sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Noite noite

É noite
Na noite escura,
É lua
Na noite clara,
É nuvem
Na noite cinza,
São flores
Na noite noite.

É bela
A noite escura,
É amarela
A noite clara,
É singela
A noite cinza,
São perfumes
Na noite noite.

Encerramento

A beleza sem forma,
Sem rosto, sem sol,
Sem gosto, sem véu,
Apenas um céu de estrelas
Sem ruídos de nuvens,
Sem sofreguidão,
Sem certeza
Alguma,
Sem controle,
Sem construção,
É,
Sem antes
Nem depois,
Apenas
Um cheiro
De vida.

Respira.

Respira fundo.

E solta.

Lua de sangue

Essa lua de sangue
Em rápidos torvelinhos de nuvens
Some e reaparece.

Esse sangue geométrico
De rápida mudança
Em impermanência.

Passa,
Em milhões de formas diferentes,
A beleza,
A potência
Em diferentes degraus.

Quem sou
Já fui,
Serei
Quem sabe?

O amarelo inacabável
Dentro de nós
Na manhã inacabada
Resplandece.

Por tudo

Por tudo
Que os teus lábios
Me fizeram sorrir,

Por tudo
Que os teus lábios
Me fizeram chorar,

Por tudo
Que o teu toque
Me fez cantar,

Por tudo
Que o teu olho
Me fez sofrer,

Por tudo
Que o teu eu
Me fez amar,

Eu dedico
Essa lua brilhante,
Bela e triste,
Fria e distante.

Troca

A troca
Tênue
Com o outro
Possível.

O olhar
Fugaz
De repente
Acontecendo.

Um outro
Horizonte
Se realiza
Instantaneamente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Por que

Passa a margarida
E eu me pergunto por que?

Passam, passam,
Por que?

O outro impossível,
O outro distante,
O outro incomunicável,
Por que?

Passam passeios,
Passam passantes,
Passam espaços,
Por que?

Espaçam trocas,
Espaçam passagens,
Espaçam possíveis
Sem razão.

E quando não há mais
Razão
Há um algo
Que acontece,
Há um algo
Que transpira
Há um algo
Que borbulha
Há um algo
Que se alarga.

Polis

Grita a policromia
De luzes, brilhos, tons e sorrisos.

Canta a polissemia
De signos, de nomes, de coisas.

Chama a polifonia
De falas, ritmos, vozes e sentidos.

Clama a polimorfia
Por troca, por toque, por vida.

30 segundos

Tempo-lago
Tempo-tempo

Engolido
Rearranjado

Curvo
Transparente

Chave
Das fendas

Um pêndulo
Circular

Tempo raso
Tempo sem ritmo

Tempo espaço
Tempo escaço

Tempo trampa
Temporal

Tempo foto
Tempo filme

Que finda sem se querer
Mas sabe viver

Sabe sofrer
Sabe amar

Tudo
Plenamente tudo

Sabe sorrir
Sabe sentir

Mas a forma
                  Deforma

Mas a forma
                   Inexiste.

Utopia

O sonho de um novo
Amanhã segue sedento
De um rio a tanto
Esperado e belo.

Com a foz plácida
Desse rio caudaloso
Se acolhe a alma
Incomodada do que passa

A calma ansiada
Desejada em inanição
De uma possibilidade
De um verdadeiro futuro.

Miragem do deserto
Que se vê floresta
Chamando a prudência
De amor animado.

Céu de estrelas
Eternas e belas
Cantando doces
A certeza do mais

Infinitamente grande
Belo e reconfortante
Até que se perceba
A magna aura da eternidade.

Amizade

O corpo
Sorri,
O simples

Contato
E música
Transpira

Esse outro
Com quem falo
E me tem o coração.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre o tudo que há de vir

[nada]

Toca?

O outro

Você, que lê.
Você, que me escreve inteiro
Sem saber.
Você, o outro que não posso ver.

Quantas vezes fui tu
Tuteei sem nem ver
Tutatá um tatu
Tatuti tatuou.

Você que está aí,
Venha,
Entregue-se,
É um convite.

Sem eu em você
Sem você que nem eu
Tatu embolado
Tu que tu tatuado

Aturou sem teu ar
Areou ateia
Rarefez iorubá
Iançã cantou buá.

Tu que convidado
Vieste aqui,
Não sou mais eu
Pois sou nós.

