sábado, 13 de maio de 2017

Canga ao lado

Mulher
Do corpo tão belo
Da canga ao lado
Que dorme
E sorri.

Mulher
Da pele morena
Que pulsa
E respira
Ainda
Aqui.

Te canto
Em versos
Para sempre
Estares
Ainda
Aqui.

Me espanto
Do horizonte de areia
Um pouco mais curvo
Pelo bem que te vi.

Praia

Os banhistas
Se embanham
De mar.

As areias
Se ventam
De sol.

As ondas
Se quebram
De luz.

Os cantos
Se tocam
Enfim.

Praia

Os banhistas
Se embanham
De mar.

As areias
Se ventam
De sol.

As ondas
Se quebram
De luz.

Os cantos
Se tocam
Enfim.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Vulnerabilidade

Estar
Vulnerável,
Ser
Frágil
Será
Ser
Fraco?

A razão
Me incomoda,
Qual
O perigo
De ter
A possibilidade
De trocar?

Por que
É importante
Estar forte?

Não
Morar
Com ninguém,
Um colchão
Roupa
Na mala,
Mas onde
É casa?

O não vulnerável
É distância,
O não vulnerável
É proteção,
O não vulnerável
É a casca,
O não vulnerável
É um muro
A ser ultrapassado.

(com Juliana Jonas)

Oitava arte

O brilho escuro
De música para surdos,
Dança para aqueles
Que dormem,
Pintura para cegos,
Estátuas
Para quem parte.

O alarido silencioso
De espaços para o vazio 
Versos
Para quem prosa
E histórias para nos recordamos
Da nossa miséria humana.

O colorido
Da noite inequivocamente
Possível,
Da batida quebrada,
Do solo de sopros
E cordas,
Dos olhos fechados
E da alma aberta.

sábado, 6 de maio de 2017

Como amar esse coração?

Como amar
Um coração
De terra seca
Que não sabe amar?

Como amar
Um coração
Que de ter chorado
Tanto
Guarda cicatrizes
Montanhosas
A se ultrapassar?

Como amar
Esse coração
Que se diz
Feliz
Sozinho
Mas volta
E a qualquer instante
Sem paciência
Se vai?

Como amar
Tal coração
Que diz
Que se ama
Mas no fundo tem medo
De qualquer amar?

Como amar
Com o coração sincopado
Esse outro
Coração
Que às onze horas da noite
Lateja
E às nove
Da manhã
Silencia?

Como amar
Essa encosta
Da mais pura erosão
Destruindo casas e sonhos
E sorrisos e futuros?

Como amar
Essa aridez sem fim
Após tanto plantar,
Após tanto regar,
Após tanto cuidar?

Se amar é
Querer bem,
Amar esse coração
É saber deixar ir.
Esse coração não se ama
Mas se afoga
No rio do esquecimento.

Quando

Quando eu me
Perdi,
Perdi
A pessoa
Que eu era?

Angústia,
Ansiedade,
Expectativa,
Questão:
Quando mudou?

O novo
O encontro
Como
Próspera
Possibilidade.

(com Juliana Cardoso)

Revolução

Ah, a loucura
Essa terra sem forma
De cores e sangue.

Esse céu em trevas
E sons em eco
Do fundo de uma caverna.

A luz em chamas
Da noite brilhante
Do horizonte de corpos.

A revolução me chama
A mudança em curso
Que desce a montanha.

(com Ana Paula Donato)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A terra onde nascem as metáforas

A terra onde nascem
As metáforas
Borbulha de sangue.

A terra bendita
maldita
Balbuceio e cores.

O rio sem margem
intervalo
entre silêncios.

O mar bravio
oceânico
Da nascente palavra.

A mordida forte
No coração
Pulsando sentindo.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Bem vinda

Bem vinda
De volta
Beleza,
Bem vinda
A mãe
Natureza,
Bem vindo
O vento
E o som,
Bem vindo
Horizonte
De tons,
Bem vinda
A linha
Da vida,
Bem vindo
O sonho
Acordado.

Quadras

A vida
Ainda
Ao fundo
Brilha.

A vida
Ainda
Ao fundo
Canta.

A vinda
Ainda
Convida
Cantar.

A vinda
Tão linda
Do doce
Fim mar.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Possibilidade

Os seus cabelos de sol dariam um poema,
Os seus lábios grossos dariam um poema,
Os seus olhos curvos dariam um poema,
Os seus seios transbordantes dariam um poema.

O seu canto na manhã daria um poema,
O seu sopro doce daria um poema,
O seu pescoço quente daria um poema,
O seu gozo perto daria um poema.

As suas pernas longas dariam um poema,
As suas dúvidas fundas dariam um poema,
As suas orelhas úmidas dariam um poema,
As suas curvas curvas dariam um poema.

A sua languidez daria um poema,
A sua boca daria um poema,
A sua boceta daria um poema,
A sua altivez daria um poema.

Mas não serei hipócrita
Tentando empresa vã,
Você
Não caberia
Em um poema.

O mendigo-monge

O mendigo-monge
Sentado
No meio da rua
Em seu colchão de espuma
Com seu manto de trapos.

