumular atrás dele. Tentou novamente, um pouco tenso. Nada, luz vermelha, ruído. Começou a ficar nervoso, afrouxou um pouco sua gravata e foi para mais uma catraca. Ruído, luz vermelha. Se deu conta que das quatro catracas já tentara três, havia uma última esperança. Ansioso, posicionou com cuidado seu crachá na leitora, ruído, luz vermelha.

– Meu senhor...

Sem deixar o segurança terminar, lembrou-se de súbito que havia um grupo de quatro catracas do outro lado. Atravessou o saguão a passos largos, e tentou as quatro uma a uma. Nenhuma deu nenhum sinal diferente além do mesmo ruído, da mesma luz vermelha. O segurança estranhando o comportamento desse senhor havia seguido-o pelo saguão e já se preparava para segurá-lo pelo braço mas, em última tentativa com um especial apelo à polidez, falou:

– Senhor, por favor, dirija-se a uma de nossas atendentes e tenho certeza que ela poderá ajudá-lo.

Contrariado, mas sem nenhuma outra saída, Afrânio seguiu o conselho do homem e falou com uma das atendentes:

– Como posso ajudá-lo?
– Não entendo o que está acontecendo, ontem mesmo funcionava, tenho esse crachá desde que esses cabelos ainda eram completamente negros. Nunca deu um problema e agora não consigo entrar.
– Só um instante.

A atendente consultou os dados do Sr. Afrânio Bastos no sistema e lhe informou dos resultados.

– Meu senhor, você agora está aposentado, temos um outro crachá quando um aposentado vem nos visitar.
– Tem certeza?
– Do crachá? Sim...
– Não, sobre eu estar aposentado.
– Tenho sim, desde ontem, está aqui no sistema. O senhor vai querer o novo crachá?
– Não precisa não minha filha. De repente me senti cansado, acho que vou voltar para casa e dormir um pouco.

RJ, 14/03/2011