Nós dois.
Iansã na mesa.
Quem escreve?
Quando é tanto o batuque...

Nós dois somos três,
Nós três somos cinco, dez, cem,
Então nos dissolvemos
No mar infinito de luz.

Fechado em um quarto
Escuro
Eu vejo
Você.

Fechado em um tempo
Finito
Eu vejo
Você.

Como pode?
Como posso, eu...
...eu que não sei o que sou...
Te ver tanto assim?

Como podemos?
Como o como?
Eu que não sei quem você é
Me ver tanto assim?

Anacolutos bonitos,
Onomatopéias certeiras,
E a beleza de um outro invisível
Pode, enfim, ser a minha.

Eis o amor

O amor é único
O amor é múltiplo
É cama é cozinha
É prato na mesa
É foda no quarto

É espaço vazio
De repente todo
É vivência inteira
O amor é dor
Que se escolhe

E ponto.

O amor é dó e ré
Dói todo e qualquer
Sou eu só sua
De mar de fel
Vira lua de mel.

O amor é fá e sol
Sorri simples alegre
Sou eu só seu
De céu e de lua
De areia e de mar.

Luz que espraia
Maré de si
e abraça, cala.

O Mar...
A distância mais curta entre sentir e pensar.

Omar Omar Omar
Ramoamar
Palmaramoamar.

Eis o amor
Contradição, paradoxo,
Dúvida certeza,
Troca, olhar,
Amor é sentido,
Início e fim
De nós.

Leve

Leve como a neve
Se eu fosse Dostoievski
Eu faria um fratricídio.

Leve como se deve
Se eu fosse Saramago
Me casava com Pilar.

Pese Fitzgerald
Zelda ao bailar
Em rumos, fios auscultar.

Leve como se neve.

Injusto

A injustiça do Estado
Fere, machuca, dói,
A constante dúvida,
O sempre talvez,
O gás, a nuvem, sem paz.

Quadros brancos,
Sonetinhos bonitos
ABBA
Nossa rima rearrumará
Casas erradas.

Gasolina cerveja cigarro
Sem carro botija e namorado
É tudo sem teto e sem bordado
No meu verso cortado e errado
Tiro porrada e gás tacado.

E borda de verso: cigarro
Dúvida, rima e estado
Sem casa, cerveja, carro
Me perco em sonetos: falo
Sem paz e teto e...

Preto fado, por que?
Então me defronto e se?
Então transpiro, blazé,
Então ninguém vê
A morte progressiva.

Dúvidas

Quais são
As cores
Das folhas verdes
Da Voluntários da Pátria
Às três da tarde?

Quais são
As luzes
Que brilham singelas
Na praça São Salvador
Às seis da manhã?

Como é
O cheiro da aurora
Que contamina e transborda
Na pedra do Arpoador?

Como é
O ultrapassar fluido
Que trespassa e fere
Ao provar a beleza?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Outro

Nessa vida tão intensa
Tão pulsânime
Tão forte
E doce
O outro
Me atravessa.

Quadro

O transbordar
De sons,
De luzes,
De gostos.

Ser criança,
Em um mundo
Novo,
Em um mundo
Cores.

O mundo
Traz
Liberdade,
Infinito,
Impossível.

Estar
E não estar,
Um depósito de lembranças
A se acumular
Transbordando
Futuros.

Mais uma praça

A luz
Sombreando
O verde.

O drama
Do verde
Tronco.

A luz
Da lua
Focaliza
A praça
Iluminada.

O lugar
Em dádiva,
A vontade
De fazer
Som,
De fazer
Música,
De fazer
Poesia.

Não lugar,
Não aqui,
Apenas
Desejos,
Apenas
Vontades,
Apenas
Bem vindo.

Praça

Nesta praça
De luzes e cores
Que atravessam
Uma busca
De contato,
De encontro,
De troca,
De trigo,
De troco,
Uma vontade de manifestar-se,
Uma vontade de aproximar-se
Do núcleo,
A liberdade
É controle ou descontrole?

Neste espaço
De corpos e sons
Que provocam
Uma experiência
De calor,
De movimento,
De caos,
De cantos,
De suor,
A possibilidade do descompartimento,
A possibilidade do compartilhar
A esperança
Em um futuro
Indeterminado.

Neste chão
Provisório
Deixo de ser eu
E passamos a ser nós.
Desconhecer-se
Rumo ao outro,
Rumo à parte
Que a praça te traz.