O mendigo-monge
Buscava
Sua nesga de sol
Em um dia invernal
Com sua barba de meses.

O mendigo-monge
Comia
Seu café da manhã
Em um pacote de biscoitos
Por alguém esquecido.

O mendigo-monge
Sonhava
Seu sonho de monge
Entregue ao instante
Com sua pele quente.

O mendigo-monge
Sorria
Sua cidade acordando
Em um lampejo febril
Com ar frio nos pulmões.

O mendigo-monge
Observava
Seus passantes sem
Tempo, como se mortos
E não vivos estivessem.

domingo, 30 de abril de 2017

Amor em Caxias do Sul, anos 50

Se tu não fosse minha,
Eu te roubava,
Dizia para a mãe
O pai.

Em um pinheiro
Bem frondoso
Subindo de pés descalços
Cada um tinha
O seu
Próprio
Galho.

O dia começava
Às quatro da manhã
Ainda escuro
Andando a cavalo
Buscando
As vacas
Para o paiol.
Tirando leite,
Buscando ovos
Antes da escola.

De volta
Deitada na grama
Sonhava acima da tampa
Do céu.

Na Páscoa
A correria
Atrás da cesta escondida
De ovos
E chocolates
Para cada um.

Final de ano
Todos reunidos
Dentro de casa
Esperando.
De repente
Chegava o papai noel
Sentado num burrico
E batia à porta
Deixando um saco vermelho
Com presentes
Para cada um.
O burrico ia para o paiol,
O pai entrava sem percebermos
E todos festejavam
A chegada
Do natal.

Tá na mesa! Vem pra casa!
Gritava a mãe,
Crianças correndo
Voltando dos tantos
Mundos e sonhos.

À noite
Em roda
A mãe
A polenta ao leite
À luz de um lampião
Antes de dormir.

Quando chovia
Era uma festa
De crianças pulando
Nas poças.
Chega de se molhar!
Sem sujar muita roupa!
Mas essas crianças não me obedecem!
Voltávamos.

Toda sexta-feira
Limpeza na casa:
Cera, vassoura,
Pano ajoelhado no chão.

No inverno
Banho com água fervida,
Mas no verão
Banho de rio,
Subindo nas pedras,
Pulando na água
Com sabonete
E roupas
Para lavar.

Era chegado o momento
Mais um irmão,
Vinha a parteira,
Todos na casa
Ansiosos
Até em roda
Ver a nova criança.

No frio
Em volta do fogão a lenha
Tomando chimarão
E comendo pinhão.
Amor.

sábado, 29 de abril de 2017

Nesta noite

Nesta noite
Na cozinha
Com Leo Marília
Marcos Gustavo
Margarida Milena
A alegria do preparar
A comida
O brilho do olhar
Simples
A poesia
Como tema
De fundo
O convite
De um sorriso
Possível.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Temer

Eu temo
Tu temes
Ele teme,
Nós não tememos
Vós não temeis
Eles não temem.

Vida

A vida em uma morte
A cada dia,
A vida em sopro,
A vida
Tombamento,
A vida
Caramujo
Vai-se,
A vida
Aberta,
A vida
No saber
Se perder,
A vida
Coragem,
A vida
Mordida
Com força.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Após

Após
Dias e noites e dias
E noites
Envolto
Nestes lençóis molhados
Então secos e molhados
De novo,
Após
Esse
Mingau da alma
Que endurece a minha barba
Da noite, de ontem, de nós,
Após
Fechar os olhos e abri-los sorrindo,
Deitar o corpo sem horizonte,
Deixar o pensamento
Tão
Longe,
Após
Esquecer-se doce
O mundo,
Após
Partilhar
Esse pão de luz,
Volta o dia,
Volta o sol,
Volta o relógio,
Volta a palavra,
Volta o poema.

sábado, 15 de abril de 2017

Eram

(com Adolfo Ibáñez)

Eram quatorze pessoas,
Era uma lava roupa de mesa,
Era uma troca amena,
Era um eco de sempre,
Era um eco do todo.

Eram quatorze pessoas,
Era uma música de fundo,
Eram cheiros inconsequentes,
Eram conversas privadas
Era o silêncio público.

Eram quatorze pessoas,
Era um nevoeiro de falas,
Eram intimidades entregues,
Era o descuido indefeso,
Eram sonhos nunca ditos.

Eram panos de fundo,
Eram pratos cheios,
Eram sobremesas doces,
Eram crianças voando,
Eram beijos a acontecer.

Eram naturezas vivas,
Eram paredes caidas,
Eram azulejos calados,
Eram profecias silenciosas,
Eram latinos sonhadores.

Eram quatorze pessoas,
Era a noite luminosa,
Eram encontros totais,
Eram relógios parados,
Eram garrafas carentes.

Eram quatorze pessoas,
Eram copos sumidos,
Eram corpos sorridos,
Eram corações em rio,
Era o absoluto presente.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Pois

Pois quero-te perto
Pois quero-te inteira
Pois quero-me dentro
De ti.

Pois quero-te certo
Pois quero-te beira
Pois quero-me todo
Entregue.

Pois quero-te verso
Pois quero-te lá reira
Pois quero-me morto
Em teus braços.